De catástrofe em catástrofe

De catástrofe em catástrofe

Quando o então senador Barack Obama foi eleito presidente dos EUA, em novembro de 2008, a notícia era velha para Hollywood, que já havia antecipado a manchete — um representante da minoria negra chegava à Casa Branca — desde algumas décadas antes, em diversos filmes e seriados de TV que começaram, segundo o modo sugestivo e envolvente da ficção, a acostumar o público norte-americano à ideia. A lista inclui James Earl Jones em “O Presidente Negro” (1972), Morgan Freeman em “Impacto Profundo” (1998) e Dennis Haysbert em 79 episódios de “24 Horas” (de 2001 a 2006).
Em “Impacto Profundo”, o “Obama” interpretado por Freeman — que, vale lembrar, já viveu também Deus em “Todo Poderoso” (2003) — não serviu apenas à difusão do imaginário sobre tolerância e convivência racial. Seu personagem precisava lidar com uma severa ameaça de extinção à vida no planeta, em drama de ação e suspense que se filia a um gênero muito popular nos anos 70, o dos filmes-catástrofe. Produzido pela DreamWorks (o estúdio que tinha Steven Spielberg como sócio) e dirigido por Mimi Leder (de “O Pacificador” e “A Corrente do Bem”), ele representa uma tradição que não parece destinada a morrer: a do cinema que vai nos habituando à ideia de que o ser humano tem seus dias contados.
O mais recente exemplar dessa ficção distópica que busca atrair o público graças ao apelo da desgraça circunscrita à tela é “2012” — que, por sinal, traz outro ator negro, Danny Glover, como o presidente dos EUA. Seu roteirista, produtor e diretor, o alemão Roland Emmerich, tem larga experiência como porta-voz de teorias catastrofistas. Em “Independence Day” (1996), o perigo vem do espaço, na forma de extraterrestres hostis; em “Godzilla” (1998), a destruição é provocada por um monstro gigante, fruto de mutação associada a explosões nucleares no Pacífico; em “O Dia Depois de Amanhã” (2004), o aquecimento global provoca a inundação de cidades litorâneas e o início de uma nova era do gelo.
Outro cataclisma planetário está na origem de “2012”, que se alimenta também de certo imaginário popular sobre o “fim do mundo” e supõe como seria a batalha pela sobrevivência em um planeta de condições ambientais pouco amistosas. A reiteração de situações como essa em filmes de sucesso, vistos por centenas de milhões de espectadores em todo o mundo, poderia sugerir que eles poderiam exercer o papel de acender o sinal amarelo (ou já o vermelho) para a marcha de exploração dos recursos ambientais e da consequente degradação do meio. Espectadores assustados corresponderiam a cidadãos mobilizados?
Infelizmente, tudo indica que não. Cada novo filme em que a Terra se torna inóspita tende apenas a nos acostumar aos contornos de uma hecatombe e às agruras da sobrevida penosa a uma tragédia de proporções inéditas, assim como os filmes e seriados com presidentes negros não elegeram Obama, mas atenuaram o impacto de sua imagem vitoriosa. Talvez Hollywood e o cinema industrial não sejam levados a sério. Talvez ainda não sejam muitos os que acreditem, de fato, que esses cenários de ficção possam virar realidade. O certo é que, se o apocalipse um dia se confirmar, ao menos o cinema já nos terá preparado para ele, e ninguém poderá reclamar que não foi avisado.
Sérgio Rizzo é jornalista, mestre em Artes e doutorando em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo, crítico da “Folha de S. Paulo” e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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