Tributo a um líder sustentável: Ray Anderson

Tributo a um líder sustentável: Ray Anderson

Por Ricardo Voltolini

Nesta segunda-feira (08/08/2011), morreu Ray Anderson, após quase uma década de luta contra um câncer.

Chairman da InterfaceFlor,  ele se transformou em um  dos mais importantes líderes em sustentabilidade do mundo. Pioneiro na abordagem empresarial do tema, uma espécie de herege no berço do capitalismo global, ele esteve no Brasil poucas vezes, cumprindo a sua pregação verde. Aqui, deixou uma legião de admiradores, entre os quais este jornalista que – confessa – começou a investigar liderança em sustentabilidade por influência das ideias de Anderson e do seu carisma provocativo. Vale admitir que o livro Conversas com Líderes Sustentáveis deve sua concepção, em boa parte, à semente plantada pelo dono da InterfaceFlor em seminário proferido na Conferência Ethos de 2008.

Em entrevista dada à revista Ideia Sustentável, logo após a Conferência, Anderson contou que começou a pensar no tema em 1994, por causa de provocações feitas pelos clientes da empresa e, principalmente, da leitura do livro A Ecologia do Comércio, de Paul Hawken. “Nunca demos nenhuma importância para o fato de que a empresa consumia, por ano, energia suficiente para iluminar e aquecer uma cidade”, escreveu Anderson à revista Ideia Sustentável em 2008. “Nem que processávamos mais do que um bilhão de libras de matéria-prima anualmente (a maioria derivada de petróleo) e queimávamos sete bilhões a mais de libras em combustíveis fósseis, transformando tudo isso em placas de carpete usadas em escritórios e hospitais, aeroportos e hotéis, escolas, universidades e lojas de todo o mundo. Também não nos atentamos para o fato de que, todos os dias, apenas uma de nossas fábricas descarregava seis toneladas de sobras de carpete nos aterros locais. Não tínhamos a menor ideia do que acontecia com todo aquele resíduo. Por que deveríamos? Isso era problema de alguém, não nosso.”

Impactado pela demanda dos clientes e pelo contundente ideário verde de Hawken, Anderson decidiu, pouco antes de sua empresa completar 21 anos, que a partir daquele momento a InterfaceFlor só “tomaria da Terra o que fosse natural e rapidamente renovável.” Como resultado desse desafio, gestou-se o projeto chamado  Missão Zero, que prevê eliminar os impactos ambientais até 2020. “Quatorze anos atrás, quando ousei descrever a alguns amigos as aspirações que me motivavam a construir o modelo de empresa que tenho hoje, ouvi que eram impossíveis de ser realizadas. O impossível hoje se traduz no uso altamente eficaz do petróleo (energia e matéria-prima) para a fabricação do carpete, com redução de 88%, em toneladas absolutas, nas emissões de gases de efeito estufa e de 80% no uso de água, em relação a 1996. Fizemos tudo isso num contexto de aumento de dois terços nas vendas e 100% no faturamento”, afirmou o chairman da InterfaceFlor, empresa com 4 mil empregados e atuação em 110 países.

Os números da InterfaceFlor comprovam que ser sustentável é um bom negócio. A iniciativa de eliminar resíduos, sozinha, proporcionou à companhia uma economia de custos da ordem de U$ 372 milhões em 13 anos, quantia suficiente para cobrir todos os investimentos feitos no esforço de implantar a nova missão verde da empresa. Cerca de 42% de fumaça e 81% de efluentes foram evitados em virtude de mudanças de processos. E ainda 133 milhões de libras de produtos usados e coletados no end-of-life acabaram reciclados em carpete novo. Mais de 20% das matérias-primas provêm de fontes renováveis, recicladas ou biomateriais (a meta é 100% até 2020), a energia derivada de combustíveis fósseis foi reduzida em 55% e seis das 11 fábricas já operam com 100% de eletricidade gerada a partir de fontes renováveis (solar, eólica, geotérmica e biomassa).

Segundo Anderson, não se faz uma revolução sustentável no modelo de negócio de uma empresa sem a participação efetiva dos seus colaboradores. Muito menos sem líderes que acreditam, por princípio, no valor da mudança para o futuro do negócio e do planeta. Segundo o empresário, as pessoas “ficam melhores” quando trabalham com um propósito. E quem há de discordar de tal afirmação. “Em 52 anos atuando na indústria, nunca vi algum valor equivalente ao da sustentabilidade para atrair motivação e unir indivíduos. Ninguém mais vai à empresa só para fabricar e vender carpetes. Vai também para ajudar a salvar o planeta”, exultava bem-humorado.

Segundo Anderson, sustentabilidade é um tema ascendente no campo da inovação. E a possibilidade de inovar – crê – empodera as pessoas a ponto de emprestar-lhes uma razão maior para irem ao trabalho. “Rotineiramente, nossos designers se fazem perguntas esotéricas do tipo ‘como a natureza desenharia a cobertura de um chão?’ ou ‘como um lagarto se penduraria de ponta-cabeça em um teto?’ De indagações como essas, fundadas no conceito de biomimetismo, têm surgido inovações importantes em processos e produtos”, festejava.

Anderson costumava usar a metáfora da montanha para explicar o trajeto que uma empresa deve fazer para se tornar sustentável. Entre o topo e a base – caminho que ele julgava o mais correto – há, segundo ele, sete estágios a cumprir, nenhum dos quais pode ser pulado sob risco de comprometer a qualidade da escalada. Foi exatamente esse roteiro que ele  adotou para transformar a sua InterfaceFlor na mais sustentável fabricante de carpetes do planeta.

O primeiro passo de Anderson consiste em eliminar o lixo dos processos industriais, cortando o desperdício de recursos. O segundo refere-se a envolver os fornecedores em um esforço de redução de emissões de carbono; e o terceiro à busca de eficiência energética, substituindo a matriz de combustível fóssil por fontes renováveis. O quarto abriga as atividades de redesenhar processos, reciclar e reutilizar. O quinto está relacionado ao “esverdeamento” da cadeia de transporte. O sexto tem a ver com a mudança da cultura interna para um novo modelo de produção, ambientalmente responsável. E o sétimo, mais abrangente, compreende a reinvenção da atividade comercial e do próprio mercado, a partir de novas regras  que possibilitem a convivência mais harmoniosa entre a biosfera e a tecnosfera.

Para o que interessa neste artigo, a lição a se extrair da saga da montanha de Anderson é que não se atinge o objetivo sem esforço, crença firme, uma bússola de valores humanos, plano de ação e estratégias capazes de superar os entraves naturalmente impostos à mudança. Também não se chega lá sem liderança firme e decidida. “Talvez o mais espetacular resultado seja que essa iniciativa produziu um modelo de negócios melhor, um jeito melhor e mais legítimo de lucrar. Trata-se de um modelo empresarial que desconcerta os concorrentes de mercado, sem jogar a conta pesada para a Terra e as gerações futuras. Em vez disso, as inclui em relações do tipo ganha-ganha-ganha”, explicava Anderson.

Por tudo que disse e praticou, nos últimos 17 anos, Anderson fará muita falta. Como fez Anita Rodick, a fundadora da The Body Shop, quando se foi deste mundo, em 2007. Ambos deixaram, como legado, ideias fortes, empresas exemplares do ponto de vista do ativismo socioambiental e uma legião de seguidores que não vão deixar seus ideais morrerem.

Nota do autor: Este artigo foi elaborado com base em passagens do capítulo “Uma pioneira e um reformador”, do meu livro Conversas com Líderes Sustentáveis: o que aprender com quem fez ou está fazendo a mudança para a sustentabilidade. É a minha homenagem a um verdadeiro líder sustentável.

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