Direitos Humanos e Educação na agenda das empresas

Direitos Humanos e Educação na agenda das empresas

Na semana em que o Brasil sofreu a perda da antropóloga Ruth Cardoso, dois eventos emblemáticos reavivaram uma velha tese defendida por ela de que a solução para os problemas sociais do País não deve ser responsabilidade exclusiva do Estado, mas construída a partir de um diálogo aberto e da ação conjunta de governos, empresas e organizações da sociedade civil.
Na terça-feira (24/06), o Instituto Ethos cometeu a proeza de reunir, numa mesa sala, o presidente Lula, o governador José Serra, o prefeito Gilberto Kassab, alguns ministros de Estado e mais de 250 peso-pesados do mundo empresarial para discutir os Direitos Humanos sob uma perspectiva da responsabilidade social das empresas. Três dias depois foi a vez de Jorge Gerdau, um dos mais carismáticos empresários brasileiros, presidente do movimento Todos Pela Educação, convocar para uma conversa franca o ministro da Educação, Fernando Haddad, dirigentes empresariais e líderes de fundações ligadas ao GIFE (Grupo de Institutos, Empresas e Fundações) com o propósito de promover um alinhamento do investimento feito por empresas em educação com as políticas públicas da área.
Dois ritos de celebração à cidadania, dois sinais convergentes de que o Brasil anda mesmo, a despeito dos céticos, em processo de revisão de consciência cívica. Em comum, a inserção em agenda conjunta e intersetorial de temas antes restritos à agenda particular de cada setor. Até bem pouco tempo atrás, seria impensável congregar tantos empresários importantes, e de uma vez só, em torno de uma pauta que não fosse puramente econômica.
Impensável seria também que, reunidos por vontade própria, eles se dispusessem não apenas a debater, mas a construir soluções para os Direitos Humanos e a educação, assumindo responsabilidades que nunca viram como suas, atribuídas historicamente, por protocolo de função, aos governos e organizações da sociedade civil. Isso dá bem a medida da importância dos dois encontros. E os alça, sem exagero, à condição de ritos de passagem para um País mais sustentável, preocupado em conciliar desenvolvimento econômico com proteção ambiental e justiça social.
Em comemoração aos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, e dos seus próprios 10 anos, o Instituto Ethos fez sentar a uma mesma mesa ministros e presidentes de empresas. E a eles propôs discutir caminhos para melhorar a acessibilidade e empregabilidade de pessoas com deficiência, desenvolver políticas dirigidas a crianças, adolescentes e jovens, promover a equidade de gênero, a equidade racial e a erradicação do trabalho escravo. Mais do que isso, estimulou-os a se comprometer no curto, médio e longo prazos. Não apenas no discurso, sempre rápido e fácil. Mas na ação, com metas, a partir do monitoramento de indicadores para cada um dos cinco temas. Se a boa vontade demonstrada no diálogo vai resultar em práticas mais consistentes, o tempo é que vai mostrar. De qualquer modo, o encontro já terá valido a pena como símbolo de um novo arranjo de forças para a superação dos dilemas sociais que nos separam dos países desenvolvidos.
No outro evento, denominado “Agenda Alinhada do Investimento Social Privado na Educação”, Jorge Gerdau definiu-se como um “fanático” por educação de qualidade – o único modo, segundo ele, de incluir os excluídos e assegurar igualdade de oportunidades para todos os brasileiros. Adepto confesso e entusiasmado dos fundamentos da qualidade total, Gerdau acha que o grande desafio está em criar tecnologias de gestão educacional que promovam a mudança no “chão da escola”. Analisar, avaliar, medir, monitorar e premiar são – em sua opinião – ações fundamentais no esforço de elevar o padrão da escola pública brasileira aos níveis do benchmark internacional. E para esta missão coletiva – que classifica como de alto interesse nacional – será necessária uma mudança de atitudes individuais de pais, alunos, professores, diretores, autoridades públicas e empresas.
Para Gerdau, as empresas têm sim parte de responsabilidade nisso, assim como as suas fundações e institutos. Segundo estudo do GIFE, as suas organizações associadas investiram algo em torno de R$ 1,4 bilhão, uma parte da qual em educação. Pouco se comparado, por exemplo, ao orçamento de R$ 90 bilhões do Ministério da Educação. Mas muito, a considerar que, além dos recursos financeiros, por estarem ligadas a empresas, essas organizações dispõem de ativos, como instrumentos de gestão, racionalidade gerencial, poder político, atuação em rede, capacidade de pesquisa, desenvolvimento e inovação em soluções. Um dos objetivos do encontro foi justamente mostrar que, quando em sinergia com políticas públicas, e não sobrepostos a elas, os recursos privados dedicados à educação podem fazer a diferença positiva na forma de serviços de alta qualidade, novos padrões de excelência,  tecnologias com potencial de replicação, oportunidades especiais para talentos especiais e implantação de princípios elevados de gestão.
Pode-se esperar boas coisas quando as melhores cabeças do mundo empresarial se dispõem a participar da construção de um novo projeto de nação.    Pode-se esperar também boas coisas quando, para além de diferenças ideológicas, técnicas ou retóricas, governos e organizações aceitam o desafio do diálogo sem resistências.  De onde estiver, dona Ruth Cardoso deve estar satisfeita com o fato de que suas idéias, antes vistas como à frente do tempo, começam, finalmente, a encontrar o seu tempo.
Artigo publicado no jornal Gazeta Mercantil em 01/07/2008.

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