Gôndolas repletas de produtos a sua escolha – a incrível “liberdade” da sociedade de consumo desfila todos os dias diante de nossos olhos. Porém, depois do uso, quem deve arcar com o descarte de bens e embalagens no final das contas? Todos os elos da cadeia produtiva, além do consumidor final. Para abordar os desafios de governos, empresas e consumidores nesse processo, o evento Diálogos: Política Nacional de Resíduos Sólidos, realizado pela Envolverde, Tetra Pak e associação Compromisso Empresarial com a Reciclagem (Cempre) , reuniu representantes de diversos setores na última quarta-feira (13/04), em São Paulo.
Aprovada em agosto de 2010, após a discussão entre mais de dez ministérios e setores produtivos, a política voltada ao descarte sustentável reúne princípios, objetos, instrumentos, diretrizes, metas e ações que servem de modelo para outros países – e o conceito de responsabilidade compartilhada representa um avanço significativo na discussão multistakeholder. “Nesse momento saímos da fase de ‘inspiração’ para a fase de ‘transpiração’, de fazer acontecer”, destacou o presidente da Tetra Pak, Paulo Nigro, sobre o avanço da instituição da política no Brasil. Porém, para sair do papel, efetivamente, muitas ações deverão ser endereçadas nos próximos anos para que o gasto de 8 bilhões por ano no País pelo descarte de materiais de forma insustentável seja sanado.
Segundo Samyra Crespo, secretária de Articulação Institucional e Cidadania Ambiental, o governo deverá investir em mecanismos financeiros para apoiar negócios relacionados à reciclagem e no diálogo com os diversos setores para o estabelecimento de acordos. Às empresas cabe o papel de repensar seus modelos de negócios para torná-los mais sustentáveis. “Redesenhar as embalagens para que elas causem menos impacto, atuar na responsabilidade do pós consumo, incluir um melhor serviço ao consumidor que ofereça esclarecimento sobre o ciclo do produto e de cada embalagem são ações que vão auxiliar na implementação efetiva da Política Nacional”.
O grupo Pão de Açúcar, por exemplo, tem sido bem sucedido com suas Estações de Reciclagem – desenvolvidas em parceria com a Unilever – que recebem resíduos como papelão, metal, vidro, plásticos e óleo de cozinha usado, posteriormente doados para Cooperativas de Catadores. Uma das marcas do grupo – a TAEQ – utiliza esses materiais em suas embalagens, num bom exemplo de ciclo de vida fechado, apesar de o investimento ainda não se manter por si mesmo.
Apontado como elo mais fraco da cadeia devido à pouca informação que possui e à falta de hábito para separar resíduos, o consumidor ficou na berlinda nesse debate. Segundo Samyra, pesquisas indicam que mesmo os consumidores com maior nível de escolaridade não conseguem separar o lixo em quatro tipos diferentes (vidros, papéis, plásticos e metais) – muitas vezes pelas especificidades de cada embalagem, por exemplo. Por isso, foi decidido trabalhar com a informação de que se deve separar apenas o lixo seco do úmido para envia-lo a reciclagem – algo que se mostra muito confuso porque em diversos locais, como shopping centers, ainda se mantém as quatro divisões, como apontou Lisa Gunn, consultora de meio ambiente do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC).
A representante também destacou que deve-se ter cuidado ao apontar o ator “mais responsável” nesse ciclo, pois a política só poderá funcionar de forma compartilhada e com base em uma estrutura eficiente. “O dito ‘poder do consumidor’ não existe se outros atores, principalmente as empresas – e especialmente o varejo – não o ajudarem a assumir essa responsabilidade. Além disso, o indivíduo muitas vezes tem a consciência, a disposição de fazer a coleta seletiva, mas não tem alternativa”, avalia.
A importância dos catadores nesse processo também foi destacada no debate. Atualmente, cerca de um milhão de pessoas trabalham separando os diferentes tipos de resíduos e um dos desafios é a formalização desse serviço que, por vezes, é visto erroneamente sob um olhar de assistencialismo. “O catador é um empreendedor. Podemos identificar esses empreendedores onde menos se espera”, destacou André Vilhena, diretor do Cempre.








