Informação transparente

Informação transparente

A transparência é um aspecto cada vez mais exigido das companhias mundo afora e, para comunicar o caráter socioambiental de seus produtos, um número crescente de empresas vêm passando por certificações das mais variadas e adotando selos que identifiquem tais ações. Porém, questões como credibilidade das certificações, mensagens confusas e comunicação ao consumidor ainda são temas críticos que envolvem a questão.
Para discutir o assunto e traçar um panorama do atual mercado de certificação no Brasil e no mundo aconteceu, nesta quarta-feira (23/06), o lançamento do Dossiê “Rótulos, selos e certificações verdes: uma ferramenta para o consumo consciente”.
O estudo é o segundo da parceria entre Unomarketing, Idéia Sustentável e Mob Consult, que teve seu primeiro documento, sobre Consumo Consciente, lançado em Março. Outros três estudos serão publicados nos próximos meses abordando temas essenciais na discussão da sustentabilidade.
Confira os principais tópicos discutidos no lançamento do dossiê.
Rótulos e tendências internacionais
O especialista em mapeamento de complexidade, Luis Bouabci, da Mob Consult, iniciou o evento traçando uma perspectiva mundial sobre o tema a partir de um levantamento dos rótulos utilizados em todo mundo, destacando alguns dos mais relevantes.
O número de certificados e rótulos tem crescido em todos os países, juntamente com a quantidade de certificadoras. Ao invés de as empresas fazerem um esforço no sentido de se adequar aos padrões de selos já existentes, muitas têm optado pela criação de novos símbolos, muitas vezes a partir de critérios menos rígidos; a questão financeira e o pensamento no curto prazo as fazem optar pelo caminho mais simples. Atualmente, 600 tipos de selos estão disponíveis no mundo.
“Esse movimento pode levar a total paralisação no avanço das certificações, que visam apontar o quão sustentável uma empresa é. As companhias passam a querer entender o conceito com base nas próprias premissas”, ressaltou Bouabci.
O crescimento da autoregulação se dá em uma época na qual os indivíduos têm buscado mais informações sobre produtos e empresas; e muitas têm aproveitado esse interesse para ganhar pontos no mercado com produtos que se dizem verdes, já que a desinformação sobre o que significam os símbolos estampados em rótulos ainda é muito grande.
“Com a influência que os símbolos exercem sobre as pessoas, ficamos seduzidos por logotipos bonitos. Vivemos em uma era de superficialidade cada vez maior, e começamos a transportar isso para outros assuntos, nos enganamos com tais selos”, destacou o especialista.
A quantidade de selos não tem deixado apenas os consumidores confusos, mas também as próprias empresas, que não sabem a quais certificações se adequarem. O Global Labbeling Network, um movimento para definir critérios que levem a uma unificação das certificações tem sido bem sucedido na União Européia. Do lado da sociedade civil, a plataforma ecolbelling.org permite uma comparação entre selos que possibilita uma decisão mais consciente por parte do consumidor.
Desafios da rotulagem ambiental
Ricardo Voltolini, diretor da consultoria Ideia Sustentável e publisher da revista Ideia Socioambiental, levantou a discussão sobre Rótulos, Selos e Certificações verdes a partir da ótica de consumo consciente.
Segundo o consultor, o Brasil passou por um período da hiperinflação, no qual muitos indivíduos não tinham a possibilidade de consumir. Sendo recente o aumento de consumo do brasileiro, ainda não se criou o hábito de ler rótulos.  Segundo estudo da Market Analysis, apenas dois entre 10 o fazem, enquanto em outros países essa proporção é de 8 para 10.
O alto índice de desinformação cria um questionamento para a expansão do tema: o quanto a falta de interesse decorre de uma baixa valorização da sustentabilidade, aspecto superado com educação, e o quanto decorre da dificuldade em decodificar a informação ou de sua escassez?
“Há um estresse geral de informação e para um consumidor sem hábito fica difícil ter o interesse de avaliar os produtos. Faltam rótulos, campanhas de educação, estimulo por parte das empresas. E não adianta tentar fazer o consumidor virar um especialista, senão o discurso se torna apenas pró-venda, enquanto deveria despertar o interesse da maioria das pessoas”, destacou.
A tendência para que selos sejam cada vez menos autodeclaratórios também foi apontada, e alguns países têm atuado nesse sentido de maneira mais forte, como França e Estados Unidos. No Brasil, que se insere cada vez mais em um contexto global de comércio, a cobrança por modelos de certificação internacionalmente aceitos também aumentou consideravelmente.
Segundo Voltolini, a ascensão de certificações mais eficientes pressupõe a interação entre diferentes atores e, no País, temos um quadro desafiador que passa por um esforço de educação e comunicação, aspectos que foram trabalhados durante o “apagão” no início da década passada.
“O Selo Procel (que identifica aparelhos mais eficientes) veio da crise do apagão, quando o governo veio a publico dizer para a população apagar as luzes, comprar lâmpadas mais econômicas. As lâmpadas foram trocadas e o que era racionamento virou um habito de economia. Atuamos em uma situação critica, e talvez seja hora de pensar novamente como o governo pode atuar.”, finalizou Voltolini.
Desafios para o mercado, segundo o dossiê “Rótulos, selos e certificações verdes”
1-inserir novos critérios específicos.
2-regular o mercado para que as diferenças nos processos de certificação não prejudiquem empresas menores
3- estimular a busca das empresas por certificação, destacando o valor econômico gerado ao negócio e à marca.
4- estabelecer uma convivência boa entre selos e processos de certificação para que se somem ao invés de se anularem.
5- incentivar selos do tipo I, checados por terceiros, e do tipo III, focados em estudos de ciclo de vida de produto.
6-criar mecanismos para evitar uso de selos como forma de greenwashing
Sobre o evento:
“A empresa quer comunicar ao mercado algo e a certificação tenta dar esse recado, é a materialização da informação em forma de selo. Do ponto de vista de dar o recado de maneira global, estamos indo bem, pois temos vários selos exercendo essa função. Do ponto de vista qualitativo, estamos muito longe disso, porque além da proliferação de selos, os consumidores não conseguem diferenciar um do outro, o dossiê mostrou claramente esse aspecto”, Alexandre Van Parys Piergili, da empresa Ecossistemas.
“A questão da criação de rótulos pelas empresas foi um ponto muito importante abordado, que está crescendo principalmente aqui no Brasil, e deve-se tomar muito cuidado porque faz com que elas percam a credibilidade não cresçam em termos de sustentabilidade”, Karina Parassuki, analista de sustentabilidade da PepsiCo Brasil.
“Existe um abismo enorme entre as empresas que estão se certificando e o consumidor- ninguém entende exatamente qual a mensagem dos selos. Esse tipo de evento é importante para educar as pessoas, mostrando os desafios relacionados ao tema”, Alexandre Eliasquevitch Garrido, consultor da Sextante Ltda.

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