Sabe quando sei que falta liderança sustentável numa empresa?

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Por: Ricardo Voltolini

Divido, abaixo, uma lista, revista e sintetizada, de 12 “pérolas” recolhidas ao longo de 18 anos como consultor em sustentabilidade empresarial. Elas respondem à pergunta-título deste artigo. Descontado o tom propositalmente irônico do texto, que tem o objetivo de provocar reflexão sem perder o humor, o que desejo é mesmo confrontar discurso falso com ações concretas e demonstrar a importância de um novo tipo de liderança, mais ética, transparente e responsável, com visão sistêmica e noção de interdependência, que respeita o outro e o meio ambiente e que entrega inovação, resultados e valores.

Sei que falta liderança sustentável numa empresa…

1) Quando o vice-presidente me diz, sem constrangimento, que sustentabilidade é importante, mas as medidas para garanti-la na gestão do negócio podem ficar para o ano que vem, pois a empresa não se encontra preparada para as mudanças necessárias. É certamente o que ele vai dizer no “ano que vem”, porque não quer aceitar as responsabilidades – e os custos – da transição para um modelo mais sustentável de negócio.

2) Quando o presidente diz, sem receio de parecer arrogante, que sustentabilidade está no DNA da empresa e que, portanto, ela não precisa mover uma única palha para ser sustentável. Esta afirmação se baseia na falsa retórica, ao mesmo tempo ingênua e prepotente, de que um tema contemporâneo – como é a sustentabilidade – já venha sendo praticado pela empresa há 50, 80 ou 100 anos.

3) Quando quem deveria tomar a decisão de mudança transfere a responsabilidade a alguém em posição hierárquica inferior, um profissional júnior lotado de tarefas num departamento meramente funcional, sem qualquer poder, que só vê o presidente uma vez ao ano, na festa de encerramento das atividades da empresa. A diferença entre sustentabilidade para valer e sustentabilidade para constar está em quanto o tema se encontra mais próximo de quem toma decisões.

4) Quando o presidente cria um comitê de sustentabilidade e não aparece nem na primeira reunião para deixar claras suas crenças e expectativas. Este tipo de atitude revela dois problemas: (a) sustentabilidade não é um tema suficientemente importante para que eu, líder, invista meu tempo nele; (b) enquanto não tenho tempo para pensar em sustentabilidade, crio uma instância interna para fazer de conta que estamos preocupados com o tema. Uma pena. Comitês de sustentabilidade, quando bem liderados, podem ser extremamente úteis e efetivos.

5) Quando um alto executivo convence o marketing de que está na hora de botar sustentabilidade na imagem, mas se esquece de convencer os colaboradores de que ela deve estar na cultura. Lição aprendida nos últimos anos: primeiro a lição de casa, depois a comunicação. E a comunicação dever ser feita, antes de tudo, para os funcionários, colaboradores e parceiros. Se a empresa não consegue convencer os mais próximos de que se preocupa com a sustentabilidade, como espera persuadir os consumidores e a sociedade?

6) Quando mesmo depois de ser apresentado, com detalhes, ao conceito de diversidade, o presidente continua achando que isso não tem nada a ver com a “lógica” da empresa! Este mesmo dirigente é o que precisa da “cola” de um assessor de imprensa para falar de sustentabilidade em uma entrevista. O mesmo que diz em público que sustentabilidade está na “estratégia do negócio”, e no privado, reclama com os mais próximos que ela representa só custo e desvio de foco.

7) Sei que falta liderança sustentável numa empresa quando pergunto a um diretor se a empresa tem uma política de sustentabilidade integrada à estratégia de negócio e ele diz que sim, mas só fala de projetos pontuais, localizados, periféricos e… completamente descolados da estratégia de negócio na empresa.

8) Quando existe um discurso pródigo sobre inovação em sustentabilidade e, na prática, nenhum ambiente favorável que valorize as contribuições vindas das bordas, isto é, dos colaboradores, fornecedores, clientes e comunidades.

9) Quando sai um presidente e o seu substituto decide pisar no freio das iniciativas de sustentabilidade, colocando no freezer ações que vinham ajudando a criar uma cultura para o tema. Ah, é claro, ao tomar tais medidas, ele se apoia em argumentos velhos conhecidos de guerra, como “reduzir custos”, “resgatar o foco” e “concentrar energia no essencial.” Business as usual total, mas com um verniz verdinho!

10) Quando o principal dirigente diz – entre os mais próximos, claro – que sustentabilidade “custa” e que só vai investir em produtos sustentáveis quando o consumidor estiver disposto a “pagar o preço” ou quando o governo oferecer algum tipo de “incentivo”…

11) Quando o diretor de sustentabilidade apresenta, em público, com orgulho, a política de diversidade da empresa e, no privado (numa impressionante demonstração de falta de coerência entre o pensar e o agir), destila fel e preconceito contra mulheres, negros e homossexuais.

12) Quando a moça da responsabilidade socioambiental me sabatina antes de começar uma reunião com o presidente da empresa para me alertar sobre o que ele “gosta ou não gosta” de ouvir sobre sustentabilidade… e ainda me pede para que eu seja breve. Breve quanto? Não mais que 15 minutos, já ele não tem muita paciência para assuntos que não sejam “do negócio”. Paciência? Haja.

Ricardo Voltolini é diretor-presidente de Ideia Sustentável: Estratégia e Inteligência em Sustentabilidade, palestrante, idealizador da Plataforma Liderança Sustentável e autor de Conversas com Líderes Sustentáveis (Senac-SP) e Escolas de Líderes Sustentáveis (Elsevier).




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