Especial 20 anos de Ideia Sustentável: Relatórios de Sustentabilidade
Por Nelson Carvalho

Ao longo do tempo desde então percorrido, várias iniciativas tentaram conectar o mundo empresarial ao tema sustentabilidade; uma das que prosperaram de forma razoável foi a batizada de Triple Bottom Line. Propunha às empresas que, em vez de focar-se apenas na busca pelo lucro (o bottom line da Demonstração de Resultados), fossem acrescidas mais duas dimensões de atenção na gestão empresarial: pessoas e a natureza.
Foi criada a imagem do profit, people and planet para sintetizar a nova proposta de expansão do escopo dos gestores empresariais – em vez de limitarem-se a buscar rentabilidade, a recomendação era que o fizessem atentando para o bem-estar das comunidades com que se relacionavam (força de trabalho, vizinhança da empresa, por exemplo) e para medidas preventivas ou corretivas de agressões ao meio ambiente (evitar ou corrigir poluições de rios, lençóis freáticos, solos, ar).
Empresas são fundamentais na busca por felicidade de sociedades e nações: geram empregos, pagam tributos para que Estados nacionais executem seus mandatos de conduzir países, e geram riqueza. O modelo da produção ou distribuição de bens e serviços, sob a forma de organização empresarial, com o devido controle do Estado, é um modelo de sucesso e alavanca de muito do progresso que hoje vivemos.
E a forma mais tradicional, embora não única, de empresas se comunicarem com seus públicos-alvo na sua cadeia produtiva (fornecedores de mercadorias, de serviços ou de crédito, clientes, sindicatos de trabalhadores, investidores, e governos) é composta de relatórios corporativos.
Tais relatórios, até aproximadamente os anos 1980, continham substancialmente informações financeiras e a esmagadora maioria dos ativos ali relatados se constituía de bens tangíveis: estoques, ativos imobilizados, como prédios e máquinas, e recebíveis de clientes.
Com o advento da “era da informação”, mais atenção passou a ser dada aos intangíveis, que possibilitavam que empresas perseguissem seus objetivos de criação de valor, e, atualmente, o peso dos intangíveis nas empresas cresceu drasticamente.
A partir dos anos 80, até por volta do fim do século XX, empresas pioneiras começaram a incursionar pelo tema da sustentabilidade, e viram-se os primeiros experimentos de divulgação de relatórios de sustentabilidade, ao lado dos relatórios contábil-financeiros.

Claro que várias razões contribuíam para esse desalinhamento, e uma das principais era o “mal do silo dentro da empresa”: os relatórios financeiros eram gestados nas diretorias financeiras ou de controladoria, seguindo paradigmas e padrões razoavelmente bem estabelecidos e muitas vezes emanados de autoridades reguladoras ou normatizadoras de condutas. Os relatórios de sustentabilidade, por sua vez, não contavam com claros referenciais sobre o quê coletar e como relatar, o que já os diferenciava de seus colegas de finanças e contabilidade.
E, para piorar o quadro, as áreas responsáveis pela produção dos relatórios de sustentabilidade, no mais das vezes, não dialogavam com as áreas de finanças, controladoria e contabilidade: era o efeito do “silo incomunicável”, as estruturas departamentais verticais nas empresas, sem comunicação lateral umas com as outras, o que contribuía para esse painel de “desinformação” contida nos relatórios corporativos como um todo.
Por volta de 2009, um personagem mundial de alta representatividade e zeloso de questões ambientais, o príncipe de Gales, entendeu pertinente iniciar um movimento internacional buscando alinhar os vários relatórios corporativos conhecidos (além do financeiro e do de sustentabilidade, empresas têm divulgado relatórios sobre suas práticas de governança e sobre aspectos sociais na gestão ou relacionamento com pessoas).
Foi lançada então, e implementada, a ideia de integrar os relatórios corporativos de forma a estarem alinhados numa mensagem única e coerente entre si sobre:
a) o desempenho empresarial pretérito, identificando as variáveis críticas que permitiram às companhias criar valor para o acionista e assegurar rentabilidades que lhes permitiram ofertar empregos, encomendar suprimentos de fornecedores e pagar tributos;
b) o desempenho futuro esperado, isto é, como estão sendo gerenciadas as variáveis críticas que levaram ao sucesso, no passado, para assegurar a longevidade e continuada, ou expandida, criação de valor no futuro.
Criou-se, nessa iniciativa, um grupo pluridisciplinar e multinacional de indivíduos que, pessoalmente ou envolvidos em organizações relacionadas ao tema, pudessem refletir e conceber formas de eliminar o desalinhamento perverso das mensagens díspares emitidas pelos vários relatórios corporativos que vinham sendo produzidos. O príncipe de Gales estimulou essa reflexão cunhando uma frase célebre: “Estamos usando, para os problemas corporativos e sociais do século XXI, na melhor das hipóteses, soluções do século XX.”
Esse grupo, que assim se reuniu, abrange investidores do mercado de capitais; bancos credores de empresas; acadêmicos; entidades que já tinham iniciativas em sustentabilidade, como a GRI – Global Reporting Initiative, por exemplo; normatizadores de contabilidade financeira; as seis maiores firmas de auditoria do mundo; o setor empresarial manufatureiro (como exemplos, a Tata Industries, da Índia; a Nestlé, da Suíça; e a Natura, do Brasil);a ONU e vários outros protagonistas.
Esse grupo, denominado IIRC – International Integrated Reporting Council, se reúne presencialmente ou virtualmente várias vezes ao ano, desde 2010, e acaba de encerrar, em 15 de julho último, um período de audiência pública de sua proposta de Estrutura Conceitual para Relato Integrado; após análise e consideração das cartas-comentário recebidas, prevê-se, para 05 de dezembro próximo, o lançamento mundial da versão 1.0 de tal estrutura, para ser usada e testada voluntariamente, a partir de 2014, e aperfeiçoada a partir daí.
Importante frisar que não se trata de mais um relatório corporativo: os que existiam podem e devem continuar existindo, a critério de cada empresa. Trata-se, de fato, de que os vários relatórios que porventura existam sejam integrados numa mensagem coerente e coesa entre si, apontando as causas de sucessos e insucessos do passado nas dimensões que ajudam a criar ou destruir valor, e como os administradores pretendem no futuro preservar e expandir os fatores críticos de sucesso e evitar ou mitigar os fatores críticos de insucesso.
O relato integrado não está sendo desenvolvido com o intuito de gerar um modelo, padrão ou regra de preparo e divulgação, o que seria um risco enorme de rejeição. Ao contrário, ao se limitar, pelo menos no momento, a propor uma robusta estrutura conceitual, o IIRC pretende apontar às empresas aderentes um inventário de itens (os seis “capitais” a serem administrados, preservados e expandidos) sobre os quais cada empresa escolherá o formato de como relatar.
O Brasil é adepto precoce do IIRC e as iniciativas visando à sua adoção no nosso mundo corporativo são crescentes e promissoras.
Nelson Carvalho é professor da Faculdade de Economia e Administração FEA/USP e membro do International Integrated Reporting Council – IIRC.








