Pós-Copenhague

Pós-Copenhague

À medida que refletimos sobre a Conferência do Clima em Copenhague (CoP-15) com um amargo sentimento de desapontamento em todo o mundo, devemos considerar que, enquanto governos levam meses ou mesmo anos para firmar negociações sobre o clima, há empresas que são o “elefante branco da sala” . Elas representam uma força silenciosa: entre as 100 maiores economias do mundo, 52 são companhias multinacionais, e apenas 47 representam países.
É, portanto, de extrema importância monitorar o que as empresas fizeram e estão fazendo para mensurar e reduzir suas emissões de carbono. Com o intuito de facilitar esses processos, diversos instrumentos foram desenvolvidos nos últimos anos, a fim de criar uma base para medir as emissões de gases do efeito estufa e o potencial de redução para estabelecer metas. Essa contabilidade dos GEE deve ser executada de forma transparente, o que significa que as informações precisam ser compartilhadas com todos os stakeholders, inclusive com as Partes  da United Nations Framework Convention on Climate Change (UNFCCC), os grupos de trabalho do Protocolo de Kyoto e qualquer acordo alcançado no horizonte pós-Copenhague.
É de conhecimento geral que a Global Reporting Initiative (GRI), provedora do modelo de relatório de sustentabilidade mais utilizado em todo o mundo, inclui um conjunto de indicadores de emissão de GEE entre os seus princípios de governança e indicadores para comunicação do desempenho social e ambiental. Globalmente, milhares de empresas realizam todos os anos relatórios de sustentabilidade baseados no modelo GRI, e muitos incluem essas informações em seus relatórios de atividades. E o Brasil é um dos países líderes no reporte de informações não-financeiras – como o diretor-executivo do GRI Ernst Ligteringen já afirmou em edições anteriores de sua coluna nesta revista: “As empresas no Brasil são as mais rápidas no mundo a aderir aos relatórios de sustentabilidade. Em termos do número de relatórios produzidos com base no G3 Guidelines, o Brasil é líder mundial, atrás apenas da Espanha e dos Estados Unidos. Isso poderá ajudar o País a se preparar para os desafios que terá de enfrentar no futuro”.
Essa tese parece ter sido confirmada recentemente em pesquisa realizada pelo GRI em parceria com a Association of Chartered Certified Accountants. O relatório fornece uma perspectiva única sobre o grau em que as grandes empresas ao redor do mundo começaram a revelar sua contabilidade de GEE e estratégias para a redução. O Brasil é um dos destaques do levantamento, com resultados bastante interessantes, ao lado de países emergentes como China, Índia, Rússia e África do Sul.
A má notícia é que menos da metade das empresas estudadas mundialmente fornecem, em seus relatórios de sustentabilidade, informações específicas relacionadas às alterações climáticas por meio de indicadores GRI. A segunda parte do estudo consiste na revisão dos relatórios GRI de 32 grandes empresas do Brasil, Rússia, Índia, China e América do Sul. O estudo revela que as grandes companhias dessas regiões reportaram emissões de acordo com suas políticas e estratégia de governança, bem como a partir da percepção de riscos físicos e de regulação. Todas se engajaram em termos de mitigação e promoveram ações de adaptação. Definiram metas e as mediram, embora poucas utilizem métodos de verificação externa, o que possivelmente representa uma área a ser estudada com mais profundidade. Algumas – mas não muitas – das empresas russas fizeram o mesmo.
Enquanto alguns governos relutam em assumir metas obrigatórias de redução de GEE, um impressionante grupo de líderes empresariais já está engajado ao movimento, um bom número dos quais representado pelos países do bloco BRICSA. Esta é uma mensagem importante a ser passada aos negociadores governamentais, à comunidade corporativa e a todo o mundo.
Teresa Fogelberg é Vice-Presidente-Executiva da Global Reporting Initiative. Foi chefe da delegação holandesa para as negociações da UNFCCC de 1999 a 2003.

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