Novos valores para um mundo de baixo carbono

Novos valores para um mundo de baixo carbono

O segundo dia de plenária do Sustentável 2009 discutiu dois dos principais temas em pauta quando o assunto é responsabilidade social corporativa: educação para sustentabilidade e a transição para uma economia de baixo carbono.
Moderada pela diretora da The Natural Step (TNC), Sinome Ramounoulou, a plenária Diálogo Multisetorial: Educação para Sustentabilidade trouxe Rachel Trajber (coordenadora geral de Educação Ambiental do MEC), Celso Schenkel (coordenador de Ciências e Meio Ambiente da Unesco), Miriam Vilela (diretora executiva do Secretariado Internacional da Carta da Terra), e Mário Hélio de Souza Ramos (diretor departamental – Fundação Bradesco). Os debatedores chegaram ao consenso de que a educação, seja formal ou informal, deve deixar seu status de promotora de informação para finalmente se tornar um espaço de aprendizagem prática. O movimento proposto pelo grupo, que rompe com o atual sistema educativo brasileiro, é usar informação para gerar expertise, para futuramente culminar em ação.
Do setor público, Raquel Trajber conta que os planos do Ministério da Educação para o futuro da educação brasileira vão desde a implementação de programas de incentivo ao desenvolvimento comunitário sustentável e investimento na formação de novos docentes até a adequação física dos prédios escolares para promover a eficiência energética e reaproveitamento da água da chuva. A coordenadora geral do MEC conta ainda que o governo pretende inserir o tema sustentabilidade no currículo escolar, que aliada às demais frentes de atuação podem transportar essa discussão para a família ajudando a construir novos valores para uma sociedade sustentável.
Celso Schenkel trouxe para a mesa de discussões as principais estratégias da UNESCO para provocar a mudança de comportamento, que vão desde reforçar o papel das fundações educacionais, facilitar redes de interação, fornecer espaços para discussão da sustentabilidade, até valorizar um novo modelo de economia que promova a melhoria na qualidade de vida. Já Mário Hélio de Souza Ramos levantou a importância das experiências pessoais para construir uma cultura de sustentabilidade nas empresas, que dependem da ação dos profissionais para pensar o tema.
Mas foi do diálogo caloroso com Miriam Vilela que surgiram as ideias mais interessantes do debate. Assim como o diretor departamental da Fundação Bradesco, a diretora executiva do Secretariado Internacional da Carta da Terra explorou a importância do marco social, que consiste na maneira como o indivíduo é exposto à sustentabilidade, influenciando seus comportamentos futuros.
Para ela, os desafios maiores relacionados à educação ambiental dependem de elevá-la a um nível contextual, conectada à realidade do indivíduo, explorando necessariamente o lado emotivo das relações humanas com o meio ambiente. Além disso, ela propõe o incentivo ao pensamento sistêmico, como forma de diluir as fragmentações e definir a interdependência dos programas socioambientais.
Economia de baixo carbono
A última plenária do dia, moderada por Carlos Magri (Ethos), contou com David Hone (consultor em mudanças climáticas da Shell) e Roberto Simões (presidente da Santo Antônio Energia), ambos apresentando um painel sobre as intenções das empresas para o cenário de redução de emissões; Eduardo Jorge, secretário municipal do Verde e Meio Ambiente de São Paulo; e Carlos Ritti, coordenador do Programa Mudanças Climáticas e Energia do WWF Brasil. Mais do que investimento, a mesa sugeriu cooperação global para superar o atual modelo de emissões e desenhar um cenário muito mais verde gradualmente.
A mesa discutiu a possibilidade da criação de uma economia que promova a inclusão social ao mesmo tempo em que reduz a quantidade de emissões de CO2. A proposta, para David Hone, da Shell, depende não só da mudança de comportamento e do estilo de vida da população, mas também da intensidade de energia e carbono das atividades econômicas. Para a Shell, existem dois caminhos pelos quais as empresas devem seguir no futuro: o nacionalista, que ressalta a utilização de novas ferramentas de geração, que culminaria no crescimento contínuo do consumo de carbono; e o integralista, que prima pela criação de instituições globais a fim de discutir novas diretrizes para o mercado, tendo como objetivo final a estabilização das emissões de carbono até 2100. Segundo Hone, será indispensável a transição do papel dos governos de nível nacional para o nível global, além de encorajar o surgimento de novas tecnologias que funcionem em larga escala.
Do ponto de vista público, Eduardo Jorge defendeu que todo país deve fazer esforços de cooperação. Para ele, apesar da prioridade do investimento público em educação e saúde, a política ambiental deve ser vista com mais cuidado, já que é transversal a todas as outras políticas governamentais, o que potencializa a aplicação de investimentos. O secretário propõe a criação de um novo código ambiental e teme que o Brasil chegue a Copenhague sem um relatório de emissões de carbono.
Já Roberto Simões propõe tanto a ruptura do atual modelo de emissões, quanto à transição para uma economia mais limpa e sustentável a partir da exploração em larga escala de opções para expansão da geração de energia a partir de fontes alternativas. Como exemplos nessa linha, ele citou as usinas Santo Antônio e Girau estão sendo concebidas sob um sistema de baixa queda em áreas de menor área de inundação e, consequentemente, menor impacto socioambiental.
Para Carlos Ritti, a ruptura em curto prazo é extremamente necessária, já que os mais vulneráveis são as populações mais pobres. A WWF acredita que o mundo vive em estado de espera e que é a partir da cooperação dos países desenvolvidos e subdesenvolvidos que será possível identificar o potencial de mitigação nos mais diversos setores, definir arcabouços legais e institucionais, desenvolvimento científico e tecnológico e reforçar os investimentos público e privado.
No entanto, vale lembrar que para o Brasil, o cenário não é dos mais animadores, já que sofremos secas rígidas, enchentes freqüentes e que mesmo tragédias climáticas como o furacão Katarina não foram suficientes para ampliar os investimentos no sentido de promover a transição para uma economia de baixo carbono. Basta observar iniciativas como a de redução do IPI para a compra de automóveis que ao invés de privilegiar carros com baixo nível de emissão, facilita a compra de qualquer veículo, indiscriminadamente. Falta reforçar uma cultura de baixas emissões.

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