Artigos – “Consumatores”: Sim à ética na etiqueta

Artigos – “Consumatores”: Sim à ética na etiqueta

Camisetas feitas de velhas garrafas PET ou de polyester reciclado: argumento de venda, utopia rentável ou embrião de tendência?
Será que a campainha da Era do “consumator” já tocou? O que sucede na hora de comprar, quando o peso do preço anestesia a consciência da escolha (ou não é sequer alternativa)? Ou quando essa informação – tão valorizada – nem sequer é de domínio público?
Ganham as empresas que melhor tratarem seus funcionários. É a sentença dos consumidores apurada no mais recente estudo levado a cabo pela Globescan (e Sperantia, em Portugal).
A maioria dos entrevistados nos países da América Latina, Estados-Unidos, França, Suíça, Itália e Filipinas, está, aparentemente, de acordo. Todavia, o dilema permanece. No Canadá, Reino Unido, Austrália e Indonésia, os consumidores confessam premiar as organizações que mais protegem o ambiente (cuja atividade menos o deteriora). Contudo, como saber distinguir as empresas que fazem das que se limitam a promover?
O cenário repete-se na Turquia: aqui valorizam-se, antes de mais, os donativos para entidades de solidariedade social. Já devolver às comunidades (nas quais operam) é sinônimo de responsabilidade social das empresas, segundo Sul-Coreanos e  Sul-Africanos.
Ser ou não ser: cadê a “lebre”?
África do Sul: camisetas para a Copa do Mundo. Feitas de velhas garrafas PET e de polyester reciclado são “uma tentativa de fazer do torneio um evento um pouco mais “verde””, segundo matéria publicada pelo The Guardian (Fevereiro 2010). O jornal britânico assegura que o preço é o mesmo: 132 reais (£ 50, a 19/05/10). O equivalente à das não-recicladas. O que pesa, então, na decisão do “consumator”?
Estará usando oito garrafas de plástico (por cada camiseta), extraídas de aterros Japoneses e Tailandeses e derretidas antes de serem processadas na fábrica. A Nike declara que o processo economiza em 30% o uso de energia se comparado ao que é  necessário para fazer polyester de material novo. Qual é o uso de energia total utilizado para ambos os casos, quando comparados a outras camisetas? Pouco importa…
A indústria fashion “verde” parece ter recebido bem a iniciativa: “as camisetas recicladas são definitivamente um passo na direção correta”, declarou uma porta voz do Fórum de Moda Ética, uma instituição industrial que promove a sustentabilidade. “A Nike está dando largos passos, nos anos recentes, para melhorar sua performance no que tange aos direitos dos trabalhadores”, destacou. Mas… alguém revelou em que condições trabalham os funcionários terceirizados da Nike? Quem são?
Escolhas de ficar verde. Nina Stevenson, do Centro de Moda Sustentável do London College, declarou ao The Guardian que o material utilizado nas camisetas é realmente uma escolha “verde” feita pela marca: “Usar PET reciclado é uma inovação reconhecida com benefícios ambientais reais. Ao usar recursos já existentes, a marca está dando apoio a um design que não compromete o balanço ecológico”, disse. Certíssimo. E… anulam-se ao balanço as emissões do transporte a partir do Japão e da Tailândia para o resto do mundo? Como?
Certo é que, de momento, “iniciativas “verdes” fazem sentido para os negócios da companhia” frisou a vice-presidente de negócios sustentáveis e inovação da Nike, Hannah Jones. “O elo entre sustentabilidade e a Nike como uma companhia em crescimento nunca esteve tão claro e há seguramente um interesse real em fazer da marca uma companhia mais sustentável”, adianta. Que a iniciativa seja positiva, não há dúvida. Que a empresa evoluiu desde os tempos em que recorria a trabalho infantil, também não. Agora promover-se como sustentável?
Terceirizados ou não, os funcionários talvez pudessem ser contratados em cada continente (para não dizer país) onde decorrem as vendas. Aí sim, contribuiriam realmente para reduzir o impacte ambiental (transporte e aquisição de mais vestuário), assim como para o desenvolvimento da economia local. Melhor ainda se a marca apostasse numa gestão para tornar-se uma melhor organização para trabalhar ou contribuísse para a comunidade, como uma parte dos consumidores deseja. Face a este contexto, como premiar (ou penalizar) esta marca, em detrimento de outras? Resta torcer (pelos nossos teams) para que “o elo entre sustentabilidade e negócios” garanta um Pontifex para disponibilizar informações essenciais na etiqueta das camisetas (ou outros). Para que a vitória da mutação de  consumidor para “consumator” (consumista é o estado primário) possa se vislumbrar.
* Sandrine Lage – * Mestre em Sustentabilidade (Universidade de Cranfield, Reino Unido) e autora do livro “Sustentabilidade na mídia: o poder de (in)formar” (Envolverde, 2009 – Brasil)

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