Por George Kohlrieser e Francisco Szekely

Embora provavelmente resultem de uma combinação de fatores, os infortúnios apontam para três questões críticas que vão muito além das empresas e da Suíça: 1) as expectativas ambiciosas de acionistas para aumentar lucros no curto prazo estão pressionando os líderes empresariais a trabalharem além dos limites da saúde, a ponto de ignorarem suas próprias necessidades pessoais; 2) o colapso do diálogo e da comunicação referentes a sentimentos de dor e frustrações em todos os níveis de uma organização; e 3) chefes dominantes que exigem resultados irreais estão levando alguns líderes de empresas a passarem por tanta ansiedade que estes perdem o controle de suas próprias vidas.
Tragédias como essas deveriam nos forçar a reavaliar urgentemente nosso atual entendimento da liderança e, assim, adotar o conceito da liderança sustentável. Isso exigirá que a sociedade reflita sobre uma série de mudanças importantes, entre elas:
– Acionistas e membros de diretorias devem deixar de demandar lucros excessivos no curto prazo. Isso cria expectativas irreais de desempenho por parte daqueles que conduzem as organizações;
– As empresas precisam abraçar o conceito da liderança de base segura (veja adiante), cujo objetivo é encontrar o equilíbrio entre cuidar dos principais executivos e definir metas realistas para eles;
– A confiança se desenvolve quando há um vínculo positivo entre o patrão e o funcionário;
– O diálogo aberto e transparente precisa ser incentivado para resolver conflitos e estabelecer limites, e isso inclui o desenvolvimento da habilidade de dizer ‘não’;
– As organizações precisam criar uma cultura interna de equilíbrio entre vida profissional e pessoal, além de uma boa gestão do estresse.

Líderes de empresas estão sujeitos a muitas pressões por um alto desempenho no curto prazo. Isso não facilita a liderança no longo prazo, especialmente na atual situação econômica. A pressão excessiva está impactando negativamente o bem-estar, o que, por sua vez, prejudica os negócios e também afeta os executivos em suas vidas pessoais.
Como chegamos a esse ponto? Como a pressão excessiva sobre líderes pode promover um modelo de liderança sustentável? Como se pode pôr em risco o bem-estar de líderes e, ao mesmo tempo, gerar ótimos resultados e ser sustentável? A liderança existe para inspirar as pessoas a atingirem objetivos, ter visão, desenvolver e adotar valores, e mobilizar as pessoas a criarem valor para a organização e a sociedade.
Manter esses líderes na empresa é essencial para o sucesso. E é fundamental poder beneficiar a sociedade e a vida de todos os interessados no negócio. A liderança exige bastante atenção sobre a forma como desenvolvemos, apoiamos e cuidamos dos nossos gestores, tudo sob uma visão de longo prazo. Lucro econômico é importante, mas não em detrimento da saúde dos envolvidos.
Infelizmente, a sociedade baseia-se em resultados econômicos para medir o sucesso de líderes de empresas. Motivamos esses líderes ao lhes oferecer recompensas extrínsecas, como quantidades excessivas de dinheiro, prêmios, promoções e fama. No entanto, pesquisa realizada pelo IMD com mais de 300 gestores de alto escalão indica que eles ficam mais motivados com recompensas intrínsecas, que incluem novas oportunidades para aprender, desenvolver e crescer; desafios, diversão e novidades; pertencer a uma equipe e a um grupo; e contribuir para realmente fazer a diferença.

Nossa pesquisa mostra que um líder de base segura apresenta nove características: 1- mantém-se calmo e com os pés no chão – não agitado e desequilibrado; 2- aceita e valoriza o indivíduo – não julga e critica; 3- enxerga o potencial do indivíduo – não a situação atual em que se encontra; 4- ouve, questiona e dialoga – não sai em defesa; 5- emite declarações fortes – não confusas ou indiferentes; 6- foca o positivo – não o negativo; 7- incentiva o enfrentamento dos riscos e oferece oportunidades e desafios para crescer – não tenta controlar tudo; 8- inspira por meio da motivação intrínseca – não extrínseca; 9) indica que está acessível “em qualquer lugar, a qualquer hora” – não indisponível e distante (do livro Care to Dare, de George Kohlrieser, Susan Goldsworthy e Duncan Coombe, 2012).
Além de contar com líderes de base segura, os executivos sêniores com alto nível de responsabilidade em suas organizações deixam clara a necessidade de se ter equilíbrio na vida particular, que os permita realizar seus sonhos para a empresa e também cuidar dos seus familiares e da sua saúde. Pressionar ainda mais esses líderes não é uma abordagem inteligente, e tampouco socialmente responsável, para se conseguir sucesso nos negócios.
Em uma entrevista ao jornal suíço Schweiz am Sonntag, Carsten Schloter nos alertou sobre a cultura de negócios “24 horas”, cada vez mais evidente, ao dizer: “A coisa mais perigosa que pode acontecer é você entrar em uma rotina na qual está permanentemente fazendo atividades. Quando você sempre confere seu smartphone para ver se chegaram novos e-mails, você não terá mais descanso algum.”
As duas tragédias citadas no começo deste artigo deveriam fazer com que os gestores de alto escalão e as organizações passem a pensar no longo prazo, a cuidar e apoiar os seus líderes. Isso certamente irá resultar em uma sociedade mais saudável.
George Kohlrieser é professor de Liderança e Comportamento Organizacional no IMD, da Suíça. Francisco Szekely é professor de Liderança e Sustentabilidade e diretor do Global Center for Sustainability Leadership (CSL) e do programa One Planet Leaders (OPL), do IMD. Juntos, codirigem o High Performance Leadership (HPL), programa do IMD que aconteceu em São Paulo, em outubro.








