Mauro Ambrósio: Sustentabilidade: planejar é preciso

Mauro Ambrósio: Sustentabilidade: planejar é preciso


Tenho visitado muitas empresas para discutir os seus projetos de sustentabilidade. Algumas vezes no sentido mais amplo, em outras apenas aquelas que consideram o assunto dentro de um contexto socioambiental.
Em tempos de forte crise financeira, de falta de liquidez, de medo em excesso, às vezes infundado em relação ao futuro, o que tenho encontrado? O nobre leitor certamente deve ter pensado: redução dos investimentos sociais; adiamento dos projetos programados; reconsideração de projetos ambientais para não inibir os investimentos nas atividades produtivas geradoras de caixa; redução de recursos para os projetos ligados ao seu fator humano etc, etc.
E, para a grande maioria das empresas, o leitor acertou na mosca! Digo grande maioria porque felizmente, para todos nós que estamos interessados – mesmo que pequena e indiretamente – na influência das organizações empresariais em nossas vidas salvam-se boas e planejadas cabeças e almas. Sim, há luz no fim do túnel. E o que diferencia essas poucas almas? A resposta é simples. Planejamento.
Pode parecer clichê, mas nunca é demais dizer: em toda atividade, como em tudo na vida, planejar é preciso. Vimos nos últimos anos, quem sabe décadas, empresas e executivos alardeando sobre ações sociais e ambientais. Lindos relatórios sociais. Mas o que se viu na realidade é que poucos fizeram de fato a lição de casa. Qual seria? O tão necessário e pouco considerado Planejamento Estratégico de Sustentabilidade.
E o que tem de tão especial esse nome pomposo? Simples. Ele permite que uma empresa invista seus parcos recursos (e geralmente eles são mesmo para essa área) de maneira consciente, planejada, estruturada, sabendo quanto, como e onde deve investir. Canalizar cada centavo disponível para aqueles projetos que interessam à empresa e aos seus grupos de interesse (stakeholders); não desperdiçar tempo e dinheiro em projetos sem fundamentos, que estão lá na pauta do dia ou do ano, sem que ao menos alguém os tenha questionado.
Tudo deve sempre ser voltado para a estratégia de negócio da empresa. Esta é a grande sacada. Planejar e investir em projetos de sustentabilidade que tenham a ver com o negócio da empresa, estratégias e plano de futuro. E como se consegue isso? Com uma clara definição de como a empresa pretende crescer, aonde ela quer chegar, no envolvimento de todas as áreas-chave da organização, que juntas farão a interface entre os negócios estrategiados e suas influências positivas e negativas nos grupos de interesses.
Mapear qual a verdadeira influência da estratégia na cadeia produtiva, de fornecimento, no meio ambiente, no corpo de funcionários e seus familiares, na comunidade local, no relacionamento com os governos, enfim, tudo deve estar intimamente relacionado. Criar uma matriz de projetos, suas interrelações, as prioridades, seus responsáveis, os recursos necessários e seus retornos. Assim, fica mais fácil decidir o que fazer em tempos de crise. Fica mais difícil a interrupção, por si só, sem justificativas de investimentos em projetos de sustentabilidade.
Com um Planejamento Estratégico de Sustentabilidade bem feito, as decisões serão tomadas com mais coerência, pois ele mostra os caminhos pelos quais a empresa deve seguir para atingir seus objetivos e dificilmente serão abortados, como hoje acontece com projetos que nasceram sabe Deus de onde e para o quê.
Para completar este cenário, vem a figura da peça orçamentária. Confesso que tenho visto pouca utilização dela quando o assunto é sustentabilidade. Mas não há porque se diferenciar o Orçamento de Negócio, que a maioria das empresas têm, do Orçamento de Sustentabilidade. Lembrem que estratégia de negócio e sustentabilidade devem caminhar lado a lado. Então aí estão a saída e a cereja do bolo. O orçamento anual da empresa deve contemplar seus projetos de sustentabilidade.
Se isso acontecer, dificilmente serão alegadas razões financeiras para interrupção de projetos. O que se pode indagar é se este orçamento deve ser revisto, mas aí é outra estória. Já estava previsto, planejado e acordado. E o acordado não é caro. Planejar é preciso.
* Mauro Ambrósio é sócio-diretor da Crowe Horwath RCS
para Auditoria e Sustentabilidade

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