O esverdeamento radical

O esverdeamento radical

Radical greeening. Este é o nome dado por recente estudo da consultoria Ernst & Young  a uma tendência observada em todo o mundo de aumento das preocupações ambientais entre os consumidores e os governos.
Segundo a pesquisa, denominada Riscos Estratégicos Empresariais, o “esverdeamento radical” constitui hoje, segundo os 70 analistas entrevistados, uma das dez maiores próximas ameaças aos negócios. Junto com outras tendências, integra um conjunto de riscos setoriais, tirando o sono especialmente dos segmentos de petróleo e gás, seguros, energia e saneamento e a indústria automobilística, que  já começam a trabalhar com a perspectiva de que consumidores ambientalmente engajados e regulamentações mais severas venham a exercer pressão cada vez maior sobre as suas atividades.
De acordo com o estudo, a tendência transformou-se em risco estratégico por força do aquecimento global. O receio de que a humanidade venha a sofrer na pele os impactos das mudanças climáticas – ressaltado depois do relatório do IPCC da ONU – inseriu o tema meio ambiente na agenda pública. E passou a mobilizar consumidores e governos. Antes indiferentes ao debate,  os consumidores começam a usar o seu poder para influenciar mudanças de comportamento em empresas. Pressionados pela sociedade, os governos demonstram crescente interesse por regular os mercados, tornando-os menos emissores de carbono e menos agressores ao meio ambiente. Ainda segundo o estudo, as atuais previsões climáticas baseiam-se em cenários cientificamente conservadores. É possível, portanto, que o perigo seja maior do que o divulgado. Eventuais catástrofes de natureza ecológica podem estimular uma resposta ainda mais dura de consumidores e governos, o que significa, na prática, que as empresas terão de se preparar para um gerenciamento permanente de seus riscos ambientais.
No curto prazo –aponta o relatório – o desafio estratégico está em quanto as companhias estão dispostas a fazer para serem ambientalmente responsáveis. Isso porque uma decisão para o futuro implica altos custos presentes que, no entanto, podem gerar dividendos caso os consumidores percebam e atribuam valor a ela ou as regulamentações se tornem mais severas de um dia para outro. O estudo não arrisca prever o alcance dessa revolução verde. Mas afirma que algumas companhias “pagarão por essa mudança”, enquanto outras vão tentar se tornar verdes radicalmente ou – mais provável ainda – não suficientemente verdes. Citando casos recentes de companhias petrolíferas e de gás, o relatório aponta que o mundo caminha para uma situação de tolerância zero em relação a acidentes ambientais. Prova disso é o fato de que corporações situadas em setores mais suscetíveis ao radical greening estão se mexendo. E rapidamente. Muitas já desenvolvem práticas líderes em compliance ambiental. Em suas estruturas, começa a surgir, com status de diretoria, a figura de um responsável por meio ambiente, uma espécie de zelador dos impactos ambientais, guardião dos ativos da companhia diante dos riscos regulatórios e da pressão de consumidores mais sensíveis ao tema.
A postura tem, é claro, um caráter preventivo. Mas não precisa ser necessariamente reativa às circunstâncias. Segundo o estudo, os mercados podem participar mais proativamente do desafio estratégico do radical greening, investindo em rótulos que informam sobre compromissos socioambientais, integrando o comércio mundial de carbono, discutindo as regulamentações e os impostos sobre emissões.
Na nova economia que se desenha, nesta primeira década do século 21, as companhias devem tomar uma decisão sobre o que desejam ser. Muitas quererão, por força do hábito, adotar um protocolo mínimo para  apenas cumprir a lei. Outras, menos reacionárias, preferirão reduzir suas emissões, oferecendo produtos menos impactantes, ou sequestrando o carbono de suas atividades.
Haverá também as que, ousadas e inovadoras, criarão serviços que ajudem seus consumidores a diminuir suas pegadas ecológicas. Olhando a agenda da mudança climática pela ótica da oportunidade, será bem-vinda a transferência de competências negociais. Muitas das capacidades que tornam uma empresa líder, por exemplo, em extração de petróleo, poderão ser empregadas, no futuro, quando se encerrar a era do combustível fóssil, na produção de energias limpas e renováveis.  O mesmo consumidor verde que hoje representa um risco para o negócio poderá garantir a lucratividade futura da empresa.
Não é possível arriscar o nível com que o radical greening evoluirá nos próximos anos. Mas ele está em curso e é irreversível. Suas premissas reforçam uma convicção tantas vezes apresenta nesta coluna de que companhias ambientalmente responsáveis hoje terão uma vantagem competitiva amanhã, até porque apenas elas serão capazes de atrair os jovens talentos de que precisam para construir esse futuro.
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Cumpre destacar, em nome da precisão, que o estudo da Ernst & Young não fez nenhuma alusão comparativa entre o carro e o cigarro como produtos que vão sofrer a pressão de consumidores ambientalmente responsáveis. Ele focou o radical greening como um risco para a indústria automobilística. O uso da comparação foi adotado pelo colunista e pela repórter  que escreveu a matéria da última terça-feira

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