Sustentabilidade na Berlinda

Sustentabilidade na Berlinda

Atualmente, ainda que tardiamente, as diversas formas de discussão acerca dos modelos viáveis de desenvolvimento sustentável passam a ganhar relevância cada vez maior, muito em função de nossa frustração pelos abusos exploratórios praticados por nós, cidadãos, e por nossas empresas e nações, agentes econômicos que têm buscado resultados baseados no curto-prazo, muitos até com boa pressão de imediatismo (vide companhias abertas em Wall Street).
Para nosso azar, os reflexos nefastos dessas decisões e ações não sustentáveis afloram num tempo de resposta mais tardio do que os “benefícios” imediatos que aferimos ao ignorá-las, quando escolhemos estratégias, práticas e hábitos equivocados, causando a falsa sensação de que a única coisa que importa é a geração de lucros e maior competitividade, independentemente dos meios que utilizamos ou dos recursos que consumimos.
A geração de lucros é, sem dúvida alguma, premissa existencial de qualquer organização, empresa ou mesmo nação (ex. saldos positivos nas balanças comerciais), assim como o acúmulo de riquezas, em algum nível, é premissa de sobrevivência, perenização e evolução para qualquer ser (individuo ou jurídico), de qualquer espécie.
Entretanto, vivemos consumindo e estabelecemos trocas em volumes nunca imaginados – puro efeito da globalização digitalizada – e o gradiente resultante desta miríade de transações aparentemente caóticas impacta diretamente na vida e no destino de pessoas, organizações e, é claro, do meio em que estas ocorrem, muitas das vezes baseadas em recursos que este mesmo meio provê – o meio ambiente.
Ou seja, quando um ou mais pilares do triple bottom line não estão devidamente contemplados nos modelos produtivos, transacionais e de consumo, quem perde é o todo. Aliás, para nós da DOM, o modelo TBL é incompleto, porque não contempla duas dimensões altamente determinantes nos modelos sustentáveis: a tecnologia e as questões culturais (simbologia).
E é em função deste pentágono de dimensões complementares (econômico, ambiente, social, cultural e tecnológico) que precisamos reconstruir nosso modus-vivendi.
Em outras palavras, toda corrente (nossos mercados, nossos grupos, nossos laços são como redes ou correntes) tem sua máxima força no elo mais fraco. A fraqueza de um simples elo (agente econômico) afeta a performance (a saudabilidade) de toda corrente. É o efeito perceptivelmente tardio, porém, agora resplandecente, agressivo e destruidor, que estamos percebendo mais e mais a cada dia. E estamos ficando preocupados.
Mais do que rechaçando alguma reação adversa capaz de dilapidar a euforia pelo lucro e prazer aferidos (no curto prazo) em nossa filosofia “racional” de vida, gestão, consumo e investimentos, estamos mesmo é sem saber qual é nosso papel nesta enorme corrente, qual a nossa responsabilidade por seu equilíbrio dinâmico e quais as consequências de nossas falhas e desleixos.
Com vários chapéus (de consumidores, polítcos, ativistas, cidadãos, trabalhadores, empreendedores, etc), mas sem saber qual utilizar, ficamos perplexos e recaímos em apontar os culpados históricos, rankeamos riscos, jogamos sugestões baseadas em achismos e puro “catastrofismo”, politizamos a discussão e não decidimos nada de forma eficaz. E por quê? Porque o risco, hoje, para nós, não parece material; porque todos os estudos e análises apontam para impactos de longo prazo. Então, lá no futuro, não estaremos vivos e, portanto, hipócritas, nos afogamos hoje no copo d’água que amanhã não beberemos.
A máquina humana de pensar – a mente –  simplesmente não está programada para se preocupar com hipóteses ou problemas de longo prazo. É antinatural, porque sobreviver é hoje e agora. Aprendemos assim. É neandertal, é DNA, somos nós. E o que fazer então? Lutar contra nossa natureza? Sim! Reconhecermos nossa incapacidade individual é o primeiro passo. Depois, procurarmos estabelecer consenso em políticas, modelos e processos capazes de nos governar e nos proteger de nós mesmos.
Porque sem líderes para temas áridos, sobra-nos a confiabilidade de um ecossistema de regras e normas, tecnologias e conhecimento que, devidamente engenheirados, nos mostrarão as melhores decisões, valorizarão os acertos e punirão os oportunistas.
Por outro lado, o resultado do ciclo virtuoso gerado pela correta e integrada gestão dos aspectos econômicos, ambientais, sociais, culturais e tecnológicos pode (e deve) ser, desde já, identificada sob o ponto de vista de valor tangível e intangível.
Os resultados econômicos e até financeiros são diretamente influenciados por esses fatores. Ou seja, no “BSC” do futuro da humanidade, a dimensão econômica será necessariamente entregue pelas outras 4 (social, ambiental, cultural e tecnológica).
Entretanto, hoje, a questão do desenvolvimento sustentável está muito mais associada a prevenir e controlar riscos (proteção de valor), do que a identificar e explorar oportunidades que serão descobertas com os novos modelos (geração de valor). E, dentre os riscos e efeitos negativos das matrizes não sustentáveis adotadas atualmente, podemos citar:
• Social: altos turn-overs de funcionários, maior dificuldade na contratação e retenção de talentos, declínio acelerado de produtividade, problemas com comunidades de entorno, grupos de pressão negativa, alto volume de processos de consumidores, geração de pobreza, etc.
• Ambiental: mudanças climáticas, poluição, desmatamento, desperdício e potencial extinção de recursos naturais, extinção de espécies, aparecimento e alastramento de doenças, etc.
• Cultural: perda de identidade nacional ou local, prostituição de culturas específicas, fagocitose cultural, perda de diversidade, apagão de inovação, dentre outros.
• Tecnológico: oligopólios tecnológicos, exclusividade inovativa, macro-disseminação de informações falsas, contra-educação, potencialização de mídias irresponsáveis, valorização de tecnologias de exclusão, etc.
Olhando particularmente para as empresas, quando a gestão irresponsável ignora em suas estratégias os aspectos e impactos sociais, ambientais, culturais e tecnológicos, mesmo que o “resultado positivo” venha no curto prazo, em algum momento ela (seu acionista) terá que pagar a conta, gastando muito mais em readequações de modelos e cadeias produtivas, estruturas fabris, arquiteturas de processos, políticas de recursos humanos e programas de marketing, sem falar no alto custo do contencioso jurídico.
Ter sucesso no processo de conscientização dos agentes econômicos (stakeholders do planeta) para a materialidade do tema sustentabilidade passa por falarmos a linguagem que nós mesmos entendemos. Ou seja: riscos e benefícios de curto prazo. Ou como diria Freud, procurar o prazer e fugir da dor. Agora!
Isso quer dizer comunicar de forma clara, mais numérica e menos terrorista, mais incentivadora e menos fatalista, esses riscos e benefícios, apontando com clareza o que cada um pode e deve fazer, e o que ganha com isso (premiações) ou perde (punições).
Enfim, trazer o valor presente o efeito das boas práticas de desenvolvimento sustentável (ou o custo das más práticas) nos parece a ferramenta de comunicação mais eficaz que podemos adotar. Porque se formos a favor da natureza humana, tenham certeza, iremos mais rápido… para onde quer que seja: um mundo melhor ou um precipício gigantesco.
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*Daniel Domeneghetti, sócio-fundador da E-Consulting Corp., é atualmente CEO da DOM Strategy Partners, presidente do Instituto Titãs do Conhecimento e co-manager da InVentures Participações. Articulista, conferencista e palestrante internacional, especialista em Estratégia Competitiva, Marketing e Gestão, é também co-autor do livro “Ativos Intangíveis – O Real Valor das Empresas“, publicado pela Ed. Campus Elsevier.

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