O desafio da água

O desafio da água

“A gestão da água é por definição a gestão de conflitos”.
Worldwatch Institute, 2005
O acesso à água tem sido alvo de conflitos desde que o mundo é mundo, ou mais precisamente, desde 8.000 A.C, quando a humanidade começou a cultivar alimentos. A disputa por este recurso, escasso em muitas regiões do planeta, é tão antiga que está na origem de uma palavra utilizada ainda hoje para designar a intolerância e a ausência de convivência pacífica entre homens. Rivalidade, segundo apontou um relatório do Worldwatch Institute, denominado “O Estado do Mundo”, deriva do Latim ‘rivalis’ e significa “aquele que usa o mesmo rio que outrem”.
Com as mudanças climáticas, a escassez de água pode se tornar ainda mais grave. O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), das Nações Unidas, prevê que, se for mantido o atual ritmo de emissões de gases de efeito estufa,  a Terra corre o risco de ficar até 4°C mais quente em 2100. Como conseqüência dessa alteração, dois bilhões de seres humanos sofrerão com a falta de água.
Sobre a água, vale lembrar o que afirmou, em documento de 2005, a organização Sustainable Development International: “Há fontes alternativas de energias. Não existem alternativas à água”. Mesmo tendo este elemento uma fórmula química simples, nunca foi possível desenvolvê-lo artificialmente.
Produzir cada vez mais com menos recursos hídricos, permitir a universalização do acesso à água potável e serviços de saneamento, criar mecanismos políticos e de mercado que proporcionem a governança compartilhada dos recursos hídricos são alguns dos desafios para assegurar a plena disponibilidade da água e, consequentemente, a vida na Terra.
Nosso futuro está secando?
Imagine um mundo em que aproximadamente uma em cada cinco pessoas não tem acesso à quantidade de água suficiente para as suas necessidades diárias. Ou ainda um mundo no qual 2,2 milhões morrem a cada ano por beber água contaminada ou pela falta de saneamento.  Imagine um mundo em que se observe uma disputa acirrada entre países pelo domínio de recursos hídricos.
Embora possa parecer o enredo fictício saído da cabeça de um roteirista de Hollywood —  como o de WaterWorld ou o Dia Depois de Amanhã –  este mundo, é real e vivemos nele hoje.
Segundo estimativas da Worldwide Foundation (WWF), nos próximos 20 anos, a disponibilidade mundial de água per capita diminuirá em um terço,
De acordo com o consultor Maurício Waldman, geógrafo da USP, apesar de grave e preocupante, a questão da água tem sido negligenciada. “A escassez de recursos hídricos é uma discussão muito recente. Para se ter uma idéia, o relatório Meadows, divulgado pelo Clube de Roma na década de 60, não cita a água em termos de escassez. Ninguém supunha que essa questão teria o aspecto crítico verificado hoje. Só depois de 40 anos, a discussão do problema ganhou corpo. Ainda assim, persiste a falsa idéia de que água é um recurso inesgotável”, ressalta.
Essencial para a vida, a água tem usos variados e muitas vezes politicamente conflitantes. Segundo Waldman, as disputas por esse recurso já ocorrem, ainda que não sejam muito debatidas. “Conflitos vêm sendo travados pelo acesso à água em todo o mundo. Um dos elementos que determinaram a guerra dos seis dias, entre Israel e Palestina, foi o controle das águas do rio Jordão. O acesso à água também é uma das motivações das brigas entre a Turquia e a Síria e até mesmo da Guerra do Iraque. A Turquia represou as águas do rio Tigre e Eufrates. Ao alterar o fluxo dos rios, que corriam naturalmente para a Síria e Iraque, acabou por prejudicar o abastecimento nesses países”, ressalta Waldman.
O especialista lembra ainda de revoltas urbanas, como a ocorrida em Cochabamba, na Bolívia, em 2000, a partir da privatização da água que levou ao aumento de até 300% nos preços do serviço de abastecimento. No Brasil, a polêmica em torno da transposição das águas do rio São Franscisco é um exemplo dos múltiplos interesses envolvendo a gestão dos recursos hídricos.
Cerca de 70% da água consumida mundialmente, incluindo a que decorre de desvios e de bombeamento do subsolo, é utilizada para irrigação. Aproximadamente, 20% abastece a indústria e 10%, as residências.
A tomar como medida os padrões atuais, segundo os quais a produção de uma tonelada de grãos requer 1.000 toneladas de água, até 2050 estima-se que poderá não haver mais água suficiente para produção da comida necessária para atender a população mundial que, segundo projeções, será de cerca de nove bilhões de habitantes, três bilhões a mais do que hoje.
Em seu famoso livro “Ecoeconomia”, uma das mais importantes obras sobre desenvolvimento sustentável, Lester Brown aponta que o déficit hídrico mundial, medido pela extração excessiva de aqüíferos, cresce a cada ano, tornando cada vez mais difícil de ser administrado. Segundo o pesquisador, se todos os países decidissem acabar hoje com a extração excessiva e estabilizar os lençóis freáticos, a colheita mundial de grãos sofreria uma redução de aproximadamente 160 milhões de toneladas, algo em torno de 8%. Os preços, por essa razão, disparariam. Quanto mais os países demorarem a enfrentar essa questão, mais elevado será o déficit hídrico e mais custoso o ajuste final.
Para Waldman, conciliar os diferentes usos da água, tal como estão hoje distribuídos, sem riscos de escassez, é uma tarefa impossível. “O modelo de consumo de água precisa ser revisto. Ele está relacionado ao padrão de vida da civilização moderna, com uma alimentação baseada na proteína animal e consumo intenso de materiais. Hoje, desperdiça-se mais água, jogando comida fora. Para se ter uma idéia, são gastos 100 mil litros de água para produzir um quilo de carne. Com esse volume, uma pessoa pode tomar banho por quatro anos e meio”, alerta o consultor.
Em tese, o volume de água existente na Terra é grande o bastante  para suprir todas as necessidades humanas. No entanto, ainda segundo o consultor, o uso dos recursos hídricos precisa ser otimizado a partir de tecnologias mais eficientes.
O Brasil é um dos campeões mundiais em desperdício. A porcentagem de perdas, provocada por vazamentos e ligações clandestinas, alcança 40%, quantidade suficiente para abastecer 35 milhões de pessoas ao longo de um ano. Nos países desenvolvidos, a média de perdas oscila entre 5% e 15%.
Na análise de Waldman, a gestão mais eficiente dos recursos hídricos utilizados pelas atividades agrícolas e pecuárias proporcionaria uma disponibilidade maior de água para consumo humano. “A agricultura ainda usa métodos perdulários. Se a atividade agrícola demandasse 10% a menos de água, dobraríamos a quantidade do recurso para uso humano”, explica.
Essa não é, no entanto, uma questão meramente técnica. A problemática do acesso à água envolve aspectos culturais e sociais. “Israel tem o melhor sistema de abastecimento, mas precisa da água da Cisjordânia. Um marroquino ou argelino necessita de 60% menos água do que um norte-americano. Em algumas áreas do nordeste brasileiro, o acesso à água é interditado por aqueles que têm poder. Portanto, a gestão dos recursos hídricos depende de instrumentos técnicos, econômicos e políticos para que atenda às suas diversas finalidades sociais ”, ressalta.
Distribuição da água
Cerca de 97,5% das águas do planeta são impróprias para consumo humano direto, pois correspondem à massa líquida dos oceanos, mares e lagos salgados. Apenas os 2,5% restantes compreendem as águas doces. Entretanto, deste total 68,9% constituem água das geleiras, neves eternas e sob a forma de gelo encarcerado nas calotas polares, principalmente na Antártida e na Groenlândia. Outros 29,9% são compostos de água doce alojada no subsolo e 0,9%, de águas salobras dos pântanos ou estocada em solos congelados (permafrost), comuns nas altas latitudes do planeta.
O volume de água potável disponível para atender as necessidades humanas e dos ecossistemas corresponde a 0,0002% do volume total dos recursos hídricos, cerca de 200.000 km³.
Ainda assim, essa quantidade seria suficiente para abastecer a população mundial de 6 bilhões de habitantes, não fosse a excessiva  poluição à qual são submetidos os corpos d’água, o que compromete sua capacidade de depuração natural e afeta a disponibilidade de recursos hídricos no planeta.
Outro problema importante é que a água não está distribuída de forma uniforme na Terra. Apenas nove nações possuem cerca de 60% de toda a água doce disponível para abastecimento mundial: Brasil, Rússia, China, Canadá, Indonésia, EUA, Índia, Colômbia e a República Democrática do Congo. Contudo, as variações locais, dentro dos próprios países, costumam ser muito significativas.
No Brasil, por exemplo, apesar de ser a menos populosa, a região Norte é a que armazena a maior quantidade de água. Já as regiões Sul e Sudeste têm as maiores concentrações populacionais e a menor quantidade de água disponível por habitante, comparável às das regiões áridas do Nordeste brasileiro.
“A Região Metropolitana de São Paulo, por exemplo, tem 201 metros cúbicos por habitante por ano, um número extremamente inferior ao desejável que é acima de 1500 metros cúbicos por habitante por ano. Esse é um caso extremamente crítico e já há muitos anos, ela utiliza água importada de outras bacias hidrográficas, agravando o conflito regional pela utilização do recurso”, afirma Lineu Andrade de Almeida Presidente da Seção São Paulo da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES).

Água virtual

A água utilizada na produção de um artigo agrícola ou industrial tem sido modernamente conceituada como ‘água virtual’. Em um processo produtivo, parte dos recursos hídricos empregados se perde nos esgotos e mananciais. Outra parcela é reciclada pela natureza por meio da evaporação e transpiração das plantas. Porém, uma quantidade significativa permanece no produto e acaba sendo exportada para outras regiões do mundo. Esta é a “água virtual”
O Brasil é hoje o 10º maior exportador de “água virtual” do mundo em  lista encabeçada pelos Estados Unidos, que anualmente vendem ao exterior em média 164 milhões de metros cúbicos de água. Entre 1995 e 1999, os EUA foram responsáveis pela comercialização no mercado internacional, de algo entre 10 e 100 milhões de m³ de água embutida em produtos. A maior parte deles teve como destino a Europa.
Como o sistema econômico não considera os serviços do ecossistema, o preço dos produtos exportados pode não compensar os gastos, no longo-prazo, para a recuperação dos mananciais e de ambientes locais. Dessa forma, as nações exportadoras acabam mais perdendo do que ganhando, especialmente se os artigos agrícolas são produzidos de forma insustentável, com danos para os ecossistemas locais, a exemplo da poluição do solo e exploração demasiada dos recursos hídricos.
Um país que sofre com escassez de água, por exemplo, pode importar produtos que demandam muita água para sua produção ao invés de produzi-los internamente. Fazendo isso, ele não só economiza volumes expressivos de água, como alivia a pressão sobre os seus recursos hídricos, tornando-o acessível para outros usos.
Segundo o Conselho Mundial de Água (World Water Council – WWC),  o comércio “virtual” tem implicações geopolíticas e induz à dependência entre países. Sendo assim, pode, ao mesmo tempo, ser um estímulo para a cooperação e a paz ou um motivo para potenciais conflitos.
Água e saúde
O relatório de 2006 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) alerta que a falta de água e saneamento mata uma criança a cada 19 segundos no mundo, em decorrência de diarréia.
Nos países em desenvolvimento, a situação tem se mostrado ainda mais crítica: por falta de água potável e saneamento, são registrados cinco bilhões de casos de diarréia por ano. Desses, cerca de 1,8 milhão correspondem a crianças  menores de 5 anos, que morrem da doença, uma desconcertante média de 4.900 por dia.
“A diarréia é a segunda principal causa de morte na infância, atrás somente das infecções respiratórias. Ainda que possa ser evitada com medidas simples, a doença mata mais do que a tuberculose e a malária;  seis vezes mais que os conflitos armados e, entre as crianças, cinco vezes mais do que a Aids”, ressalta Lineu Andrade de Almeida, presidente da ABES .
Segundo relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS), 10% dos problemas gerados por doenças no mundo todo poderiam ser evitados a partir de melhor gerenciamento da água – com melhorias no sistema de fornecimento de água potável, mais saneamento e higiene.
Cerca de 60 milhões de brasileiros (9,6 milhões de domicílios), não dispõem de coleta de esgoto. Outros 15 milhões (3,4 milhões de domicílios) não têm esgotamento sanitário, nem acesso à água encanada. Além disso, apenas 25,6% dos esgotos coletados são tratados, sendo o restante lançados in natura em corpos d’água, o que contribui — segundo dados da Conferência Nacional das Cidades — para contaminar o solo, as águas subterrâneas e os oceanos.
Segundo o levantamento feito pela OMS em 192 países, no Brasil as mortes causadas por problemas relacionados à água, saneamento e higiene chegaram, em 2002,  a 28,7 a cada mil, 2,3% do total de mortes registradas no país. Andrade lembra que o custo financeiro para reduzir pela metade a proporção de pessoas sem acesso a água potável e saneamento – como prevê um dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio – seria de US$ 10 bilhões ao ano, utilizando-se tecnologia de baixo preço. Para universalizar o acesso seriam necessários de US$ 20 bilhões a US$ 30 bilhões ao ano, dependendo da tecnologia. “O valor de US$ 10 bilhões, porém, é menos do que o mundo gasta com armas em cinco dias e menos da metade do que os países ricos desembolsam com garrafas e copos”, ressalta.
No Brasil, o investimento de 10 bilhões de reais ao ano, por 20 anos consecutivos, seria suficiente para universalizar o serviço de saneamento. Esse montante corresponde hoje a aproximadamente 0,6% a 0,7% do PIB brasileiro.
De acordo com importante relatório do PNUD, manter o déficit de água e saneamento custa nove vezes mais do que resolvê-lo. Só os sistemas de saúde dos países em desenvolvimento economizariam US$ 1,6 bilhão ao ano. O custo total do déficit chega a US$ 170 bilhões, ou seja, mais do que o Produto Interno Bruto (PIB) da Argentina, ou 2,6% do PIB de todos os países em desenvolvimento juntos.
“Se os benefícios sociais por si não são motivadores, vamos universalizar o saneamento só para economizar. É muito mais inteligente”, provoca Andrade.
Tecnologias de tratamento
As experiências pioneiras de tratamento da água surgiram apenas no século XIX. A primeira estação para esse fim foi construída em Londres em 1829 e tinha a função de retirar impurezas da água do rio Tâmisa por meio de filtros de areia.
Até então, não se sabia que a água poluída era um meio de transmissão de doenças. A idéia de tratar o esgoto, antes de lançá-lo no meio ambiente, só foi testada pela primeira vez em 1874, na cidade de Windsor, na Inglaterra. Com a descoberta de que doenças letais da época (como a cólera e a febre tifóide) eram transmitidas pela água, técnicas de filtração e cloração começaram a ser desenvolvidas.
Determina-se a tecnologia mais adequada para o tratamento dos recursos hídricos em função do seu uso. A água destinada ao abastecimento público, por exemplo, é captada de mananciais e recebe substâncias químicas a fim de eliminar resíduos orgânicos, sais dissolvidos, metais pesados, partículas em suspensão e microorganismos. Assim, ela se torna própria para o consumo.
Já o tratamento de esgoto residencial ou industrial observa parâmetros de qualidade menos rigorosos, pois o intuito é devolver o recurso hídrico para o corpo d’água com qualidade igual ou superior a que foi captada, sem prejuízos para o meio ambiente.
A água de reuso é outro produto resultante do tratamento de esgoto. Ela pode ser utilizada para a rega de jardins, lavagem de pisos, descargas dos vasos sanitários entre outros fins que não sejam o consumo humano.
A água utilizada nos processos produtivos requer parâmetros de qualidade e tecnologias específicas. Por meio da dessalinização, por exemplo, é possível eliminar os sais dissolvidos na água empregada em diversas atividades industriais, como produção de vapor em caldeiras, semi-condutores, indústria farmacêutica e alimentícia.
A desmineralização, outra tecnologia utilizada pelas empresas,  apresenta duas variantes. A troca iônica a partir da utilização de resinas sintéticas que seqüestram os sais dissolvidos na água por meio de uma reação química. E a osmose reversa, a partir de membranas sintéticas com poros tão pequenos que são capazes de filtrar os sais dissolvidos.
Gestão da água nas empresas
Segundo o relatório “As empresas no mundo da água” do Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável (World Business Council for Sustainable Development), a água deveria ser um tema prioritário na agenda das empresas, tendo em vista que todos os negócios, de uma forma ou de outra, dependem do recurso.
“A continuidade e o sucesso futuro de qualquer companhia são afetados pela disponibilidade, custo e qualidade da água em diversas fases da ‘cadeia de valor’”, ressalta o documento do WBCSD.
O aprimoramento dos processos produtivos de modo a reduzir o consumo proporciona ganhos não só ambientais e sociais, mas também econômicos. Já há bons exemplos no Brasil.
A matriz da Bosch, em Campinas (SP), implementou um processo de tratamento de efluentes galvânicos que permite a reutilização de 60% do total da água utilizada. Anualmente, esse sistema possibilita o reaproveitamento de 240 milhões de litros de água/ano, volume equivalente ao consumo anual de uma comunidade com, aproximadamente, 5.500 pessoas – considerando uma média de água gasta, por pessoa, de 120 litros/dia ou 43.200litros/ano.
“Como a Bosch é uma empresa do segmento metalúrgico, a água é matéria-prima básica para os seus processos produtivos. Utilizamos as fontes de obtenção pública de água tratada, recursos hídricos de superfície e subsolos. Há um tratamento específico para cada etapa da produção, sendo que os efluentes também são tratados e utilizados em outros processos”, afirma Theóphilo Arruda, gerente de Engenharia Civil, Preservação do Meio Ambiente e Segurança Empresarial Corporativa da Robert Bosch América Latina.
A Bosch utiliza,  aproximadamente, 9 m³ de água por hora, sendo que 70% desse recurso decore de reuso, o que equivale a aproximadamente 6,3 m³ por hora.

Fazer mais com menos

Em 2007, a Coca-Cola Brasil superou a meta de 2,19 litros de água por litro de bebida produzida. O consumo médio das 37 plantas brasileiras foi de 2,10 litros de água/litro de bebida, um volume 5% inferior ao de 2006. “Com essa redução o Sistema Coca-Cola Brasil deixou de captar o equivalente a 960 milhões de litros, volume de água suficiente para abastecer 3.100 famílias de quatro pessoas por um ano. A meta é chegar, até 2012, a 1,7 litro de água consumida por litro de bebida produzido”, afirma José Mauro de Moraes, diretor de meio ambiente da Coca-Cola Brasil.
Segundo o executivo, o uso eficiente e racional da água é uma prioridade para a empresa. Por isso, ela desenvolveu um plano de ação visando reduzir consumo, evitar desperdício, promover a reutilização, gerenciar os riscos hídricos em suas operações  e buscar fontes alternativas de captação, como as chuvas, por exemplo Este plano, alinhado com o sistema de gestão ambiental, integra o Programa Água Limpa, criado em 2005.
Para Moraes, a grande meta da companhia é atingir um estágio de empresa “neutra” no consumo de água, a partir de ações afinadas com as diretrizes dos três Rs: reciclar a água (estação de tratamento de efluentes), reduzir o consumo (com aumento de eficiência e fontes alternativas) e repor a água consumida por meio de ações compensatórias.
A Ambev, por sua vez, alcançou a média de 1,71 litros de água para cada litro de refrigerante produzido em 2007. Em algumas unidades da empresa, o consumo de água é ainda menor. A filial de Jundiaí, por exemplo, reduziu de 1,78 para 1,63 litros a água usada na produção de cada litro de refrigerantes, tornando-se referência entre todas as unidades da companhia.  Em 2006, a filial de Contagem, em Minas Gerais, atingiu a média de 1,25 litros para cada litro de bebida fabricada.
O processo de fabricação de cerveja demanda mais água. Ainda assim, houve uma economia do consumo de 2006 para 2007. A companhia reduziu de 4,30 para 4,19 litros a água usada na produção de cada litro de cerveja. No total, a AmBev aumentou em 22% o índice geral de economia em cinco anos.
Conciliar a redução do consumo de água com o aumento da produção é um dos grandes desafios das empresas. Este é o caso da Unilever. Nos últimos cinco anos, a empresa diminuiu o consumo de água em 32% mesmo diante do crescimento de sua produção de 27%, no mesmo período. Na prática, essa redução foi de mais de 1.000.000 metros cúbicos / tonelada, o equivalente a mais de 400 piscinas olímpicas ao ano.
Na unidade da Amanco localizada em Suape, Pernambuco, a forma como a fábrica foi projetada tem proporcionado o uso mais eficiente dos recursos naturais, entre eles a água.
O sistema compacto e integrado de tratamento de efluentes sanitários permite a reutilização da água, que normalmente seria desperdiçada, nas descargas de vasos sanitários, rega de jardins, limpeza de pisos e equipamentos.
Como o resfriamento dos tubos fabricados em Suape ocorre em circuito fechado, o processo de produção de uma tonelada consome apenas 40 litros de água, enquanto que pelo método tradicional seriam necessários 1.500 litros. A redução de 97% ganha relevância quando se considera que a fábrica de Pernambuco produz 1,4 mil toneladas de tubos por mês.
Na Holcim, a principal finalidade da água é o resfriamento dos equipamentos. Segundo Valéria Pereira, gerente corporativa de meio ambiente, outra parte é utilizada no processo produtivo, propriamente dito, nos moinhos de cimento e nas torres para resfriamento ou para resfriar os gases no forno.
“A água utilizada pela empresa é 100% recirculada. É uma forma de evitar o consumo e descarte, pois captamos a água e a consumimos novamente”, ressalta Valéria.
Cobrança pelo uso da água
Instrumento de gestão da Política Nacional de Recursos Hídricos, a cobrança pelo uso da água integra o  Sistema Integrado de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SIGRH), instituído por meio da  Lei 7663/91. Esse mecanismo se baseia nos conceitos de “usuário pagador” e do “poluidor pagador”, adotados com o objetivo de combater o desperdício e a poluição das águas, de modo que quem desperdiça e polui acaba pagando mais por isso.
A cobrança pelo uso começa de fato a ser trabalhada no Brasil com a criação da Agência Nacional de Águas (ANA), fundada a partir da Lei 9433, que criou o Sistema Nacional de Recursos Hídricos.
Os Estados do Ceará, Paraná e Santa Catarina, assim como a União já adotam a cobrança.
Em países nos quais já vigora essa lei, como França, Inglaterra e Alemanha, ela tem induzido as empresas que captam água diretamente dos rios a tornar mais eficiente o uso dos recursos hídricos.
Localizada na região de Campinas a Merck Sharp & Dohme paga pela captação da água do Atibaia, que é um rio federal, e de poços profundos, hoje controlados pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee) do Estado de São Paulo.
No último ano, a empresa alcançou uma economia da ordem de 19% no consumo total na fábrica a partir da eliminação de desperdícios e reutilização dos recursos hídricos.
“A água é importante não só para a atividade produtiva, mas também para a população. Por isso, é adequado que quem faz uso desse recurso pague por ele”, afirma Valéria Madeira, gerente de segurança e meio ambiente da Merck Sharp & Dohme.

A Indústria da água mineral

Segundo o WorldWatch Institute (WWI), a indústria de água mineral é a que mais cresce no mundo, colocando em risco as nascentes e as reservas aquáticas subterrâneas. Além disso, o processamento e o transporte desse tipo de água exigem volumes significativos de energia.
Segundo o Pacific Institute, instituição de pesquisa com sede na Califórnia, a produção e o transporte do produto nos Estados Unidos lançaram na atmosfera 8,4 milhões de toneladas de carbono – o mesmo que 2,2 milhões de veículos.
A prefeitura de Nova York está tentando convencer a população a beber água da torneira em vez de água mineral engarrafada, com o objetivo de proteger o meio-ambiente.
As autoridades defendem que a campanha vai ajudar os nova-iorquinos a economizar dinheiro e reduzir o desperdício.
Em 2005, o Brasil se tornou o quarto maior consumidor mundial de água mineral, tendo superado Itália, Alemanha e França.
Você sabia…
-Segundo levantamento do Worldwatch Institute, as cidades ocupam somente 2% da superfície terrestre, mas contribuem para o consumo de 60% da água doce;
-Por volta da metade do século XXI, sete bilhões de pessoas em 60 países enfrentarão a escassez de água;
-Uma criança nascida em um país desenvolvido consome 30 a 50 vezes mais do que uma nascida em um país em desenvolvimento;
-Pelo menos um em cada três asiáticos não tem acesso a água potável e um em cada dois está desprovido de serviço de saneamento;
-50% das pessoas que vivem na África sofrem de doenças transmitidas pela água, como o cólera e a diarréia.
Box: Soluções globais para a água
Soluções técnicas
– Utilização da água do mar na indústria e na agricultura.
– Desvios de água das zonas com abundância para zonas de escassez de recursos hídricos.
– Reciclagem de águas residuais.
– Aproveitamento do potencial calorífico das águas residuais como fonte de energia.
– Utilização das águas residuais na rega para aumentar a produção.
– Novas técnicas de exploração de águas subterrâneas.
– Combinação de técnicas de tratamento microbiológico de águas residuais com novas técnicas de separação por membranas.
– Nanotecnologia, técnicas de dessalinização inovadoras.
– Técnicas de cristalização.
– Desenvolvimento de membranas;
– Sistemas de tratamento de baixo custo nos pontos de utilização.
– Produtos de consumo destinados à eliminação de bactérias, vírus, parasitas e metais pesados.
Aumento da produtividade agrícola da água
– Abordagens agrícolas mais eficientes.
–  Agricultura à base de água salgada.
– Maior eficiência da utilização da água nas práticas agrícolas.
Soluções de redistribuição
– Reestruturação e recolocação da indústria em áreas de menor pressão sobre os recursos hídricos.
– Proibição de emissão de licenças ambientais a indústrias que consumam recursos hídricos significativos.
Instrumentos e regulação econômica
– Aumento do preço da água.
–  Maior regulação para o uso industrial da água.
Proteção do ambiente e respectiva regulação
– Preservação e restauração de ecossistemas que otimizem a captação de água e a mitigação das cheias.
–  Incentivos a programas de economia de água.
Soluções de sensibilização
– Patrocínio de campanhas públicas de educação para a utilização da água.
– Definição de objetivos ambiciosos de redução do consumo de água per capita.
Fonte: Relatório “As empresas no mundo da água”, WBCSD – World Business Council for Sustainable Development.
O que as empresas podem fazer
As empresas podem agir de muitas formas – individualmente, coletivamente e em parceria com outras – para enfrentar os desafios da água:
-Reduzindo a utilização da água, bem como das descargas poluidoras/ fluxos de águas residuais ao longo da cadeia de abastecimento.
-Criando produtos e serviços que reduzam a utilização de água e as descargas por parte do cliente final
-Ajudando a desenvolver e promover soluções adequadas que levem em conta diferentes realidades contextuais, como a cultura, poder de compra, escassez de água, variações climáticas e diversificação econômica
– Reduzir o consumo e poupando dinheiro, a partir do reconhecimento de que os custos vão aumentar e a água disponível diminuir;
-Olhando para além da fronteira da fábrica, escritório, cadeia de abastecimento.
-Contribuindo para uma maior conscientização dos desafios.
-Atuando proativamente na comunidade local, reconhecendo a oportunidade de criar novos mercados.
-Fazendo chegar mensagens claras aos dirigentes políticos sobre a importância das políticas da água e de uma aplicação eqüitativa e coerente desse recurso
-Tentando, com outras partes interessadas, criar um conjunto bem definido de princípios para o setor.
Fonte: Relatório “As empresas no mundo da água”, WBCSD – World Business Council for Sustainable Development.
Água nos processos produtivos
gasta na produção
1 kg de pão 150 litros
1 kg de batata   entre 100 e 200 litros
1 kg de arroz   1.500 litros
Cinco mil chips de 32MB, cada um pesando 2g 16 mil litros
Fonte: Conselho Mundial da Água

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