Desafios da Energia e das Mudanças Climáticas

Desafios da Energia e das Mudanças Climáticas

Desde que a primeira máquina a vapor foi acionada em 1750, a concentração de dióxido de carbono na atmosfera aumentou cerca de 30%. Antes da Revolução Industrial, a concentração de CO2 era de 280 ppm (partes por milhão). Em 2005, atingiu 379 ppm, a maior marca em 650 mil anos.
Segundo o IPCC – Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, das Nações Unidas, se o mesmo ritmo de emissões de gases de efeito estufa for mantido, a Terra poderá ficar entre 1,8°C e 4°C mais quente em 2100. Como conseqüência dessa alteração, 20% a 30% das espécies de plantas e animais correm o risco de desaparecer, as culturas agrícolas diminuirão a ponto de causar a fome de milhões de pessoas e, atingida a temperatura máxima prevista, dois bilhões de seres humanos acabarão por sofrer com a falta de água.
O quadro é grave e preocupante. Reverter a escalada das mudanças climáticas, segundo o mesmo grupo de cientistas, demandará mobilização social, novos instrumentos de governança e tecnologias mais limpas. Exigirá, como ponto de partida, uma revisão de modos de fazer negócios e  de consumir. Requererá informação suficiente para conhecer o problema em todas as suas dimensões, refletir sobre responsabilidades individuais e coletivas e mudar comportamentos no sentido de viver uma vida mais sustentável.
O objetivo deste fascículo número 3, da série Pacto Sustentável, intitulado “Desafios das Energias e das Mudanças Climáticas”, é apresentar o fenômeno do aquecimento global, os principais marcos na discussão do tema, e o que indivíduos, governos e empresas podem e já estão fazendo para superar o que, segundo especialistas, é o mais complexo dilema do século XXI.

O planeta mais quente
Em relatório divulgado no ano de 2006, Nicholas Stern sentenciou sobre “a evidência científica avassaladora”, ao pregar: “As mudanças climáticas apresentam riscos globais muito sérios e demandam uma resposta global urgente”.
Com base em modelos econômicos convencionais, Stern estimou que se a humanidade não contiver o lançamento de gases de efeito estufa, os custos e riscos das mudanças climáticas equivalerão à perda de 5% do PIB (Produto Interno Bruto) mundial a cada ano, podendo atingir 20% se considerar uma diversidade maior de impactos. Medidas para redução dos mesmos gases, em contrapartida, representariam 1% do PIB mundial.  Para Stern, portanto, a solução não só é possível como economicamente viável.
“Os investimentos realizados nos próximos 10 e 20 anos terão um profundo impacto no clima na segunda metade do século e nos 100 anos seguintes. Nossas ações agora e nas próximas décadas podem levar ao colapso a atividade econômica e social com perdas equiparáveis às das grandes guerras e da depressão econômica na primeira metade do século XX”, alertou Stern em seu famoso relatório.
A tese de Stern, a princípio inusitada para um cético de carteirinha, ex-economista-chefe do Banco Mundial, ganhou força com o filme “Uma verdade inconveniente”, do ex-vice-presidente norte-americano Al Gore, e com a divulgação do quarto relatório do IPCC – Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (2006), que atribuiu, com 90% de certeza, o fenômeno do aquecimento global à desastrosa intervenção humana.
O que se viu, a partir desses fatos, foi uma guinada brusca na abordagem do tema por parte dos meios de comunicação, das empresas, governos e organizações da sociedade civil. De um assunto de importância lateral ele passou para o centro da agenda pública, sem ter dado o devido tempo para que os três setores construíssem juntos as melhores soluções para o problema. De qualquer modo, o que antes era uma ameaça distante, profetizada por ambientalistas, transformou-se na mais importante preocupação mundial deste início de século.
Para evitar o desastre climático, os pesquisadores do IPCC calculam que a concentração de gás carbônico terá de se estabilizar em, no máximo 450 ppm. Se o crescimento das emissões se mantiver no ritmo atual, em menos de meio século o nível de CO2 atingirá 600 ppm. Por isso, os cientistas reunidos pelas Nações Unidas recomendam a redução de, pelo menos, 50% nas emissões globais. Uma meta difícil – especialmente se levar em conta que os países emergentes, em processo de desenvolvimento, estão queimando mais energia de matriz fóssil, mas não impossível.
Assegurar hoje, a despeito dos interesses econômicos imediatos, um planeta saudável para as próximas gerações é o grande desafio que se coloca aos líderes mundiais de governos, empresas e organizações da sociedade civil.  “O custo para remediação dos impactos das mudanças climáticas vai crescer no mesmo ritmo do aumento das temperaturas. Por isso, precisamos promover ações de mitigação no curto prazo, mesmo que os benefícios venham nas próximas décadas”, ressaltou Rajendra Pachauri, presidente do IPCC, na abertura da Conferência de Bali.
Fontes de emissões
Resultante da queima de combustíveis fósseis para geração de energia, queimadas de florestas e de outras vegetações, o dióxido de carbono representa 60% das fontes de emissões de gases causadores do efeito estufa.
Por ser o mais abundante, convencionou-se expressar as emissões dos demais gases em carbono equivalente, medida métrica criada na 3ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima para comparar as emissões de vários gases de efeito estufa. No entanto, em comparação a outras fontes, ele é o que tem menor poder de emissão (confira tabela abaixo).
O metano (CH4), por sua vez, tem uma concentração baixa na atmosfera. Com 1,70 ppmv (partes por milhão em volume), é responsável por aproximadamente 20% do total de emissões. O problema é que o aumento da sua concentração subiu 145% nos últimos 200 anos.
Os processos digestivos do gado e outros ruminantes, o cultivo de arroz, o uso de petróleo, gás natural e carvão mineral, a decomposição de resíduos em zonas de aterros sanitários e industriais são algumas das fontes principais para as emissões de metano.
Outro gás causador do efeito estufa é o óxido nitroso (N2O) que pode ser obtido pela realização de queimadas, emissões industriais e atividades agrícolas. Desde a Revolução Industrial, o seu lançamento na atmosfera cresceu em 15%, aproximadamente, 0,31 ppmv.
Acordos internacionais
Em 1988, representantes de todo o mundo se reuniram pela primeira vez na Conferência Mundial do Clima, em Toronto, Canadá. O encontro, promovido pela ONU marcou, oficialmente, o início da discussão global das mudanças climáticas.
Em 1990, aconteceu a segunda Conferência Mundial do Clima, em Genebra. Na ocasião, foram analisados os relatórios preparados pelo IPCC, e criada a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima (do inglês United Nations Framework Convention on Climate Change – UNFCC).
O acordo foi negociado e assinado por 175 países mais a União Européia, durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada em 1992, no Rio de Janeiro.
Esse documento, considerado um marco na abordagem do tema ambiental, reconheceu a mudança do clima como uma preocupação comum da humanidade e obrigou os governos, que se tornaram Partes da Convenção, a se comprometerem com a elaboração de uma estratégia global a fim de proteger o sistema climático para gerações presentes e futuras.
A partir de então, os países signatários da Convenção do Clima passaram a se reunir regulamente para continuar as discussões nas COP – Conferências das Partes.
Vigilantes do clima
O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas foi criado em 1988, com o objetivo de ser uma fonte de informações objetivas e de credibilidade sobre mudanças climáticas. O grupo reúne representantes da Organização Mundial de Metereologia (do inglês World Meteorological Organization – WMO) e do Programa de Meio Ambiente da ONU (do inglês United Nations Environment Programme – UNEP).
Devido ao seu caráter intersetorial, o IPCC é capaz de oferecer informações politicamente relevantes, porém neutras para os tomadores de decisão. Um bom exemplo disso foi a influência que os seus relatórios exerceram na configuração da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima e no Protocolo de Kyoto.
“A mudança climática é uma séria ameaça ao desenvolvimento em qualquer lugar. O tempo de dúvidas acabou. O IPCC tem afirmado, de modo inequívoco, que o aquecimento global está diretamente relacionado à atividade humana. Diminuir ou mesmo reverter a tendência de aquecimento do planeta é o desafio definitivo da nossa era”, ressaltou Rajendra Pachauri, presidente do IPCC.
Sobre o grupo vale ressaltar que ele não realiza pesquisas, mas torna acessíveis as mais recentes informações técnicas, científicas e socioeconômicas sobre o aquecimento global.  Esses dados são apresentados em relatórios periódicos, que alertam quanto aos riscos da interferência humana no clima e as alternativas para reduzir e mitigar impactos.
Recentemente, suas conclusões têm sido contestadas aqui e ali por especialistas de linhas de pensamento divergentes. A despeito de opositores eventuais, hoje, elas representam a doutrina mais respeitada sobre o aquecimento global e o futuro sob ameaça do planeta.
Protocolo de Kyoto
O protocolo de Kyoto foi criado na 3ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima, realizada no Japão, em 1997. Trata-se de um acordo internacional que estabelece metas de redução das emissões dos gases causadores do efeito estufa.
Porém, para entrar em vigor e se tornar um regulamento internacional, o documento precisava ser ratificado por um grupo de 55 países que, juntos, respondessem por, ao menos, 55% das emissões de gases causadores do efeito estufa. A cota foi atingida em 2005, com a adesão da Rússia, responsável por 17% das emissões.
Até o ingresso deste país, apesar da participação de 127 nações, a soma de emissões correspondia a apenas 44%. Com a Rússia, o índice subiu para 61%. O acordo entrou em vigor, portanto, no dia 16 de fevereiro de 2005, 90 dias após o processamento dos documentos da adesão da Rússia junto à ONU e oito anos após a sua criação.
O protocolo estimula os países signatários a cooperarem entre si para reduzir as emissões por meio de medidas como, por exemplo, a reforma dos setores de energia e transportes, a promoção do uso de fontes energéticas renováveis, limitação das emissões de metano no gerenciamento de resíduos e dos sistemas energéticos, assim como a proteção das florestas e outros sumidouros de carbono.
“É preciso construir uma agenda internacional em relação às mudanças climáticas para discutir quais são as diferentes ações que devem ser tomadas em termos de legislação, adaptação, mitigação das emissões de gases causadores do efeito estufa, além de mecanismos financeiros para dar incentivos aos governos – em especial, dos países em desenvolvimento – para criar soluções nesse sentido”, afirmou Christophe Nutall, diretor da plataforma para parcerias inovadoras do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).
No entanto, alguns países – como a Arábia Saudita e os Estados Unidos – ainda resistem a assinar o protocolo, alegando que a redução das emissões de gases causadores do efeito estufa comprometeria o seu desenvolvimento. Os EUA são responsáveis por 36% dos gases causadores do efeito estufa. Em vez de reduzir emissões, o país tem apostado no desenvolvimento de tecnologias menos poluentes, como o hidrogênio.
Metas de redução das emissões
O protocolo de Kyoto estabelece que os países desenvolvidos devem reduzir em 5,2%, até 2012, as emissões dos gases causadores do efeito estufa ou greenhouse gases (GHG), em comparação com os níveis de 1990, data convencionada como de referência. Restam, portanto, quatro anos. Nesse primeiro período, os países emergentes assumiram o compromisso de apresentar apenas o inventário de emissões dos mencionados gases.
As partes do anexo I, que possuem metas de redução, estão subdivididas em dois grupos: os membros da OECD (Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento) e as nações que estão em transição econômica (antigo bloco soviético).
Para apoiar os países a atingir os objetivos de contenção de emissões atmosféricas, o protocolo de Kyoto criou mecanismos de flexibilização. O comércio de emissões é um deles. Cada crédito de carbono emitido significa que a companhia retirou da atmosfera uma tonelada de CO2, repassando ao comprador o direito de emitir o equivalente em gases-estufa. A segunda alternativa consiste em colocar os créditos à venda em bolsas independentes, como a Bolsa do Clima, de Chicago, fundada em dezembro de 2003.
Os países que têm metas a cumprir contam ainda com o mecanismo de implementação conjunta que prevê a realização de projetos de abatimento de emissões.
Há comunidades científicas para as quais a meta de redução de 5,2% em relação aos níveis de 1990 é insuficiente para a mitigação do aquecimento global.
“O Protocolo de Kyoto tem 10 anos e sua meta era baixar as emissões em 25%. De 1975 para cá elas aumentaram 70%. Nos próximos 30 anos, prevê-se que cresçam entre 50% e 100%. Penso sinceramente que a solução chegará mais tarde do que deveria. Por causa dos muitos interesses que precisam ser conciliados. Temo, no entanto, que, como em outros momentos da história, diante de possíveis crises anunciadas, as medidas necessárias sejam adotadas apenas quando houver uma catástrofe”, profetizou Mohan Munasinghe, vice-presidente do IPCC.
Desenvolvidos X subdesenvolvidos
O protocolo baseia-se no princípio de “responsabilidade comum, porém diferenciada”. Isso significa, na prática, que todos os países têm a responsabilidade de proteger o clima, mas os desenvolvidos devem ser os primeiros a tomar partido. Esse mecanismo reconhece que os atuais níveis de emissões de gases causadores do efeito estufa são resultantes de mais de 150 anos de atividade industrial realizada pelos países do hemisfério norte.
“O problema foi gerado pelos países ricos. E eles têm maior responsabilidade ambiental já que os impactos serão sentidos, de forma mais cruel, por quem mora nos países pobres e em desenvolvimento. Protegê-los é fundamental. O desafio é achar o melhor caminho para conciliar desenvolvimento econômico com respeito ao meio ambiente”, ensinou Munasinghe.
O fato de que apenas partes do Anexo I, as nações mais desenvolvidas, são obrigadas a reduzir suas emissões tem gerado discussões acaloradas, já que países em desenvolvimento como China, Brasil, Índia e México, ocupam, respectivamente, 2º, 4º, 5º e 11º lugar nas emissões mundiais. Apenas, China, Índia e Brasil, em conjunto, representam 40% da população mundial e alcançam 18% das emissões de CO2.
A inexistência de metas de redução para os países em desenvolvimento é uma das justificativas apresentadas pelos Estados Unidos para não aderirem ao Protocolo de Kyoto.
Ainda que o Brasil tenha predominantemente a sua matriz energética baseada em hidrelétricas, tida como mais limpa, é hoje o 4º maior emissor de gases estufa. A principal razão desta posição é o desmatamento da Amazônia e as queimadas que representam 75% das emissões brasileiras. A cada ano, em todo o mundo, áreas de florestas equivalentes ao território de Portugal são destruídas.
O Brasil assinou o Protocolo de Kyoto em 1998, mas só foi ratificado em 2002, com a aprovação do texto do documento pela Assembléia Legislativa.
Mercado de carbono
Ao criar os Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (MDL) que fixaram um valor financeiro para cada tonelada de carbono que deixasse de ser lançada na atmosfera, o Protocolo de Kyoto constituiu o que se chama de Mercado de Carbono.
O termo é utilizado para denominar os novos sistemas de negociação de unidades de redução de emissões de gases de efeito estufa. Segundo o Banco Mundial, em 2007, os negócios de carbono movimentaram US$ 64 bilhões, quantia semelhante à soma dos PIBs de Angola e El Salvador. O valor representa o dobro do comercializado em 2006 e é seis vezes maior do que há três anos. Desde 2005, foram emitidos 145 milhões de certificados de emissões reduzidas (CERs, sigla em inglês) junto ao MDL.
Para serem certificados e validados, os projetos de MDL devem promover benefícios mensuráveis e de longo prazo, proporcionando uma redução de emissões que não seria obtida no caso da inexistência do projeto.
A redução de emissões resultante de projetos de MDL deve ser certificada por entidades operacionais independentes, designadas como certificadoras pela reunião da COP – Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima. A aquisição dos CERs podem envolver entidades privadas ou públicas. Como exemplo, a prefeitura de São Paulo arrecadou R$ 34 milhões com a venda de 800 mil certificados – cada um equivalente a uma tonelada de carbono – no primeiro leilão do gênero realizado pela Bolsa de Mercadoria & Futuro (BM&F) realizado em 2007. Os créditos foram obtidos a partir da conversão do gás metano, produzido pela decomposição do lixo no aterro Bandeirantes, em dióxido de carbono que é menos poluente.
O Brasil ocupa o 3º lugar em número de projetos de MDL (287). Em primeiro, encontra-se a China (1212), e em segundo, a Índia (987). Geração de energia por meio de fontes renováveis, reflorestamento e repotencialização de hidrelétricas são outras possibilidades de projetos de MDL no País.
A contribuição das tecnologias
O mecanismo de neutralização ou seqüestro de carbono tem se tornado cada vez mais popular e existem diferentes tecnologias para esse fim, a mais comum delas é o armazenamento de carbono em biomassa. Esse mecanismo consiste na captação do CO2 da atmosfera pelas espécies vegetais que o transformam em oxigênio durante seu processo de fotossíntese.
Os projetos para captura de carbono por biomassa podem ser desenvolvidos por meio de florestas nativas naturais ou plantadas, agroecossistemas e plantios florestais comerciais. Em todas essas modalidades, devem ser tomados alguns cuidados como: garantir a longevidade dos plantios, assim como o desenvolvimento florestal, aumentar ao máximo a biodiversidade, manejar adequadamente o solo e proteger os recursos naturais.
Outra tecnologia para neutralização é o armazenamento geológico, por meio do qual o carbono é estocado na litosfera e nos seus espaços porosos em bacias de formação sedimentar. Esse recurso é possível, pois quando dissolvido na água do mar ou aprisionado por gravidade a profundidades superiores a 3 km, o CO2 se torna líquido e forma grandes lagos no fundo do mar.
Campos de petróleo maduros, aqüíferos salinos profundos e minas de carvão são algumas das possibilidades de armazenamento de carbono por meio dessa tecnologia.
Estudos mostram que a capacidade dos reservatórios geológicos existentes é seis vezes maior do que toda a quantidade de emissões antrópicas acumuladas até 2050. No entanto, o desconhecimento preciso dos impactos ambientais dessa atividade e o alto custo (US$100,00/ tonelada de carbono capturada), até o momento, inviabilizam sua implementação em larga escala.
O impacto nas empresas
As indústrias contribuíram significativamente para o aumento da concentração das emissões dos gases causadores do efeito estufa nos últimos 150 anos. O setor privado foi o principal propagador do modelo de desenvolvimento atual e, como parte do problema, não poderia deixar de participar da discussão de soluções para o aquecimento global.
Mas o segmento só despertou para a urgência do tema a partir da sucessão de alertas de cientistas e especialistas das mais variadas áreas do conhecimento a partir de 2006. Desde então, as mudanças climáticas têm conquistado espaço definitivo na estratégia das companhias.
“As empresas maiores estão trabalhando a questão há bastante tempo. Mas, para elas, o aquecimento global atingiu um ponto limite graças a um conjunto de fatores: de repente houve uma transformação na postura da sociedade, começaram a circular mais informações sobre o assunto, graças a iniciativas como o filme de Al Gore e, o mais importante, passamos a sentir na pele os efeitos das mudanças. O clima está mudando de fato e isso é perceptível: as pessoas sentem e lêem sobre o assunto”, afirma  Lloyd Timberlake, diretor de Comunicação do Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável (World Business Council for Sustainable Development –  WBCSD).
Para Timberlake, as companhias, normalmente, se antecipam às tendências quando as mudanças nos padrões de consumo e nas regulamentações são previsíveis. “As empresas preferem liderar esse movimento ao invés de serem conduzidas ou obrigadas. É por isso que estão se preparando mais rapidamente do que antes”, ressalta.
A mudança do cenário mundial foi o que motivou a revisão de estratégias na Petrobras. “O negócio da empresa tem data para acabar. Dentro do setor de petróleo, tentamos fazer o máximo de descobertas possível para aumentar as nossas reservas. Em paralelo, estamos pesquisando e desenvolvendo alternativas de energia limpas”, afirma Carlos Torres, gestor de Programas Ambientais da Petrobras.
Em 1980, a empresa deu início aos seus estudos em biocombustíveis, mas foi só no início dessa década que eles foram retomados em função das questões ambientais e da elevação dos preços do petróleo. “Em um cenário de mudanças climáticas, o desenvolvimento de combustíveis renováveis passa a ser uma oportunidade de negócio, particularmente no Brasil, onde temos algumas vantagens competitivas na produção. Por isso, essa passou a ser uma área estratégica para a empresa”, ressalta Luis Cesar Stano, gerente de Segurança, Meio Ambiente e Saúde da Petrobras.
Em outra frente, a petrolífera faz parte de um consórcio que reúne oito empresas do setor em todo o mundo com o objetivo de pesquisar tecnologias para seqüestro de carbono.
O desafio desse grupo, liderado pela British Petroleum, é encontrar alternativas economicamente viáveis, como a tecnologia de armazenamento geológico de carbono em poços de petróleo, que vem sendo avaliada. Essa técnica já é utilizada para aumentar a capacidade de extração do óleo. Agora, as empresas petrolíferas estudam a viabilidade de substituir o gás pelo CO2, capturado do próprio processo produtivo ou de outras fontes concentradas.
“Essa área de energia envolve a sociedade como um todo. A indústria do petróleo é apenas um dos atores no cenário das mudanças climáticas. Para resolver esse problema, é preciso engajar a sociedade e os governos, que são outros elementos nessa cadeia no que diz respeito à normalização e regulamentação, assim como os consumidores. Sem a participação de todos, o problema não tem solução”, apregoa Stano.
A realização de inventários de emissões é o primeiro passo para minimizar ou eliminar os impactos da atividade das companhias no clima. A revisão de processos com vistas a eliminar desperdícios e a implementação de ferramentas de ecoeficiência, normalmente, vêm na seqüência.
A Natura assumiu o desafio de ser Carbono Neutra a partir de 2007, o que significa ter saldo zero nas emissões de gases causadores do efeito estufa. Com base nos padrões do Greenhouse Gas Protocol Initiative (GHG Protocol), ferramenta mais utilizada internacionalmente para medir as emissões dos gases de efeito estufa, a empresa realizou um estudo detalhado no qual considera as emissões de todas as etapas da sua cadeia produtiva, do extrator até o descarte (reciclagem) de suas embalagens. Esse estudo revelou que a empresa, como um todo, poderia diminuir suas emissões em 1/3 nos próximos cinco anos. E este é o desafio da empresa agora. “Como indústria de transformação, não temos como mitigar todas as emissões, então, nós vamos compensar uma parte. Por isso, lançamos um edital público para projetos de reflorestamento e uso de energia alternativa”,  informa Guttilla.
Nesse processo de adaptação dos processos e desenvolvimento de novas tecnologias para reduzir as emissões de gases causadores do efeito estufa, novas oportunidades de negócios podem ser identificadas. A Braskem, por exemplo, investiu US$ 5 milhões no projeto que converte etanol em eteno e, por sua vez, em polietileno. Os pesquisadores da empresa descobriram uma forma de produzir 2,2 vezes mais polietileno “verde” do que a quantidade necessária para produzir a mesma resina a partir do nafta.
A meta da empresa é iniciar a produção do “plástico verde” até o fim de 2009, com a instalação de uma fábrica com capacidade anual entre 100 mil e 200 mil toneladas. O investimento previsto gira em torno de US$ 150 milhões. “Estamos nos antecipando a um cenário de escassez de matéria-prima de fontes não-renováveis e, com isso, dando condições melhores de sobrevivência e competitividade para a empresa no futuro”, afirma Roberto Simões, vice-presidente responsável por Competitividade Empresarial.
Linha do tempo
1873 – Criação da Organização Internacional de Meteorologia (WMO)
1979 – Realização da Primeira Conferência Mundial sobre o Clima que reconheceu a mudança climática como um problema grave e de interesse global
1988 – Criação do IPCC – Painel Intergovernamental de mudanças climáticas
1990 – Sob recomendação do IPCC, a Assembléia Geral da ONU inicia as negociações para a adoção da Convenção sobre Mudanças Climáticas
1992 – Criação da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC)
1994 – Brasil ratifica a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas
1995 – Durante a Conferência das Partes em Berlim, Alemanha, propõe-se a elaboração de um protocolo e decisões sobre o acompanhamento das obrigações da Convenção
1997 – Adoção do Protocolo de Kyoto, estabelecendo metas de redução de gases de efeito estufa para os principais países emissores, chamados países do anexo I
2000 – Durante a Conferência das Partes em Haia, Países Baixos, as negociações para ratificação do Protocolo de Kyoto foram suspensas pela falta de acordo entre a União Européia e os Estados Unidos em relação aos sumidouros e às atividades de mudança do uso da terra. No Brasil, um Decreto Presidencial cria o Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas
2001 – Conferência das Partes em Marrocos – Retomada das discussões para ratificação do Protocolo de Kyoto, sem os Estados Unidos
2005 – Com a ratificação pela Rússia, Protocolo de Kyoto entra em vigor oito anos após sua criação
2006 – Lançamento do documentário “Uma verdade inconveniente”, de Al Gore
2006 – No seu terceiro relatório, cientistas do IPCC afirmam, com 90% de certeza, que as alterações climáticas são causadas pela ação humana
2007 – Durante a 13ª Conferência das Partes sobre o Clima (COP-13), em Bali, Indonésia, define-se o Mapa do Caminho, um roteiro com os princípios que vão guiar as negociações do regime global de mudanças climáticas, que sucederá ao Protocolo de Kyoto.
Ameaças aquecimento global
• Africa em 2020:
– Estima-se que entre 75 e 250 milhões de pessoas estarão expostas à falta de água.
– Em alguns países, os cultivos a base de agricultura irrigada podem sofrer uma redução de 50%.
• Asia em 2050:
– Menor disponibilidade de água potável.
– Há um grande risco de as regiões costeiras, especialmente as mais populosas do Sul, Sudoeste e Nordeste, serem alagadas com a elevação do nível dos oceanos.
• Países insulares:
– Com o aumento do nível dos oceanos, prevê-se maiores inundações, tempestades e erosões que vão requerer infra-estrutura muito mais sofisticada.
– Em meados do século, os recursos hídricos serão mais escassos nesses países.
Fonte: IPCC
Políticas-chave para reduzir o aquecimento global
• Instrumentos de incentivo para iniciativas de mitigação dos impactos do aquecimento global e desenvolvimento de tecnologias limpas
• A fixação de um valor financeiro para o carbono a fim de estimular o desenvolvimento de tecnologias e produtos de baixa emissão de gases causadores do efeito estufa
• Decisões de investimento em infraestrutura baseadas os efeitos a longo-prazo, em termos de emissões
• Mudanças no padrão de vida e consumo, especialmente, na construção, transporte e setores industriais.
Fonte: IPCC

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