Daniela Aiach – Minha história em uma escola de sustentabilidade

Daniela Aiach – Minha história em uma escola de sustentabilidade


A Partida
Saí de São Paulo rumo a Londres, em meio ao turbilhão do caos aéreo do final de junho. No aeroporto, após presenciar cenas bizarras, como uma senhora que levantava a blusa para chamar atenção e uma outra que ameaçava jogar um vaso de flores no atendente de uma de nossas companhias aéreas, pensei: estaria a humanidade também caminhando para um caos psicológico? O caos ambiental já parecia inevitável… Concluiria mais tarde que o caos ambiental começa com o caos psicológico, resultado do afastamento do homem de sua essência, da desconexão com Gaia – a natureza, um sistema vivo, como diria James Lovelock – o criador dessa teoria.
Chegada ao Schumacher
Cheguei a Totnes, cidade próxima de Dartington (onde o Schumacher College está localizado) às 11:00 da noite, após 3 horas de trem. As paisagens do interior da Inglaterra, visíveis graças ao pôr-do-sol tardio do verão setentrional, são, como eu já esperava, de arrepiar! Quilômetros de verde nos mais diversos tons.
A escola, que ocupa um castelo medieval de 700 anos, foi fundada por um indiano chamado Satish Kumar que, inspirado no autor do livro “Small is Beautiful”, o economista alemão Ernst Friedrich Schumacher, montou um centro que se propõe a discutir os assuntos que assolam a humanidade atualmente, um centro de estudos holísticos.
“O Planeta sobreviverá ao Capitalismo?”, é o título de um dos cursos. “Liderança Inspiradora: olhando as Empresas como Organismos Vivos”, é o de outro. O Schu, como afetivamente o chamamos, é um lugar onde aprendizado e trabalho caminham juntos, onde o significado de viver em comunidade (como faziam as antigas civilizações) é apresentado como uma das saídas para a degradação ambiental e comportamental que já começamos a presenciar, e o colapso financeiro, que estaria por vir.
O que esperar do Schumacher
Além de aulas com grandes nomes, de cientistas a ativistas ambientais, de professores a homens de negócios, sobre temas envolvendo um novo modelo civilizatório que nos brinde com a desejada sustentabilidade, os participantes dos cursos em Schumacher limpam, cozinham e cuidam do jardim. Não que a escola não pudesse contratar pessoas para essas funções. É que trabalhar em comunidade faz parte da filosofia da escola, faz parte do aprendizado. Muita gente volta para casa tendo descoberto ou resgatado o prazer de cozinhar.
Falando em cozinhar, a escola publicou um livro de culinária vegetariana e a comida, saudável e também vegetariana, não poderia ser mais saborosa! Estar em Schumacher significa a possibilidade de viver num mundo melhor, onde o reconciliar-se com a natureza se apresenta como de vital importância para sairmos do imbróglio que nós mesmos criamos.
A proposta educacional
Para caracterizar o modo Schumacher de ser, tomo como exemplo as aulas que tivemos com Ruppert Sheldrake, cientista inglês da universidade de Cambridge falando sobre ciência e sustentabilidade. Huppert nos falou sobre as antigas civilizações e a mudança na mentalidade e no estilo de vida do homem com o surgimento do pensamento mecanicista. Parece que foi aí que começamos a usar a natureza como uma máquina de recursos naturais que deveriam ser usados pelo homem para satisfação de seus desejos e como principal combustível para o modelo capitalista que viria depois. De lá para cá, é o que vimos fazendo. Huppert terminou falando de um assunto um tanto quanto inusitado, motivo de vários experimentos e tema de um de seus livros – Cachorros que sabem quando seus donos estão chegando em casa – sobre telepatia e os animais. Ouvir um biólogo inglês de renome explicando que os animais se comunicam por telepatia, é no mínimo intrigante.
Assim é o Schumacher, uma escola de valores humanos para onde se deve ir com a mente e o coração abertos, aguardando aprender aquilo que todos sabemos mas que parece nos havermos esquecido.
Aprofundando as raízes
O primeiro dia na escola é memorável. É o dia do encontro com o fundador deste centro nada convencional. Satish Kumar nos dá uma aula de como os seres humanos devem ser para que se torne sustentável toda a humanidade. Afinal de contas, a questão central não é proteger a natureza e, sim, nos protegermos da “Revanche de Gaia” – como diria nosso festejado Lovelock -, ou seja, da reação da natureza a nossa atuação destrutiva.
Fomos lembrados de que tudo começou com as criações do ser humano. Foi a nossa civilização que fez migrar a atividade econômica para o capitalismo selvagem, se afastantando da natureza e de seus princípios auto-equilibrantes. Satish nos explicou que a vida é sacrifício, que a palavra sacrifício significa “ficar sagrado”. Sacrifício não é dor e sofrimento. A árvore se sacrifica quando dá seus frutos e flores, a fêmea se sacrifica quando põe sua cria no mundo. Nós nos sacrificamos quando amamos…
O que você não encontra lá
Burocracia, papéis, pastas e atividades esportivas programadas, nisso o Schumacher é totalmente diferente. Se você planeja ir para lá, não espere se defrontar com um campus universitário estruturado, que aqui no Brasil chamaríamos de campus de “primeiro mundo”. Lá impera a espontaneidade e o papo solto, que nos levam a exercitar a arte do encontro, o encontro de pessoas e de inspirações.
*Daniela Aiach é gerente de Cidadania Empresarial e Comitês da Amcham.
e-mail: [email protected]

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