Liderar para a sustentabilidade: o desafio é “para dentro” e para os que se importam

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Ricardo Voltolini


Para Gus Speth, fundador do World Resources Institute, os grandes problemas ambientais de nosso tempo seriam a perda de biodiversidade, o colapso dos ecossistemas e as mudanças climáticas. Temas graves, sem dúvida, mas solucionáveis com trinta anos de boa ciência. Passado algum tempo, reviu sua convicção: “Estava errado. Os principais problemas ambientais são o egoísmo, a ganância e a apatia. E para lidar com eles, precisamos de uma transformação espiritual e cultural”, concluiu.

A análise, incômoda e provocativa, não é isolada. Porta-vozes influentes da sustentabilidade, como Paul Polman, Klaus Schwab, Paul Hawken, Al Gore, Peter Senge e John Elkington, sustentam a mesma ideia central: não nos faltam tecnologia, inovação nem recursos financeiros para viabilizar uma economia de baixo carbono. O que falta é liderança orientada por valores e comprometida com impacto positivo. Essa carência explica por que tantas metas ambientais continuam distantes, apesar do avanço das soluções técnicas.

ações em ESG

Vivemos em meio ao que alguns chamam de policrise — econômica, social, climática, ambiental e geopolítica. Mas cresce a percepção de que essa crise múltipla é, na verdade, efeito de uma crise mais profunda: a de valores. Falta humanidade e sobra indiferença nos processos de decisão. O resultado é a predominância de interesses políticos e empresariais imediatistas sobre os interesses da sociedade e do planeta. Exemplos ruins não faltam, no Brasil e no mundo, e ajudam a corroer a confiança social nas instituições.

Esse diagnóstico não é novo. Em 2008, durante a crise financeira global, dirigentes da Universidade de Harvard reconheceram, em público, o papel de ex-alunos na criação da bolha especulativa que levou à quebra de bancos e à recessão. Não faltou a eles conhecimento técnico, tampouco habilidade de gestão. O que faltou foi atitude — o terceiro vértice do conceito clássico de competência, ao lado do saber e do saber fazer. Atitude nasce de valores, princípios e crenças, moldados ao longo da vida, e define a capacidade de escolher o caminho certo mesmo sob pressões intensas.

Essa constatação orientou a minha própria trajetória de pesquisa. Ao longo dos anos, entrevistei mais de 300 executivos, estudei autores que tratavam do tema e sistematizei reflexões em livros e artigos. Dessa caminhada nasceu a Teoria das 4 Competências Atitudinais: cuidadora, inclusiva, íntegra e ecocêntrica. Em torno delas, identifiquei 20 características distintivas que diferenciam líderes movidos por valores daqueles que apenas repetem padrões convencionais de comando.

Em 2022, encontrei convergência entre minhas investigações e os Inner Development Goals (IDGs), uma iniciativa nórdica concebida para apoiar a aceleração dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). Dois aspectos tornam o movimento singular. O primeiro é a convicção de que a saída para a policrise é, antes de tudo, “para dentro”: sem transformação interior, não haverá transformação sistêmica. O segundo é o processo de cocriar, com mais de mil especialistas em todo o mundo, um framework instigante com cinco dimensões — Ser, Pensar, Relacionar-se, Colaborar e Agir — e 23 competências práticas, ou seja, comportamentos capazes de fortalecer a transformação pessoal.

Esse conjunto funciona como uma bússola para líderes que precisam navegar por mares turbulentos, oferecendo equilíbrio emocional e segurança psicológica. Os IDGs estimulam presença, autoconsciência, empatia, pensamento crítico, visão sistêmica, colaboração e resiliência. Não substituem o conhecimento técnico exigido para a gestão em tempos complexos, mas o complementam de forma decisiva, ao cultivar qualidades humanas indispensáveis. Hoje já estão presentes em mais de 700 hubs em 90 países, reunindo governos, empresas e organizações da sociedade civil.

No fundo, tudo se resume ao verbo importar-se. Sua origem latina, importare, significa “trazer para dentro”. Com o pronome reflexivo sibi, adquire o sentido de considerar algo como parte de si, atribuir importância, cuidar. Só nos mobilizamos para aquilo que reconhecemos como relevante para a nossa vida e alinhado aos valores que orientam nossas escolhas. O oposto de importar-se é a indiferença.

E o mundo, convenhamos, já está repleto de indiferentes. Por isso, liderar para a sustentabilidade é um desafio que começa de dentro. E só poderá ser enfrentado por aqueles que realmente se importam.

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