Revolução industrial de baixo carbono

Revolução industrial de baixo carbono

“Devemos pensar estratégias eficientes no combate ao aquecimento e à pobreza. Se falharmos em um desses desafios, automaticamente fracassaremos no outro.” Assim Nicholas Stern iniciou sua apresentação no Fórum de Varejo 2010, organizado em São Paulo, pelo Walmart Brasil.
Para o ex-presidente do Banco Mundial, a percepção de que esses dois objetivos concorrem entre si precisa ser superada para dar lugar à inovação e ao desenvolvimento de baixo carbono, iniciando uma quinta revolução industrial.
Segundo Stern, há entre 40% a 50% de chance de a temperatura aumentar 5ºC, o que resultará em mais desertos, inundações e bilhões de deslocamentos populacionais, gerando um conflito global prolongado e grave. “Trata-se de algo completamente novo. Uma situação desse tipo não é verificada no Planeta há 30 milhões de anos. Somos a primeira geração que, por negligência, pode destruir a relação entre os seres humanos e o sistema”, ressalta.
Reverter esse quadro, alerta, exige que o aumento da temperatura não ultrapasse os 2ºC. Para tanto será necessário reduzir os atuais 47 bilhões de toneladas de CO2 para menos de 37 bilhões, em 2020, e mantê-las abaixo de 20 bilhões, em 2050. Isso significa que a média atual de sete toneladas de emissões de CO2 por pessoa ao ano no mundo deverá ser reduzida para quatro, em 2020, e a duas toneladas, em 2050. Para se ter uma ideia do tamanho desse desafio, nos Estados Unidos, Austrália e Canadá essa média supera 15 toneladas por pessoa.
Segundo o economista inglês, está claro o que precisa ser feito para aliar mitigação e adaptação às mudanças climáticas com promoção do desenvolvimento. Tecnologias para direcionar a economia nessa direção também já estão disponíveis, o que falta é vontade política. “As revoluções industriais anteriores foram desencadeadas a partir de surtos de investimento. O mesmo precisa ocorrer agora a partir de políticas de incentivo para eliminar o carbono de boa parte da economia mundial. Essa guinada para o desenvolvimento de baixo carbono demandaria de 2% a 3% do PIB ao ano”, reforça Stern.
Ele ressalta, ainda, que, diferentemente dos ciclos anteriores, a revolução industrial de baixo carbono não se caracteriza por uma única tecnologia ou setor econômico. “Há muitas formas de desencadear essa transição. Por isso, não devemos pensar em uma bola de prata, mas sim valorizar a diversidade, somando possibilidades para promover essa revolução no modelo produtivo”, afirma.
De acordo com ele, as empresas desempenham um papel importante para desencadear a mudança. “Os governos têm uma visão míope e não entendem, por exemplo, a relação entre políticas públicas e inovação. Isso porque trabalham no horizonte de quatro, cinco anos, enquanto que os negócios planejam uma perspectiva de 15 anos ou mais. E, por estar mais acostumado a mudanças radicais, o setor privado pode ajudar a gerar vontade política”, afirma.
Assim como incentivar as tecnologias e inovações sustentáveis, também será preciso estabelecer mecanismos eficientes para internalizar os custos das emissões. Dentro dessa lógica, deve haver políticas de estímulo à mudança de comportamento, sendo a informação um elemento fundamental nesse processo. “Os consumidores, de maneira geral, estão demandando mais informação e de melhor qualidade e não estão sendo devidamente correspondidos nas suas expectativas. Devemos pensar políticas que estimulem as empresas a informar seus públicos de forma mais clara”, destaca.
Raio X
Nicholas Stern:
Economista e acadêmico inglês
Conselheiro do governo britânico para assuntos de mudanças climáticas
Professor de economia da London School of Economics (LSE)
Vice-presidente sênior e economista-chefe do Banco Mundial de 2000 a 2003
Autor do Relatório Stern
Você sabia?
Em 2006, o mundo conheceu os impactos do aquecimento global na economia com o Relatório Stern. Divisor de águas na discussão em torno das mudanças climáticas, o estudo mostrou que a inação diante do aquecimento global pode levar à perda de até 20% do PIB mundial, enquanto as medidas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa demandariam apenas 1% das receitas globais. A constatação contribuiu para aproximar o debate das mudanças climáticas à estratégia de negócios.

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