Liberdade como via inovadora
Entre as empresas mais emblemáticas do século 21, o Google tem sido sinônimo de ousadia e inovação. Desde o seu nascimento, a companhia norte-americana vem revolucionando o mercado com a introdução de soluções voltadas às necessidades reais dos usuários.
Por trás de seus serviços e produtos inovadores, está uma estrutura organizacional e um ambiente de informalidade favoráveis à colaboração, à liberdade de expressão e à troca de idéias entre os funcionários.

À medida que os esforços de inovação da empresa se voltam para a sustentabilidade, surgem iniciativas interessantes como a do Google Earth Outrech, que disponibiliza versões mais avançadas do software de imagens de satélite para organizações não-governamentais. O objetivo do projeto é oferecer às entidades mecanismos para difundir e proteger causas socioambientais.
A idéia partiu de uma engenheira do grupo, Rebecca Moore, hoje diretora global do Google Earth Outrech, quando uma área verde do bairro em que morava na Califórnia passou a ser ameaçada por um empreendimento imobiliário. Para mostrar o que estava acontecendo naquela comunidade, Rebecca criou uma programação no Google Earth e passou disparar imagens que registravam a retirada de madeira local, o impacto nas nascentes dos rios, na fauna, flora e em toda a biodiversidade da região.
“O resultado foi surpreendente. Pessoas de todo o mundo se mobilizaram contra a obra, que acabou sendo embargada. Diante disso, Rebecca percebeu que a ferramenta poderia ser útil na promoção de causas ambientais e sociais”, afirma Ximenes.
A experiência tem inspirado outras iniciativas dirigidas à sustentabilidade. Ximenes conta que os projetos nessa área – surgidos, a princípio, da iniciativa de funcionários – não só receberam apoio como motivaram a companhia a dedicar esforços à busca de tecnologias mais limpas.
Em 2007, o Google anunciou o compromisso de se tornar carbono neutro. Desde então, vem mobilizando o seu time de funcionários e empresas do setor de Tecnologia da Informação a desenvolver energias renováveis. No mesmo ano, fundou, junto com a Intel, o Climate Savers Computing Initiative, um consórcio sem fins lucrativos, cuja meta é baixar pela metade o consumo de energia dos computadores até 2010, reduzindo as emissões de carbono em cerca de 54 milhões de toneladas por ano.
Outra frente de atuação se dá com o Projeto Predict and Prevent, criado para utilizar a tecnologia da informação na prevenção de ameaças iminentes antes que elas se tornem crises locais, regionais ou mesmo globais. Esses eventos podem incluir doenças infecciosas, o desmatamento e até mesmo as mudanças climáticas.
Há ainda iniciativas para facilitar o acesso à informação de comunidades, com o propósito de estimular o empreendedorismo ou de fomentar políticas para melhoria dos serviços públicos. Para Ximenes, todas essas soluções resultam de características e valores que a companhia procura identificar e incentivar entre os funcionários. “Preferimos pessoas que tenham um padrão ético e moral sólido, que desejem fazer o bem, construir algo diferente. Nossos profissionais precisam querer mudar o mundo. Essa é a ambição que nos move”, destaca Ximenes.
Voluntariado e inovação
Ao estreitar os laços com a comunidade da qual faz parte, a empresa têm mais condições de conhecer as reais necessidades dos consumidores e alinhar o processo de inovação à sustentabilidade.
Na General Eletric, a prática do voluntariado tem auxiliado a empresa a atender às expectativas de seus mercados e, ao mesmo tempo, oferecer respostas para dilemas complexos colocados pelo desenvolvimento sustentável.
Segundo Marcelo Mosci, presidente da GE para a América Latina, o voluntariado contribui na formação de profissionais, principal fator de inovação da empresa. “É um caminho de ida e volta. Cada pessoa tem uma competência que pode ser colocada a serviço da comunidade. Em troca obtém um ensinamento único que o ambiente de trabalho dificilmente proporciona. Ao perceber que pode melhorar o meio em que vive, o profissional começa a pensar diferente e basear suas ações em propósitos”, afirma.
A empresa conta com um grupo de voluntários desde 1928, ano da criação do GE Volunteers. Mas foi só recentemente que o voluntariado começou a assumir contornos mais estratégicos. Segundo Mosci, a prática também melhora a capacidade de gestão da empresa. Essa descoberta surgiu a partir do momento em que a empresa passou a incorporar atividades junto à comunidade em reuniões de equipe e treinamentos. “Todas as vezes que fazíamos grandes reuniões de staff, contratávamos alguém para criar um ambiente integrado entre as pessoas. Até que em um encontro no México, nasceu a idéia de realizar um serviço comunitário para esse fim”, ressalta.
Os profissionais da GE se dedicam a atividades voluntárias dentro do seu horário de trabalho. No Brasil, o GE Volunteers possui quatro conselhos distribuídos em São Paulo, Campinas e Rio de Janeiro. Além das atividades realizadas com as entidades parceiras, a GE realiza círculos de leitura com alunos da rede pública de ensino. Os encontros ocorrem na companhia e são conduzidos pelos multiplicadores do Instituto Fernand Braudel e voluntários da GE.
Segundo Alexandre Alfredo, diretor de comunicação da empresa, as crianças e jovens que participam dos círculos convidam os voluntários a refletir sobre o mundo à sua volta, estimulando novas atitudes. “No início, tivemos receio de que a integração com o grupo pudesse não ocorrer. Mas fomos surpreendidos. Começamos a ler clássicos, como os de Platão e Sócrates, por exemplo, e não demorou muito para que surgissem perguntas do tipo: ‘qual o paralelo disso com a nossa sociedade?’. Essa experiência convoca nossos profissionais a refletirem e pensarem fora da caixa”, afirma.
Além de orientar as atividades de voluntariado, a busca de soluções voltadas para os principais problemas da sociedade tem se mostrado um importante nicho de negócio para a empresa. Em 2004, a GE lançou a linha Ecoimagination e o compromisso de investir US$ 1,5 bilhão de dólares na pesquisa e desenvolvimento de soluções sustentáveis até 2010.
A linha conta com cerca de 60 produtos que incluem desde turbinas com baixa emissão de gases de efeito estufa até sistemas de automação para casas que visam reduzir o consumo de água e energia. Em 2007, as vendas de produtos da Ecoimagination atingiram quase 10% das vendas globais da companhia, totalizando 14 bilhões de dólares. Segundo estimativas da própria empresa, o faturamento da Ecomagination cresce três vezes mais rápido que a média de todos os produtos da GE. Deverá atingir 25 bilhões de dólares em 2010.
O alinhamento da estratégia à sustentabilidade funciona como uma via de mão dupla. A decisão de construir soluções sustentáveis reforça nos funcionários o sentimento de que podem transformar a realidade, o que, consequentemente, aumenta as chances de sucesso da própria estratégia. “As pessoas admiram a plataforma Ecoimagination porque sabem que se trata de algo inovador. Por menor que seja a contribuição de cada um nesse processo, é gratificante saber que podemos fazer a diferença a partir do desenvolvimento de soluções que proporcionam benefícios não só para a empresa, mas também para o meio ambiente e a sociedade como um todo”, afirma Alfredo.
“Decifra-se ou serás devorada”
Conhecer a fundo as competências e incapacidades da empresa é pré-requisito para a inovação. De acordo com Symantob, da FGV, as empresas inovadoras sustentáveis, são, antes de tudo, grandes psicanalistas de si mesmas. Essa é uma habilidade que, segundo ele, a Embraer desenvolveu muito bem. Como sabia que não conseguiria produzir aeronaves grandes, a companhia brasileira decidiu usar o conjunto de suas competências para bater fabricantes de máquinas de vôos regionais, como a Bombardier.
A conexão com pólos de conhecimento, acesso a matérias-primas essenciais, custo de mão-de-obra competitivo, conhecimento do mercado de rotas curtas e flexibilidade produtiva são os pontos fortes da empresa. Ao reconhecê-los, ficou mais fácil –crê Symantob– traçar uma estratégia e centrar seus esforços de inovação.
O desenvolvimento de tecnologias mais limpas é hoje uma das principais apostas da Embraer. Em 2004, a empresa lançou o pulverizador Ipanema, primeiro avião no mundo a operar totalmente com biocombustível (álcool). A tecnologia foi premiada pela revista Scientific American como uma das 50 invenções mais importantes de 2005.

Em abril de 2008, a Embraer, juntamente com outras empresas do setor aeronáutico, assinou a declaração sobre mudanças climáticas durante a 3ª Conferência de Aviação e Meio Ambiente (Aviation & Environment Summit).
De acordo com o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas das Nações Unidos (IPCC) as viagens em aeronaves são responsáveis por 2% de todo o dióxido de carbono produzido pela atividade humana. Em resposta a este desafio, a Embraer tem feito um esforço para economizar combustível, aperfeiçoar a aerodinâmica dos aviões e utilizar novos materiais. Melhorias tecnológicas desse tipo proporcionaram a redução de 3% no consumo de combustível dos jatos EMBRAER 190 e EMBRAER 195, os maiores fabricados pela empresa.
De acordo com Symantob, da FGV, a Embraer consegue desenvolver e lançar novos produtos acompanhando as necessidades do mercado porque a inovação está consolidada em sua cultura. Ainda segundo o especialista, para tornar o processo de inovação contínuo, a organização deve, portanto, “abrir seu próprio DNA” e, se for preciso, transformá-lo por meio da criação de novas competências, da correção de rumos, do abandono de recursos improdutivos que não reproduzam o valor do capital.
“A companhia precisa formular estratégias ancoradas na sua identidade. Deve fazê-lo em atenção ao chamado da mitológica esfinge, monstro épico destruidor da cidade de Tebas, apenas derrotado após a resolução do enigma, que parafraseado ficaria: decifra-se, ou serás devorada”, ressalta.
Empresa sou “eu”
Como pressupõe o próprio nome, a responsabilidade social traduz em compromissos a proposta de desenvolvimento sustentável. Partindo desse princípio, o professor da FGV defende que os funcionários tenham consciência de que respondem pela companhia. “As pessoas contratadas para a organização precisam trazer algumas características, como a clareza de que vão trabalhar em uma organização comercial, cuja parte do resultado final será responsabilidade dela. Os profissionais precisam aprender a pensar e agir sempre na primeira pessoa do singular.”, exemplifica.
O Grupo Orsa é um bom exemplo de integração do conceito de sustentabilidade ao negócio. E também de cultura interna predisposta para o tema. Segundo Rosana Orlando, coordenadora de Responsabilidade Social Empresarial e Sustentabilidade do Grupo Orsa, os funcionários requerem atenção especial. “É preciso trabalhar a cultura organizacional e, sobretudo, conscientizar as pessoas da sua parcela de responsabilidade como cidadãos e como empregados. É importante que os funcionários se sintam fazendo parte dos resultados da empresa e, consequentemente, da diminuição do impacto das atividades do negócio no meio ambiente”, ressalta.
No Wal-Mart, as responsabilidades dos funcionários são reforçadas por meio do “Projeto Pessoal para a Sustentabilidade”. O programa incentiva a mudança de atitude em sete temas: compras responsáveis; redução e reciclagem de resíduos, saúde e bem-estar, energia, água, mobilização e voluntariado. O PPS já conta com mais de 32 mil adeptos, que escolheram seu campo de atuação, comprometendo-se a adotar valores sociais e ambientais em sua vida cotidiana.
Para Daniela Di Fiori, vice-presidente de assuntos corporativos e sustentabilidade do Wal-Mart, estimular o desenvolvimento do tema no âmbito do indivíduo é fundamental para que a sustentabilidade seja incorporada efetivamente ao modo de pensar da empresa. “O Projeto Pessoal para a Sustentabilidade é uma das formas trabalhadas para estimular os funcionários a incorporarem a preocupação sócioambiental e com a qualidade de vida. Um dos seus objetivos é mostrar que ações simples podem fazer a diferença”, destaca.
Redes de conhecimento
O ditado “em casa de ferreiro, espeto de pau” não se aplica a IBM, pelo menos no que diz respeito à utilização da tecnologia da informação para criar redes de integração social. Ciente de que o conhecimento é o principal capital de uma organização, a empresa tem procurado desenvolver ambientes nos quais as pessoas possam registrar e compartilhar suas idéias.
Em um universo de 385 mil funcionários, distribuídos em todo o mundo, existem cerca de 10 mil blogs corporativos. Os veículos tratam desde temas técnicos até tendências, estratégias e generalidades. “Em uma economia global, largam na frente as organizações que conseguem criar grandes comunidades a fim de agregar todo o conhecimento espalhado. Por isso, procuramos criar ferramentas capazes de integrar as pessoas”, explica Mauro Segura, executivo de comunicação da IBM.
O Innovation Jam é um evento emblemático desta filosofia de colaboração da companhia. Criado em 2001, e realizado uma vez por ano, o fórum virtual era voltado apenas para o público interno. Mas a partir de 2006, passou a integrar familiares dos funcionários, clientes e formadores de opinião sempre em torno da idéia de discutir tendências e oportunidades de negócios.
No Innovation Jam de 2007, a companhia selecionou 10 idéias. Com base nelas, está investindo US$ 100 milhões no desenvolvimento de novos modelos de negócios, entre os quais uma linha de negócios verdes. A proposta consiste na aplicação da experiência da empresa em tecnologia da informação, gerenciamento e otimização de sistemas e ciência dos materiais, em oportunidades ambientais emergentes. A IBM já identificou três áreas de interesse inicial: modelagem hídrica avançada; filtragem hídrica por meio de nanotecnologia e sistemas eficientes de energia solar.
Essa demanda do mercado já é percebida pelos líderes da companhia. Os CEOs concordam que os clientes estão se unindo a organizações socialmente responsáveis e exigindo cada vez mais produtos e serviços com este perfil. Foi o que demonstrou o “Estudo Global com CEOs”, realizado a partir de entrevistas com mais de 1000 executivos, de 40 países.
Segundo a pesquisa, o grupo de CEOs pesquisados planeja aumentar em 25% os investimentos destinados a modelos negócios baseados na responsabilidade social.
Não é a toa que, em 2008, o Innovation Jam teve como tema inovação e sustentabilidade. A plataforma registrou 32 mil comentários postados e mais de 1,5 milhão de visitas. As idéias estão sendo organizadas e orientarão a estratégia da companhia. “O grande desafio é não perder de vista as necessidades das pessoas e voltar-se para aquilo que realmente vai ser útil para o cliente e para a sociedade como um todo. Não é simplesmente a inovação pela inovação”, ressalta Ruth Arada, diretora de cidadania corporativa da IBM.
10 passos para construção de uma cultura de inovação voltada para a sustentabilidade
1. Orientação da atividade de pesquisa e desenvolvimento para o desenvolvimento sustentável;
2. Valorização das pessoas;
3. Formação de profissionais conscientes de sua responsabilidade junto à organização e à sociedade;
4. Estabelecimento de relações de trabalho mais permanentes;
5. Compromisso da alta administração com o tema;
6. Capacidade de antecipar cenários futuros;
7. Agilidade em transformar conhecimento em soluções de mercado;
8. Consciência de sua identidade, competências e limitações.
9. Desenvolvimento de novas tecnologias e modelos de gestão que favoreçam a cooperação;
10. Criação de uma estrutura organizacional que proporcione a liberdade de expressão, capaz de reconhecer e desenvolver boas idéias.
Elementos-chave para um ambiente favorável à inovação sustentável
-Estímulo a atividades comunitárias;
-Criação de redes de colaboração;
-Flexibilização das estruturas organizacionais;
-Fomento ao debate de idéias e conflitos criativos;
-Sensibilidade ao ambiente externo;
-Tolerância a novas idéias.










