Tenho uma reserva florestal: e daí?

Tenho uma reserva florestal: e daí?

Por Paulo Groke

A conservação dos remanescentes florestais, fundamental para a proteção da biodiversidade, manutenção dos serviços ecossistêmicos e aspectos culturais, tem experimentado alguns avanços conceituais e práticos, os quais, embora sejam importantíssimos, têm ocorrido em passo muito mais lento do que as necessidades de conservação nos impõem.

Tomando como exemplo o mais ameaçado dos nossos biomas, a Mata Atlântica, constata-se que cerca de 80% da área remanescente estão sob o domínio da iniciativa privada que, até meados da década de 80, tratava esses fragmentos florestais como empecilho à ocupação e ao desenvolvimento.

Posteriormente essas mesmas organizações, motivadas pela crescente sensibilização ambiental de seus consumidores, pelas necessidades decorrentes das compensações ambientais e pelo surgimento dos processos de certificação ambiental, passaram a divulgar que suas estratégias de sustentabilidade incluíam a preservação de hectares de floresta.

Na verdade, o termo “preservação de hectares” pode esconder terríveis equívocos.

O primeiro deles consiste, ironicamente, na perda da biodiversidade que se pretende proteger. Reservas florestais representadas por fragmentos menores podem simplesmente estar sucumbindo em decorrência do seu grau de isolamento na paisagem e da pressão sobre suas bordas. A ação de espécies invasoras, do fogo, do vento e do próprio homem, já decretaram o agonizante fim de várias áreas florestais. Tais como estrelas que já colapsaram, mas que ainda enxergamos em função do longo caminho percorrido pela sua luz, áreas florestais que ainda vemos podem não ser viáveis se simplesmente cercadas e transformadas em reservas corporativas ou particulares.

Mesmo a proteção de extensas áreas florestais pode não garantir a conservação integral da biodiversidade já que, além da presença da caça ilegal e roubo de madeira, não é incomum que  estas áreas estejam na linha de frente de algum conflito existente entre as empresas e comunidades, sejam elas rurais ou urbanas, tradicionais ou não.

Às empresas proprietárias resta, além dos riscos institucionais decorrentes da gestão inadequada, o sentimento de que os recursos aplicados na proteção física destas reservas não estão trazendo o desejado retorno, tanto em termos de conservação dos recursos naturais, quanto em relação à valorização da sua marca.

Deste dilema advém o mais recente avanço, experimentado ao longo da última década: o conceito de conservação e da valorização destas reservas florestais deixou de ser meramente quantitativo. Mais adequado do que dizer quantos hectares estão “protegidos” é discorrer sobre o que se conserva e o que se obtém a partir da adoção de adequadas estratégias de manejo da área protegida.

Assim, a correta gestão de áreas particulares protegidas, qualquer que seja a sua área ou status legal, preconiza:

A realização de um diagnóstico que permita a identificação dos seus principais atributos, potenciais e fragilidades;

A elaboração de um plano de manejo voltado à valorização das funções de conservação da biodiversidade, geração de serviços ecossistêmicos e de educação ambiental, comunitária ou corporativa;

A racionalização dos recursos aplicados, o alinhamento estratégico da reserva ao projeto na qual está inserida e a busca do reconhecimento institucional da empresa proprietária;

A geração de receitas via manejo de produtos florestais, ecoturismo e pagamento por serviços ambientais. Embora muito raramente as receitas geradas tenham potencial para tornar estas áreas autossustentáveis financeiramente, essa condição oferece incentivo real ao proprietário, além de contemplar o envolvimento direto das comunidades próximas, fato que contribui para a partilha de benefícios e mitigação de possíveis conflitos existentes;

A formação de profissionais que possam administrar corretamente os recursos, mas que acima de tudo, tenham capacidade de enxergar e entender o intricado universo das relações ecológicas, sociais e corporativas.

Em paralelo,  é necessário  que as políticas públicas permitam que os proprietários de reservas florestais tenham mais acesso aos mecanismos de crédito e incentivos, conduzindo a um significativo e veloz ganho na escala de criação de novas reservas, além do aperfeiçoamento dos processos de gestão das já existentes.

Se setores da nossa economia tradicional são incentivados em prol do “crescimento” do país, a conservação de ambientes naturais deve ser entendida como um dos pilares de sustentação desta economia, saindo do papel de ônus para o de prioridade na agenda política e econômica, do estado e das corporações. Neste cenário, cabe ao Estado fornecer incentivos reais e subsídios à conservação e à restauração. Às corporações e proprietários privados, cabe entender, intensificar e embasar tecnicamente as ações de conservação como pilares de sustentação de seu próprio negócio e do seu próprio ambiente.

Paulo Groke é engenheiro florestal pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ). Possui especialização em Prevenção e Controle de Incêndios Florestais e Ecoturismo, larga experiência no manejo florestal conservacionista, proteção florestal, manejo de fauna e áreas silvestres. É também um dos idealizadores do Parque das Neblinas e do Instituto Ecofuturo, onde atualmente ocupa o cargo de Diretor de Meio Ambiente.

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