Terra em transe

Terra em transe

O cenário antecipado pelos cientistas em relação às conseqüências das mudanças climáticas começa a se tornar realidade com a maior ocorrência de eventos extremos, colocando em xeque a própria sobrevivência da espécie humana. No entanto, a grande ameaça não diz respeito ao aquecimento global em si, mas à resistência em mudar comportamentos. Esse é o ponto de vista de Josef Reichholf, autor de Breve história da natureza no último milênio, publicado no Brasil pela editora Senac.
Segundo ele, os seres humanos dominaram desafios muito maiores do que as mudanças climáticas. E foram aqueles na história que se recusaram a mudar seus hábitos que mais pereceram, como os Maias da península Iucatã. “Somos os mais globais de todas as espécies vivas. Seria muito reducionista acreditar que as pessoas não sejam capazes de se adaptar a outros climas”, ressalta.
Longe de ser um alento frente às catástrofes já em curso ou um justificativa para a inação, esse ponto de vista, pelo contrário, reforça a urgência de dedicar esforços na educação das populações, munindo-as da infraestrutura e tecnologias necessárias para adaptação às mudanças climáticas. Confira essas e outras ideias a seguir, em entrevista conferida por Josef Reichholf à Ideia Socioambiental.
Ideia Socioambiental: Como a geografia global pode ser afetada pelas mudanças climáticas?
Josef Reichholf: Condições geográficas, como a extensão dos continentes, as cordilheiras, a distância para os mares e as correntes oceânicas, são determinantes na constituição do clima regional. A costa do Peru tem um clima completamente diferente do Brasil, com as mesmas latitudes. A região sul do Amazonas enfrenta a experiência de um clima tropical úmido em nítido contraste com o sertão do leste do país. A Sibéria é bastante fria no inverno e muito quente no verão em latitudes comparáveis às de Paris ou Londres e seu clima ameno vindo do Atlântico. O clima em Roma é Mediterrâneo, mas Munique nunca foi assim, mesmo nos períodos mais quentes do passado, porque o mar Mediterrâneo não mudou sua posição geográfica.
Bastam algumas centenas de quilômetros de distância para o clima ser completamente diferente do esperado pela latitude. Em período de aquecimento global, os padrões se alteram multidirecionalmente, de forma muito complicada, sendo as precipitações e a distribuição sazonal os fatores com maior influência no processo. Não podemos esperar que cada área simplesmente fique mais quente na mesma medida do aquecimento global. Mas certamente as regiões mais frias sofrerão um aquecimento muito mais pesado que as regiões temperadas e tropicais do globo. Novamente, é uma questão de distribuição do aquecimento, se ele ocorre no inverno ou no verão ou se é uniformemente distribuída.
Um aumento da temperatura média no inverno em grande parte da Sibéria para, digamos 10°C, resultaria em mudanças não muito significativas, porque para um lugar onde as geadas de inverno vão de menos 30 a menos 60 graus, um aquecimento de 10 graus pouco altera o estado de congelamento deste inverno. A temperatura média na Europa datada de 1780 mostra nenhum aumento no calor do verão durante o período de aquecimento global (de 1960 até agora) em comparação ao final do século XVIII e o início do século XIX. O crescimento da média anual de temperatura de 0.6 a 0.8ºC vem sendo causado não por verões mais quentes, mas por poucos invernos realmente frios, o que na realidade não causa danos a ninguém nem para a natureza. Nos períodos históricos de aquecimento mais chuva atingiu as regiões tropicais e subtropicais.
Foram os séculos e décadas mais frios em que as pessoas sofriam por falta de culturas, a disseminação de pragas e doenças, bem como desastres naturais ainda mais graves, como inundações e tempestades. Para uma avaliação das mudanças climáticas, devemos saber muito melhor do que hoje qual região é afetada de que maneira. Haverá vencedores e perdedores como sempre houve quando falamos de história, por exemplo, como houve com as pessoas do sertão nos últimos séculos. Segundo cálculos dos modelos climáticos regionais pelo climatologista alemão Christian Schoenwiese (IPCC), o Brasil como um todo experimentou temperaturas um pouco mais baixas na maior parte da Amazônia e de outras partes do ‘interior’ no século XX e nenhum aumento significativo de temperatura.
I.S: Como a capacidade de se adaptar a novas condições climáticas pode influenciar no progresso dos seres humanos?
J.R: Seres humanos foram ensinados a viver com sucesso sob todas as condições climáticas do mundo. Somos os mais globais de todas as espécies vivas. Seria muito reducionista acreditar que as pessoas não sejam capazes de se adaptar a outros climas. Tome como exemplo as colônias alemãs e polonesas que vieram para o Brasil. Eles se saíram mal? Ou os japoneses, italianos e todas as outras nacionalidades não originadas em países tropicais. Pessoas de tantas origens diferentes vivem atualmente no Brasil e o fazem com muito mais facilidade do que nos EUA e na África do Sul, por exemplo, onde as tensões sociais são mais expressivas.
As diferenças no clima global são muito maiores do que as mudanças que possam ocorrer no decurso do século atual. O Brasil é a prova viva da adaptabilidade humana (e, por acaso, o país mais promissor para uma vida pacífica e construtiva dos povos originários de todo o mundo em um mesmo estado). Os seres humanos dominaram desafios muito maiores do que as mudanças climáticas. E foram aqueles na história que se recusaram a mudar seus hábitos que mais pereceram, como os Maias da península Iucatã.
I.S: Como devemos lidar com o crescente número de refugiados ambientais? Como evitar a xenofobia ou a rejeição social?
J.R: Europa e EUA já estão tendo que lidar com isso – há alguns anos – com um grande número de refugiados, mas não que imigraram ilegalmente devido a problemas ambientais. Todos estes refugiados tentaram invadir os países pobres por questões econômicas e políticas. Os refugiados da África são jovens fortes e sem expectativas, a maioria homens, e não os sofredores como os deslocados de Darfur, do Sudão. Os desequilíbrios econômicos e as instabilidades políticas (ditaduras ou regimes militares) são motivos muito mais fortes para a imigração em massa do que as alterações climáticas, o que sempre aconteceu, não só nos nossos tempos. A maior tragédia ambiental provocou a grande imigração Eurásia na primeira metade do primeiro século dos nossos tempos. As possíveis massas de eco refugiados não existiriam se os países pobres pudessem se desenvolver em tempo em um Estado melhor e mais sustentável.
A xenofobia é realmente um grande problema, mas muito maiores são os efeitos das religiões fundamentalistas, que condenam as outras. Guerras religiosas e raciais foram responsáveis por causar as maiores perdas de contingentes humanos em toda a história. Se “os outros” não se comportassem de maneiras agressivamente diferentes, a xenofobia poderia perder sua face perigosa. Na Europa temos de lidar muito mais com este gênero de problemas do que em países mais sociáveis como o Brasil. Se pessoas de outras regiões culturais resistirem a aprender a língua do país onde está, a sociedade se dividirá. Ao lado das inúmeras lições impressionantes que aprendi no Brasil, a que mais me impressionou é que as pessoas se comportam como brasileiros e usam o português (abrasileirado) como seu idioma. No interior do país, fui recebido por senhoras negras em pequenas fazendas tão calorosamente que nunca tive a sensação de ser apenas um homem branco entre elas, como foi o que senti quando estive na África subsaariana. Então, vamos nos comportar como os civilizados brasileiros!
I.S: Será possível evitar a imigração de populações de uma região para outra motivadas pelas mudanças climáticas?
J.R: Gostaria de responder com uma pergunta retórica: Por que devemos evitar isto? Sempre houve migrações de países menores para países grandes, e também entre os mesmos. O mundo nunca foi estável e jamais será. Milhões e milhões de pessoas migraram da zona rural para as grandes cidades, fazendo-as crescer rapidamente como o Rio de Janeiro ou São Paulo. A razão não foi a mudança no clima, mas a atração pelo estilo de vida citadino e suas possibilidades. Poucas nações de fato experimentaram nada ou baixo grau de imigração na história. Por outro lado, pequenos grupos de pessoas criaram novas formas de civilização e avanços em termos de humanidade no passado. Não deveríamos temer as mudanças, mas tentar tirar o melhor da situação. Novamente, as condições políticas locais e regionais são muito mais importantes que a mudança na média das temperaturas. Diversas regiões tiveram de lidar com secas regulares ou irregulares, ou inundações extensas no passado. Por que os povos modernos seriam menos capazes de lidar com grandes desafios? Para as populações europeias de meia idade que não possuem muitos jovens para perpetuar seu futuro, uma resistência à mudança pode ser compreensível. Mas muitas nações são jovem o suficiente para lidar com um futuro em transformação.
I.S: Como estas tendências podem afetar nossas políticas e instituições?
J.R: Não existe uma resposta exata para essa questão por conta da grande diferença entre as políticas institucionais, crenças religiosas e a abertura de pensamento das nações. Os Estados, que já são flexíveis o suficiente, terão menos problemas institucionais de adaptação do que aqueles que preferirem olhar para trás ao invés de assumir o desafio da mudança da maneira apropriada. Nações com populações jovens no caminho de um futuro melhor como o Brasil mostrarão, como lidar com mudanças inevitáveis. Na Europa, em particular na Alemanha, meu país, preferimos parar a terra, e para isso investimos incríveis quantidades de dinheiro na mera ficção estatística do clima que significa não mais do que as médias de tempo ao longo de mais ou menos longos períodos de tempo. Certamente estaríamos promovendo mais benefícios ao mundo tentando melhorar as condições de vida dos mais pobres e oferecendo um comércio mais justo do que tentar curar os males do clima.
I.S: Em seu livro Breve história da natureza no último milênio, você afirma que a maior ameaça para nossa sobrevivência não é o aquecimento global, mas a resistência da sociedade em mudar seu comportamento. Por quê?
J.R: Bem, uma atitude dirigida contra (toda) mudança significa explicitamente que vamos fazer o mesmo que temos feito (sempre), preferindo nosso atual estado de vida a qualquer alteração do mesmo. Isto é claramente autodestrutivo. Mudanças são inevitáveis, seja relacionadas ao clima, ou em qualquer outro aspecto da vida. O mundo não pára de se transformar. Em nenhum momento da história um determinado estado do mundo durou um significativo período de tempo, nem mesmo na história mais breve dos homens ou nos longos períodos da história da terra e suas evoluções. Não nos damos conta, facilmente, de muitas das mudanças, que de fato ocorrem, porque as coisas em geral mudam para melhor. Nações que experimentaram um crescimento rápido como o Brasil dificilmente podem comparar seu estado atual com os anos 1970.
Não há nenhuma razão para acreditar que o mundo estava em seu melhor estado em qualquer momento da história e que agora não deve mudar mais adiante. Mudar é normal na natureza; sem mudanças não haveria evolução nem civilização. E são sempre as porções mais velhas da sociedade a argumentar contra as mudanças. Mas o tempo passa, e amanhã será diferente de hoje.
J.R: Quais são as estratégias e ferramentas com maior potencial para construir uma sociedade e economia de baixo carbono?
A palavra mágica é ‘renovável’, mas uma abordagem mais econômica preferiria a frase ‘(super) abundante’. Recursos escassos são facilmente utilizados. A energia fóssil não é mais um recurso abundante e se torna cada vez mais cara. A melhor fonte de energia é o sol. Mas a conversão de energia solar em energia viável ainda não é o suficiente, especialmente no que diz respeito aos problemas de transporte à distância. Devemos aceitar o fato de que a terra recebe diferentes quantidades de energia solar dependendo da posição geográfica. Em altas latitudes, um sistema de abastecimento baseado em energia solar simplesmente não funcionaria diante do atual estado da tecnologia. Problemas deste gênero começam a aparecer quando grandes quantidades devem ser transportadas a longas distâncias. Motores a combustão funcionam muito melhor do que qualquer outra opção. Motores podem ser alimentados por biodiesel ou álcool, que são originados por recursos renováveis, mas causam a poluição do ar. Eles precisam de grandes extensões de terra para a produção de biomassa. A mobilidade inevitavelmente custa caro.
Por outro lado, um mundo com menos mobilidade cedo ou tarde geraria um mundo com maiores distâncias, regiões separadas e menos cooperação. A América do Sul deve se tornar um continente praticamente fechado a fim de evitar a distribuição de longa distância de obras e bens? A Europa deveria bloquear fronteiras? A China também? E o que será do futuro com a poluição do ar, o desperdício e a contaminação dos oceanos em larga escala? Acho que não temos alternativa real à globalização. Isso significa que cada região ou nação deve fazer o máximo para concertar as coisas, e não fazer tudo a todo custo. É melhor ter alumínio e aço produzido no Brasil do que transportar a matéria-prima da bauxita e o minério de ferro para a Europa, onde possuímos poucas reservas. Minha esposa e eu preferimos a carne das pastagens naturais (pampas) do Brasil, Uruguai e Argentina do que a carne que é produzida em nossos estábulos com o gênero alimentício da América do Sul. Nosso gado alimenta-se de florestas tropicais na América do Sul que são destruídas, a fim de cultivar soja para o gado da Europa, mas o seu gado vive nas pastagens mais adequadas para a produção de carne de animais de pasto do que nossos estábulos.
A emissão de dióxido de carbono poderia ser reduzida eficientemente se cada região a produzisse de acordo com o que é melhor para sua natureza. Este princípio daria automaticamente início à criação  de um comércio justo global. Precisamos que estes problemas sejam resolvidos logo e da melhor maneira possível. Então poderíamos entrar de cabeça com tudo no futuro.
Leia mais sobre o assunto:
A nova geografia do clima

Dica de Livro – Breve História da Natureza no Último Milênio

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