Educação para sustentabilidade

Educação para sustentabilidade

A revolução silenciosa do Natural Step
Até o final da década de 80, o cancerologista Karl-Henrik Robert acompanhava à distância as discussões sobre sustentabilidade. Mas percebia que, assim como na comunidade médica, havia uma fragmentação do conhecimento relacionado às questões socioambientais. A especificidade com que o tema vinha sendo tratado dava margem a radicalismos. A comunidade científica de um lado, ativistas de outro, empresas acuadas e pouca mudança efetiva na tomada de decisão. Esse era o estado da arte na discussão da sustentabilidade.
Foi assim que o médico se deu conta de que o primeiro passo na transição para uma sociedade sustentável seria o estabelecimento de consensos. “O mundo não quer mais gurus. Acho mesmo que deveríamos temê-los. Hoje, para realizar as mudanças necessárias, precisamos de cooperação e da participação de todos, seja ao assumir responsabilidade, seja ao compartilhar o poder. Nesse sentido, precisamos que cada um encontre o guru dentro de si”, argumenta Henrik no livro de sua autoria “The Natural Step”.

As primeiras impressões de Henrik sobre sustentabilidade surgiram a partir das lentes de seu microscópio. A similaridade entre as células humanas e as dos demais seres vivos, a correlação entre a evolução de células cancerígenas e as adversidades resultantes do desenfreado crescimento econômico foram algumas de suas constatações.
A partir do contato com familiares e pacientes, observava também a força que emanava das pessoas na luta pela vida de entes queridos. Questionava-se por que os indivíduos não conseguiam manifestar esses esforços coletivamente na transição para uma sociedade sustentável.
Entre uma e outra reflexão, Henrik teve uma ideia, que em um primeiro momento, mais lhe pareceu um devaneio: elaborar uma declaração de consenso – de qualidade e lógica irrefutáveis – que explicasse a integração entre a biosfera e a sociedade. Esse documento deveria ser enviado a todos os lares e escolas suecas, iniciando um processo de aprendizagem contínuo que contribuiria para a mudança cultural.
A mensagem deveria ser facilmente compreendida e relevante para a tomada de decisão. Em 1988, Henrik escreveu um manifesto cujo ponto de partida era a célula, seu campo de pesquisa. “As células que constituem os seres vivos são incapazes de opiniões. Só se preocupam com as condições fundamentais à vida. Ainda assim, determinam o nosso potencial para a saúde e bem-estar. Portanto, depende de nós inventarmos um sistema que respeite as condições delas.” O médico acreditava que esse argumento consistia em um ponto de partida para a perspectiva sistêmica, que a sociedade precisava desenvolver, e na saída para impasses e conflitos de interesses.
Com o lançamento do manifesto em 1989, Henrik mobilizou os setores públicos e privados, dando origem a um processo de diálogo, cujo primeiro resultado foi a concretização de sua ‘ideia-devaneio’: a distribuição de kits com um livreto e uma fita cassete contendo o manifesto para todos os lares e escolas suecos. Era apenas o primeiro passo de um processo de mudança que impactou significativamente a sociedade sueca e gerou a metodologia do The Natural Step, utilizada internacionalmente nos processos de tomada de decisões.
Contribuições para o planejamento estratégico

The Natural Step se constituiu como uma organização não governamental voltada à educação para uma sociedade sustentável. Com representação em nove países, o TNS oferece consultoria e cursos sobre a metodologia desenvolvida.
A grande contribuição da organização para a sustentabilidade diz respeito à definição de quatro condições sistêmicas à manutenção da vida na Terra, junto a uma metodologia ampla sobre como aplicá-las estrategicamente. (Veja quadro ao lado).
Desde 2004, o TNS oferece um programa de mestrado desenvolvido em parceria com o Blekinge Institute of Technology. Baseado em métodos de aprendizagem experenciais e holísticos, tem como foco o desenvolvimento de estratégias para tomada de decisão e lideranças para a sustentabilidade.
Nas palavras do próprio Hendrik, o objetivo da TNS é apresentar os subsídios para o “planejamento concreto que acontece na segunda-feira de manhã nas organizações”.  Ao invés do tradicional forecasting, que estuda o passado para identificar tendências, o programa trabalha com o backcasting, propondo a definição do futuro desejado e, então, das estratégias de ação para atingi-lo.
Segundo o brasileiro Augusto Cuginotti, engenheiro mecânico que concluiu o mestrado do The Natural Step no ano passado, a clareza e praticidade no processo de tomada de decisão é o grande diferencial da metodologia utilizada no programa.  Além disso, a projeção de futuros por backcasting ganha o respaldo das quatro condições de sustentabilidade. “Funciona como um farol. Com essa referência, é possível olhar à frente e saber onde se deseja chegar, no lugar de apenas reagir aos acontecimentos. Dentro desse escopo, existem várias possibilidades, todas elas sustentáveis, pois foram planejadas de acordo com as quatro condições da sustentabilidade”, explica Cuginotti.
Segundo o engenheiro, outro aspecto que norteia o processo de formação no mestrado de sustentabilidade do The Natural Step é a autonomia. “O programa insiste em oferecer as técnicas e saberes científicos para dar autonomia às pessoas na tomada de decisão. Do contrário, se estabelece uma liderança ditatorial e as pessoas são conduzidas, mas não sabem muito bem para onde vão. O processo de mudança fica dependente do controle de um líder e não se sustenta”, ressalta.

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