Revolução Francesa no cinema: vence a sustentabilidade

Revolução Francesa no cinema: vence a sustentabilidade

Batizada como ecologista, a “Escola do Cinema Francês” iniciou uma revolução na arte de “tocar” o público, com manifestos de humanismo em obras como “One” e “Océans”
Adultos, adolescentes e crianças cruzam-se, agora, em salas obscuras (de cinema) para iluminarem a sua consciência, numa pós-era de documentários americanos. Menos palavras. Mais imagens. Menos documentário. Mais cinema. Eis a mais recente revolução francesa: a sustentabilidade conquista um novo estatuto e ganha um maior destaque. Sem beliscar o espetáculo, a emoção ou a reflexão, a sétima arte assume-se, através da “Escola Francesa de Ecologia”, como veículo de comunicação privilegiado[1].

Jacques Perrin et Jacques Cluzaud – Crédito: Mathieu Simonet

Os responsáveis? As duplas Jean-Albert Lièvre[2] e Nicolas Hulot[3] e Jacques Cluzaud e Jacques Perrin[4] (e, eventualmente, Yann Arthus-Bertrand e Luc Besson, com “Home”). “One[5]” e “Océans[6]” revelam-se como obras um passo à frente da era de documentários americanos sobre sustentabilidade: “Uma Verdade Inconveniente”[7], que valeu um Oscar e um Nobel a Al Gore, e a tímida tentativa de “11th hour”[8].
Por que razão deixar levar-se pela onda de tendência, marcada por uma sucessão de estréias de filmes ligados à ecologia, nestes últimos anos? Segundo Jean-Albert Lièvre, “sempre houve filmes sobre a Terra, como há sobre a guerra, sobre o amor, sobre o mesmo tema, mas todos distintos…” Mais do que diagnosticar o estado do nosso planeta, a meta destes realizadores franceses é “tocar” os espectadores através da emoção. Transmitir a mensagem da necessidade de “mergulhar” a fundo na onda de mudança, através de olhares únicos.
2009: sustentabilidade alarga “pegada” no cinema
Sem descuidar da reflexão, o grupo de realizadores dirige-se, essencialmente, à emoção do espectador. Para o efeito, “recorremos a todos os meios proporcionados pelo cinema”, revela Cluzaud. Com a estréia de três filmes na França, no espaço de um ano (2009) e de dois olhares cinematográficos sobre a realidade (além de ‘Home’, de Luc Besson e Yann Arthus-Bertrand), a denominada “Escola Francesa de Ecologia” recupera a sua arte cinematográfica, servindo-se da grande tela como aliada, num movimento de sensibilização do grande público.
Para justificar a saída de casa e o pagamento do seu lugar, numa sala de cinema, para assistir convenientemente à projeção de um filme – pesa, no contexto francês, o fato deste “movimento” contar com duas personalidades inegavelmente admiradas e respeitadas pela maioria dos franceses. Nicolas Hulot, conhecido por sua luta de décadas no campo da ecologia. Além do sucesso dos seus programas na televisão e do seu poder de influência como comunicador ele rodeia-se constantemente de aconselhamento junto do grupo de especialistas da sua Fundação -. E Jacques Perrin, com um reconhecimento além-fronteiras, pela sua mestria e palmares de excelência na arte cinematográfica e paixão pela natureza, testemunhada pelos espectadores em obras anteriores como “Le Peuple Migrateur”[9]. Jacques Cluzaud e Jean-Albert Lièvre completam este círculo de homens franceses, de gerações distintas, que dão vida a obras imaginadas há mais de cinco anos.
Do papel à grande tela
Na abrangência do público: “One” “fala” mais a adultos e, eventualmente, a adolescentes. Já para assistir a “Océans”, requer-se toda a família, incluindo crianças a partir dos sete anos.
“Apesar de qualquer um destes lançamentos suceder ao mega-divulgado “Home” e correr o risco de enfrentar um público vítima de cansaço[10], em relação a sermões ecologistas, felizmente, qualquer dos dois filmes da Escola Francesa de Cinema de Ecologia que chegam após “Home” (One e Océans) são o seu perfeito antídoto”, alerta o jornalista Sébastien Chapuys.
Sem catalogar o grau de importância de qualquer uma das obras – ao contrário -,  a sugestão é de que o público predisposto a assistir a um dos filmes não deixe de assistir as demais obras, recomendáveis pelo seu valor pedagógico e cidadão e pelas suas qualidades puramente cinematográficas. Obrigatoriamente, uma verdadeira sala de cinema.
Que passo se segue à Revolução Francesa?
Chegou a hora da nossa oportunidade. É esta a mensagem que nos transmitem, cada um ao seu estilo (orçamento, estratégia e background), através da arte da emoção por excelência: o cinema. “Uma linguagem universal e de liberdade, que nunca deveria ser censurada”, como destacou a atriz francesa Isabelle Huppert, ao receber o Prêmio Carreira, na Cerimônia do Cinema Europeu (2009).
Beba-se na fonte da tradição cinematográfica francesa, degustando os ingredientes das obras de arte que contribuem para o movimento em marcha. Em One coloca-se a sociedade face ao espelho. Em Océans assiste-se ao fim anunciado de um sonho (a biodiversidade) tal qual o conhecemos. Mesmo se a realidade parece infinitamente distante do dia-a-dia do cidadão comum. Emocionamo-nos, refletimos, preparamo-nos (ou não) para dar o passo em direção à mutação que se anuncia.
Quando as luzes se acendem, fica mais claro o quanto esta Era é decisiva na escolha entre a opção (sociedade humana) ou a imposição (pela natureza). Como dizia o escritor George Orwell, “em tempos de engano generalizado, o mero fato de dizer a verdade é revolucionário”. Eis uma contribuição do cinema francês para a conscientização da sustentabilidade no mundo, encaminhando-nos para o passo seguinte: a descoberta para atingir melhor qualidade de vida, privilegiando o menos e o melhor, em detrimento da adição do sempre mais, ao reduzir no material e ao ganhar nas relações. Como sublinha Nicolas Hulot: “a educação e o saber são os remédios para a miséria.” O desafio que se segue? Como educar e tornar-se ator da metamorfose?
* Mestre em Sustentabilidade (Universidade de Cranfield, Reino Unido) e autora do livro “Sustentabilidade na mídia: o poder de (in)formar” (Envolverde, 2009 – Brasil)
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[1] Comparativamente ao impacto no público através de outros meios de comunicação , como os jornais, a rádio, a televisão ou a internet ou de outras formas de arte
[2] Jean-Albert Lièvre (1961) é realizador. Eleito, em 1996, membro do Clube de Nova York Explorer, ganha, no ano seguinte, o Prêmio Rolex pelo documentário sobre proteção do mundo animal, “Dugongs e peixes-boi”, exibido em mais de 150 países. Colabora com as televisões japonesa e americana. É na Costa Rica que se dá o encontro com Nicolas Hulot, do qual nasce uma colaboração regular. No ano de lançamento de “Cidadãos da Terra”, 2007, o seu filme de abertura da Conferência de Paris para a Governança Ecológica Global, decide levar a cabo o “Syndrome de Titanic / One”.
[3] Nicolas Hulot (1955) é apresentador, repórter, ecologista e escritor (com mais de 17 livros publicados). Na sequência do impacto do seu programa de televisão, Ushuaia, compromete-se cada vez mais com a proteção ambiental e com a sensibilização do público em geral em relação a questões ecológicas. Cria uma Fundação, em 1990, hoje denominada Nicolas Hulot – para a natureza e para o homem – e introduz urgentes questões ecológicas no debate da campanha eleitoral da presidência francesa (2007), conquistando o compromisso e a assinatura do Pacto Ecológico por parte da maioria dos candidatos.
[4] Jacques Perrin (1941) é ator, realizador e cineasta. No Festival de Veneza, em 1966, ganha dois prêmios como Melhor Ator. Passados três anos, recebe o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, com um filme no qual atua, produzido pelo seu estúdio. Em 1976 repete a proeza de ganhar um Oscar, com um filme que produz. E quem não se lembra de Perrin, como o adulto Salvatore, no êxito “Cinema Paradiso”? Mais recentemente, seus sucessos contam com filmes como “Microcosmos” e “Le Peuple Migrateur”
[5] O ”Syndrome du Titanic” foi a denominação do filme para o mercado francês, que marca a ideia inicial de Nicolas Hulot de passar para a grande tela a história contada no seu livro homônimo, publicado em França, em 2004. “One” foi a denominação proposta por Jean-Albert Lièvre para o mercado internacional, para passar a mensagem de unidade, de um único planeta, num único universo.
[6] E o filme “Home”, analisado de uma outra perspectiva, tendo em conta que a entrevista com o realizador Yann Arthus-Bertrand e produtor Luc Besson não teve lugar com a autora.
[7] De Davis Guggenheim e Al Gore
[8] de Nadia Conners e Leila Conners Peterson, com Leonardo Dicaprio
[9] Tradução: BR: migração alada. É um filme francês de 2001, do gênero documentário. Dirigido por Jacques Perrin, Jacques Cluzaud e Michel Debats, teve a sua estréia em França a 12 de Dezembro de 2001. Foi indicado na categoria Melhor Documentário, para um Oscar (EUA) em 2003; venceu na categoria de Melhor Edição, para um César em 2002 (França), e foi indicado nas categorias de Melhor Trilha Sonora e Melhor Filme de Estreia; e foi indicado, ainda, na categoria de Melhor Documentário, para o Prêmio Goya (2003); e indicado na mesma categoria para o European Film Awards (2002).
O documentário registra a migração de aves em 40 países, em todos os continentes. As filmagens foram realizadas durante três anos. A equipe de filmagem foi composta por 450 pessoas, 17 pilotos e 14 câmeras. Para registrar as aves em vôo, foram utilizados um avião monomotor, planadores, pára-quedas, helicópteros e balões.
[10] Sobretudo no contexto francês

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