Especial – Uma década de sustentabilidade no Brasil – Parte 2

Especial – Uma década de sustentabilidade no Brasil – Parte 2

Os que parecem que fazem, a pressão dos consumidores e os que fazem de fato
Um dos diretores e fundadores do site de jornalismo ambiental O Eco, o cientista político Sérgio Abranches, é mais crítico na análise da evolução do tema sustentabilidade nos negócios. Para ele, o cenário se compõe de três movimentos. O primeiro – e mais óbvio – corresponde ao significativo aumento, nos últimos oito anos, da preocupação das empresas em, pelo menos, “parecer ter algum plano de sustentabilidade”. O segundo, avalia,- está relacionado ao crescimento da pressão dos consumidores, especialmente na Europa e em algumas regiões dos Estados Unidos, pela diminuição do impacto empresarial no meio ambiente. O terceiro movimento reúne uma espécie de vanguarda empresarial, que se diferencia do primeiro grupo por estar, de fato, “buscando seriamente encontrar uma versão consistente” da idéia de tripple bottom line. “A principal mudança que vejo é que, no contexto do início da discussão de responsabilidade socioambiental corporativa, a preocupação central era com a questão da poluição, algo mais ambiental. Nos últimos sete ou oito anos, o consenso científico mudou. O foco é o aquecimento global, e isso exige das empresas uma mudança mais profunda”, analisa.
Segundo Boechat, o surgimento de instituições como o Instituto Ethos e o CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável) foi fundamental para a formação de um novo patamar de debate e reflexão. “Ambos são repercussões de movimentos internacionais. Decorrem de uma tropicalização. Porém, mais consciente e não apenas uma repetição do que se fazia lá fora”, diz.  Em sua análise, enquanto o Ethos seguiu na linha de relacionamento com a sociedade, o CEBDS se concentrou na questão ambiental. “As duas correntes, que representaram uma ampliação de consciência do mundo empresarial, caminharam em paralelo por muito tempo e apenas recentemente se encontraram na consolidação do tema da sustentabilidade. O CEBDS ampliou a abordagem social e o Ethos aumentou um pouco a força das cores da abordagem ambiental”, diz.
No princípio era a incompreensão. Depois vieram os indicadores.
Há dez anos, o discurso da responsabilidade social parecia grego. O fato de que suas idéias soavam incompreensíveis para a maioria das empresas tornou mais difícil a vida do Ethos em seus primeiros dois anos de existência. Além de mostrar o que era o conceito e como ele se aplicava aos negócios, havia ainda a necessidade de reforçar os porquês. “Tivemos que convocar a imprensa e explicar do que se tratava, porque ninguém entendia o que estávamos falando”, lembra Oded Grajew, um dos fundadores e primeiro presidente do Instituto. “No Brasil de então, o envolvimento de empresas na área social era tido como ação filantrópica, mero financiamento de projetos sociais”, relembra. Hoje, o Ethos soma 1.332 associados – empresas de diferentes setores e portes – que empregam cerca de 2 milhões de pessoas e têm faturamento anual correspondente a 35% do PIB brasileiro. Em comum, essas organizações têm o interesse de estabelecer padrões éticos de relacionamento com funcionários, clientes, fornecedores, comunidade, acionistas, poder público e com o meio ambiente.
Para chegar onde chegou, o Ethos teve que concentrar sua energia em companhias pioneiras e também em públicos “indutores” – acadêmicos, consumidores, comunicadores, sindicatos e entidades não-governamentais – capazes de encabeçar um movimento de revisão de valores e práticas no modo de conduzir negócios. Seu papel inicial foi criar um ambiente favorável ao desenvolvimento da RSE, apontando os riscos da não adoção de uma postura socialmente responsável. “O que mudou com o Ethos foi a compreensão de que a empresa tem responsabilidade relacionada a todos os públicos interessados. Ela tem que fazer uma gestão ética, equilibrando os interesses desses vários públicos e pensando no bem comum – não o imediato, que se associa com filantropia, mas no desenvolvimento do País, de uma sociedade justa”, resume outro dos fundadores da organização, Sérgio Mindlin, hoje diretor-presidente da Fundação Telefônica.
Dez anos depois, Ethos é uma referência internacional. Seu exemplo inspira movimentos semelhantes em outros países. “Nesse campo, nossos líderes se notabilizaram e vêm exercendo influência no resto do mundo. Somos considerados um país que caminha velozmente nessa direção, embora haja tantas desigualdades de distribuição de renda, corrupção endêmica, e certo descaso com relação ao meio ambiente. Existe no Brasil facilidade para incorporar novas visões e modelos, de forma muito intensa, embora nem sempre aprofundada”, pontua Homero Santos.
Ações marcantes como a Rede Ethos de Jornalistas (hoje são cerca de 70 ligados a ela) ou o Prêmio Ethos-Valor, voltado a estudantes de graduação e pós-graduação, ajudaram a agendar o tema da RSE na imprensa e nas universidades. No entanto, uma de suas mais importantes contribuições foi, na avaliação dos especialistas, a criação dos chamados Indicadores Ethos. Concebidos para servir como instrumento de planejamento e ferramenta educativa de sensibilização, os indicadores ofereceram uma lógica e um método.  Ainda hoje constituem referência básica para empresas, de todos os portes, que desejam se iniciar no assunto.
“Eles materializam o que queremos dizer em termos de responsabilidade social empresarial. Uma empresa que preenche os indicadores – e hoje são mais de 600 – acaba compreendendo o que é responsabilidade social empresarial e introduzindo o conceito em sua gestão”, acredita Oded Grajew. Na versão inicial, foram 71 os respondentes, dos quais 70% de grande porte e 82% de controle privado nacional.  A BrasilPrev é um bom exemplo de quem começou pela ferramenta. “Os Indicadores e o balanço social dão o diagnóstico, fazem a empresa organizar o pensamento e ver responsabilidade social de forma mais ampla”, admite Cristine Naum, gerente de Responsabilidade Social da companhia.

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