Jim Garrison – A voz dissonante

Jim Garrison – A voz dissonante

Enquanto todos os olhares estão voltados para a Conferência do Clima, a ser realizada em Copenhague, nos mês de dezembro, eis que surge uma voz dissonante para lembrar que é preciso fazer mais pela segurança climática.  Jim Garrison, presidente do State of the World, conduz esse movimento por meio do 2020 leadership campaign, que pretende engajar atores de diferentes segmentos no compromisso de reduzir em 80% as emissões de gases de efeito estufa até 2020. A iniciativa foi lançada em conferência em Belo Horizonte, que teve início no último dia quatro de agosto, e já conta com a adesão do governo do estado de Minas Gerais.
A proposta do State of the World é bem mais ousada do que as metas do protocolo de Kyoto que ficam em torno de 5% de redução das emissões de gases de efeito estufa até 2012. “Os representante do governo em Kyoto e agora em Copenhague estão negociando considerando que ainda temos 40 anos para resolver essa crise. Mas não temos todo esse tempo. Se esperarmos pelo que os governos querem fazer simplesmente a civilização humana será destruída”, ressalta Garrison.
Ainda segundo ele, o combate às mudanças climáticas é também o caminho mais eficiente e mais rápido para superarmos a crise econômico-financeira com que nos deparamos atualmente. Saiba por que em entrevista exclusiva a seguir.
Ideia Socioambiental: Por que é importante trabalhar além da plataforma protocolo de Kyoto?
Jim Garrison: A crise que nos encontramos é resultado de uma contradição do que os cientistas estão dizendo e o que os governos estão fazendo.  Percebemos que a crise está acelerando muito mais rápido do que imaginávamos. Mas os representantes do governo em Kyoto e, agora em Copenhague, estão negociando considerando que ainda teremos 40 anos para resolver essa crise. Se esperarmos pelo que os governos querem fazer simplesmente a civilização humana será destruída.  De acordo com o que está sendo negociado as temperaturas globais vão subir 4°C e a concentração de CO2 vai passar das atuais 384 partes por milhão para 1000 partes por milhão, o que significa aumentar o nível dos oceanos  em 25 metros . Isso significa que 85% da Amazônia se transformará em savana ou deserto e o resto do Brasil será afetado por enchentes. Então, o que os governos estão fazendo é irrelevante para resolver o aquecimento global.
I.S: Historicamente, as empresas não tem  participado ativamente das discussões da Convenção do Clima. Qual a estratégia da 2020 leadership campaign  para trazer esse setor para a mesa de negociações?
J.G: Se as empresas tomarem a frente na questão das mudanças climáticas vão gerar a prosperidade climática.  O que queremos enfatizar e temos, um grupo significativo do mundo dos negócios aqui na conferência, assim como especialistas de todo o mundo que trabalham com o mundo dos negócios, é que  acabar com o aquecimento global é a forma mais rápida e efetiva de resolver a crise financeira atual. Primeiro porque combater o aquecimento global possibilita é também uma forma de economizar dinheiro, considerando que a primeira medida a tomar é conservar energia. Atualmente, 40% a 60% de toda a energia produzida é perdida. Então, as empresas começam a olhar para a eficiência energética como uma forma de poupar recursos financeiros. Em segundo lugar, há o potencial de geração de empregos, que representa uma oportunidade. Para combater as mudanças climáticas é preciso fazer a transição de combustíveis fósseis para tecnologias limpas, energias renováveis que têm o potencial de criar novos empregos. E isso é ótimo para a economia. Temos que substituir a economia atual, que é 80% dependente de carbono. Terceiro,  cria-se o que chamamos de talentos verdes. Isso significa, particularmente, para os mais jovens um grande campo de oportunidades para novas tecnologias, novas indústrias e desenvolvimento de novos produtos em atendimento às demandas dos clientes. Todas os segmentos econômicos baseados em  combustíveis fósseis terão que ser fechados, não há outra alternativa. Teremos que manter o petróleo no solo. Mas se você pegar essas indústrias e elaborar um plano de 10 anos, dizendo que não haverá mais produção de petróleo e gás natural, então, essas companhias terão a oportunidade de se reinventar, fazendo a transição para as tecnologias limpas e de baixo carbono. Não há nada que impeça uma empresa de petróleo se torne uma geradora de energia solar ou que uma empresa de gás natural se torne uma hidroelétrica, todos esses tipos de novas energias renováveis estão disponíveis para todos. É só uma questão de tomar a decisão certa. E uma das formas mais eficientes de fazer isso, que acreditamos, é estabelecer uma taxa de carbono.
I.S: A taxação é mais eficiente do que mecanismos econômicos como o mercado de carbono?
J.G: O mercado de carbono é para o aquecimento global o que o esquema do subprime foi para o colapso do mercado imobiliário. É o que empresas preferem porque eles podem puxar as conchas ao seu redor e não fazer nada, fingindo que estão se mobilizando. Sendo assim, sistemas de Cap and Trade (metas e comércio de emissões) são ineficientes. As taxas são muito mais claras e efetivas e sabemos que a taxação é a forma mais efetiva de mudar comportamento.
I.S: Alguns recrutadores já alertam que faltarão profissionais para preencher as vagas que estão surgindo no setor de empregos verdes, sobretudo em energias renováveis nos Estados unidos e Europa? Como o setor público e privado pode somar esforços para formar essa nova geração de profissionais?
J.G: É simples. Basta ir até as universidades e para os programas de treinamento das empresas e dizer: ” vamos precisar de 100.000 técnicos solares e estamos elaborando um plano de 10 anos, precisamos de 20.000 no primeiro ano, 40.000 no quinto ano e 80.000 no sétimo ano. As companhias e universidades começarão a desenvolver programas de treinamento, programas de tecnologia que poderão resolver isso. A questão não é criar tecnologia, a questão é criar o comprometimento das companhias e também de parte do governo para criar os incentivos econômicos para incentivar as pessoas a se especializarem na área de energias renováveis.
I.S: De maneira nosso estilo de vida e formas de relacionamento serão impactos nessa perspectiva de uma economia de baixo carbono?
J.G: Não podemos discutir a 2020 leadership campaign sem rever nosso estilo de vida. Isso está claro. E há uma série de coisas que as pessoas podem fazer. A primeira delas é conhecer a sua pegada de carbono e há dúzias e dúzias de sites na internet que com um simples click permite-nos conhecer a nossa pegada de carbono. As pessoas precisam aprender sobre carbono, sobre a quantidade de emissões que estão produzindo pelos seus padrões alimentares, de consumo, de transporte, viagens. Uma vez que conhecemos nossa pegada de carbono, há uma série de coisas que podemos fazer, como reduzir o consumo de energia em 90% apenas usando lâmpadas mais energeticamente eficientes. Podemos começar comendo menos carne vermelha, simplesmente porque o modelo de produção de carne atual está destruindo a Amazônia.  As pessoas também não podem continuar consumindo tanto, de maneira geral. Use as suas camisetas, os seus sapados ao invés de apenas jogá-los fora e comprar outros. Quanto mais diminuímos nossa pegada de carbono, mais contribuiremos com a desaceleração do aquecimento global.
I.S: Que proposta o State of the World pretende levar da Conferência do Brasil ao encontro anual da organização, a ser realizado em Washington no mês de novembro?
J.G: O governo de Minas Gerais assinou na terça-feira o documento declarando seu compromisso com a 2020 leadership campaign. Esse é o primeiro estado no Brasil a dizer que vai reduzir suas emissões em 80% até 2020. Talvez, seja o primeiro estado no mundo a assumir tal compromisso. Nosso objetivo é, a partir desses exemplos, catalisar uma mobilização no Brasil para ter adesão de empresas, igrejas, escolas, cidades, organizações de todo o tipo.

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