Fórum Mundial de Sustentabilidade

Fórum Mundial de Sustentabilidade

Por Cristina Tavelin

Terceiro dia (24/03): 10 anos é o tempo que temos

Último dia do Fórum reafirma preocupação de todos os setores com a urgência de mudanças para que o planeta não chegue a um ponto irreversível de degradação

O último dia do Fórum Mundial nos levou do fundo do oceano à realidade nua e crua de Belo Monte e à governança de um líder indígena que causaria inveja – e admiração –a muitos gestores de empresas. Foram muitas as palestras de hoje. Logo abaixo, um resumo das que mais se destacaram. Confira também a Carta do Amazonas (clique aqui), documento do LIDE, com desafios de destaque a serem enfrentados nos próximos anos.

Nesses três dias de discussão, a ideia que se concretizou de forma mais plena foi a necessidade de aumentarmos o volume de nossa voz como sociedade. Não há mais tempo a perder. Se, há alguns anos, era possível ser passivo diante de temas socioambientais – esperar para ver –, hoje, sem uma atuação conjunta, ousada e ambiciosa ninguém mais vai ver nada.

10 anos. É tudo que temos.

Coração azul do planeta

A serenidade de Sylvia Earle, oceanógrafa e exploradora em residência da National Geographic Society, fez com que sua palestra fosse cativante, mas não menos incisiva. A delicadeza na exposição de como a humanidade tem causado alterações à vida marinha realmente evidencia a personalidade de alguém que passou a própria vida próxima a essa fonte de vida. “Estamos tentando criar uma atmosfera de cuidado para as criaturas do mar. O oceano precisa ser incorporado à mente e ao coração das pessoas.”

Sylvia ganhou também a plateia com sua simplicidade. “Você precisa ter o mesmo amor pelos peixes que tem pelo seu gato. Hoje, eles só são valorizados quando estão mortos.” Pois é, para eles, não é nem um pouco doce morrer no mar. “Estamos destruindo o sistema de suporte à vida.”

Sobre o recente vazamento de petróleo provocado pela empresa Chevron, destacou: “Não é aceitável que acidentes como esses continuem acontecendo. Estamos mudando a natureza da natureza. Estamos muito perto do limite de não termos mais um ponto de retorno.”

E para piorar a situação, não basta explorarmos apenas os recursos não renováveis acessíveis, temos que ir mais fundo: até o pré-sal. “Exploramos fontes de recursos não renováveis de acesso cada vez mais difícil”, enfatizou.

Para colocar o discurso em prática, é necessário precificar o valor da água, além de cuidar dos oceanos, segundo a oceanógrofa. Hoje, apenas 1% deles está protegido de agressões externas. Sylvia instiga: “Se você soubesse que apenas 1% de seu coração estivesse protegido, o que faria?”

Parem Belo Monte!

Se a ativista Bianca Jagger tinha o objetivo de mobilizar ainda mais os participantes do Fórum Mundial a fazerem algo quanto à construção da usina de Belo monte, ela conseguiu. No meio de sua coletiva de imprensa, chamou Philip Martin, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (INPA), e Brent Millikon, diretor da organização International Rivers para falar; indicou dados e pesquisas; e mandou uma mensagem até para a presidente Dilma.

Durante sua palestra, falou sobre a visita às proximidades do Rio Madeira, onde descreveu uma visão de miséria. “Eu não quero perder a esperança”, comentou, um tanto desolada.

Citando como exemplo a Alemanha – país com atuação forte no desenvolvimento de energias renováveis –, disse que o Brasil pode seguir o mesmo exemplo. E, dizer que o custo do investimento nessas fontes limpas é mais alto, para ela, é pura desculpa – levando-se em conta que o anúncio de gastos crescentes na construção de Belo Monte superam cada vez mais as previsões iniciais do projeto. “Mas a notícia ruim não é dada a vocês de uma só vez, o aumento é revelado aos poucos.” E desafiou: “Como vamos justificar a Belo Monte na Rio+20? É um erro que pode ser corrigido. Ainda há tempo para parar, depende de vocês”.

Segundo a ativista, discussões como a de hoje ajudam a ampliar a consciência das pessoas. Mas o impedimento de colocar o discurso em prática está na falta de visão e de cuidado. “Os governos sacrificam pessoas pelo progresso, isso não é desenvolvimento sustentável”, destacou.

A voz da floresta

Almir Suruí poderia ser apenas mais um integrante de uma comunidade indígena, mas não é. Poderia ser apenas mais um líder, mas não é.

Há 20 anos, está à frente do povo Paiter Suruí.

No final dos anos 60, a comunidade localizada em Rondônia foi arrasada pelo contato com culturas diferentes e exploradoras.

Vendo os desafios para uma inserção digna no planeta, Suruí começou a buscar parcerias para integrá-la de forma benéfica aos novos tempos: lutando contra o desmatamento, a desvalorização da cultura e a falta de políticas públicas.

Para tanto, traçou junto a outros membros da comunidade e com apoio de parcerias externas, um plano de gestão para os próximos 50 anos digno de exemplo para qualquer empreendimento de sucesso. O povo Paiter fez um mapeamento biológico e cultural e, a partir de 2006, seu líder começou a mobilizar a opinião pública. “Como líderes, temos que buscar soluções para nosso povo por meio de articulações e assumir compromissos para sua implementação”, pontuou.

Negócios sustentáveis, precificação de serviços e políticas ambientais estão entre os pontos desse plano. E, para alcançá-lo, a comunidade criou um fundo voltado a esses objetivos. Entre as ações desenvolvidas, está a proteção e monitoramento de fauna e flora e manejo sustentável de produtos como café e castanha do Pará. “Não podemos separar nosso conhecimento do resto do mundo. Hoje, o planeta é uma coisa só”, finalizou.

Ate breve!

Depois de três dias no frio do ar-condicionado, amanhã terei a chance de conhecer um pouquinho de Manaus e ver de perto a expressão do próprio meio ambiente, da floresta, da comunidade – expressão essa que chega mais longe, vai além das palavras. O sentimento geral é de que levamos ótimas ideias na cabeça, mas que, necessariamente, precisam ser colocadas em prática. Agora. Espero voltar daqui dez anos – ou antes disso! – com boas notícias na bagagem.

* A repórter Cristina Tavelin viajou a Manaus a convite da organização do evento.

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