Mohan Munasinghe: uma visão “sustentanômica” do desenvolvimento

Mohan Munasinghe: uma visão “sustentanômica” do desenvolvimento

Idéia Socioambiental nº11 – Uma visão “sustentanômica” do desenvolvimento
Em comum com Al Gore, o glamouroso ex-quase presidente dos EUA, hoje o principal porta-voz global das mudanças climáticas, o cingalês Mohan Munasinghe tem o Prêmio Nobel da Paz de 2007 e o desejo de que os países construam um acordo multilateral para solução do problema. Pouca coisa além disso. Cientista, tímido, praticante de meditação e avesso aos holofotes, o vice-presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da Organização das Nações Unidas (ONU), mostrou em sua recente visita ao Brasil (no final de novembro de 2007, em Florianópolis, para participar de evento internacional sobre energia renovável) que ainda está se adaptando à notoriedade obtida após o Nobel.
Autor de 85 livros sobre mudanças climáticas, energia e desenvolvimento sustentável, Munasinghe, nascido no Sri Lanka, foi gerente sênior na área do desenvolvimento sustentável do Banco Mundial até 2002. Hoje dá aulas na Universidade de Yale (EUA) e na Universidade das Nações Unidas (Tóquio, Japão). E se define como um “pregador” do tema. A seguir, alguns dos trechos principais de entrevista concedida á Idéia Socioambiental.
IS: Qual o principal desafio do desenvolvimento sustentável?
MM: É conjugar diferentes soluções para grandes problemas da humanidade, como pobreza, fome, saúde, meio ambiente e clima, com mudanças importantes, nos comportamentos, atitudes e na cultura em geral. O atual modelo de desenvolvimento precisa urgentemente ser revisto. Tanto o de produção quanto o de consumo. 80% da energia gerada no mundo decorre da queima de combustíveis fósseis. E embora não seja possível abrir mão hoje desta matriz, é fundamental ampliar o uso de energias renováveis. Todos nós devemos também questionar nossas necessidades de consumo. Por que precisamos de três ou quatro carros quando um já é suficiente? Cada pequeno gesto, atitude ou escolha cotidianos podem fazer a diferença.
IS: Há uma fórmula mais indicada para solucionar o problema do aquecimento global?
MM: No mundo há mais de seis bilhões de pessoas e todas serão afetadas pelas mudanças climáticas. Os diferentes países, com seus diferentes interesses, precisarão chegar a um acordo multilateral que promova a solução esperada. Há uma responsabilidades de todos para trabalhar juntos na mesma direção. Mas cada país deve encontrar o seu jeito próprio, autônomo e independente, de atuar. Ninguém pode dizer a ninguém que tipo de matriz energética utilizar. O problema foi gerado pelos países ricos. E eles têm maior responsabilidade ambiental já que os impactos serão sentidos, de forma mais cruel, por quem mora nos países pobres e em desenvolvimento. Protegê-los é fundamental. O desafio é achar o melhor caminho para conciliar desenvolvimento econômico com respeito ao meio ambiente. O Protocolo de Kyoto tem 10 anos e sua meta era baixar as emissões em 25%. De 1975 para cá elas aumentaram 70%. Nos próximos 30 anos, prevê-se que cresçam entre 50% e 100%.
IS: O que esperar dos líderes mundiais?
MM: Os líderes tratam isoladamente problemas como pobreza, poluição e fome. Tentam solucioná-los de modo pontual. Isso não tem funcionado porque estamos utilizando os mesmos meios, hoje inadequados, para finalidades situadas em contextos muito mais complexos. Defendo uma abordagem à qual dou o nome de “sustentanômica”, baseada na idéia de que o desenvolvimento econômico deve ser visto a partir de uma óptica sustentável. Todos os países devem ter direito a um desenvolvimento sustentável, respeitando as suas questões de justiça e igualdade. Não podemos ignorar o mercado. Mas vale lembrar sempre que o mercado é cego.
IS: Depois do relatório do IPCC há quem duvide ainda que a ação humana produziu o aquecimento global?
MM: Pouca gente na comunidade científica duvida disso. Como há outros fatores envolvidos nas mudanças climáticas –o aquecimento natural da terra por causa da posição do sol ou das erupções vulcânicas — restava saber o quanto de um e de outro impactava o problema. Com a ajuda de modelos de análise mais sofisticados, podemos distinguir os fatores. Os homens respondem por algo em torno de 35% do aumento do gás carbônico na atmosfera. O nível normal é de 270 partículas por milhão de toneladas. E a temperatura média da Terra deveria ser de 14º C. No entanto, desde o início da revolução industrial, o homem ampliou o nível para 385 ppm. E a temperatura média saltou 0,6º C.
IS: O que esperar do acordo pós-Kioto? O senhor vê alguma solução multilateral no curto prazo?
MM: Penso sinceramente que a solução chegará mais tarde do que deveria. Por causa dos muitos interesses que precisam ser conciliados. Temo, no entanto, que, como em outros momentos da história, diante de possíveis crises anunciadas, as medidas necessárias sejam adotadas apenas quando houver uma catástrofe. Pode ser uma catástrofe ambiental. Ou econômica, dessas que acabam punindo os mais pobres, com aumento dos preços decorrentes da escassez de matrizes energéticas ou de recursos naturais. Elas podem vir juntas. O mais grave das mudanças climáticas é que potencialmente elas pioram os outros problemas da humanidade.
IS: O Prêmio Nobel da Paz trouxe benefícios concretos para o IPCC?
MM: O IPCC se beneficiou sim de três maneiras. O Prêmio aumentou o seu reconhecimento. Fortaleceu a sua credibilidade. E por conta disso, ele passou a ter maior influência para convencer políticos de alguns países que ainda acham fantasiosa e exagerada a idéia do aquecimento global.

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