Mão-de-obra para uma economia sustentável

Mão-de-obra para uma economia sustentável

Engenheiro geo-ambiental, diretor de negócios verdes, consultor de eficiência energética, analista sênior de política de biomassa. Uma rápida busca em sites de recrutadoras internacionais mostra que os chamados empregos verdes, até então apontados como profissões do futuro, já representam uma demanda real do mercado. Mas apesar de apresentar boas possibilidades de carreira e remuneração, ainda há uma grande carência de profissionais capacitados para atuar no campo das tecnologias sustentáveis.
Nos Estados Unidos, a procura por esses perfis cresceu devido a expansão de setores como o de energia renováveis, motivada pelos pacotes econômicos de combate a crise econômica, que incluem incentivos a projetos de desenvolvimento sustentável. No entanto, os recrutadores alertam que pode não haver profissionais em número suficiente para preencher essas novas vagas.
Matéria publicada na edição de fevereiro-março, da revista Ethical Corporation, reforça que além de estimular a criação de empregos no setor verde, a administração de Obama deverá repensar os programas educacionais para preparar a força de trabalho para conduzir sua economia a um modelo de desenvolvimento de baixo carbono.
Em entrevista a revista, Sam Newell recrutador da Renewable energy jobs reforça que a maioria das vagas na indústria de energia alternativa é altamente técnica e baseada em disciplinas de engenharia ou científicas, áreas que apresentam baixa oferta de profissionais.
Ainda segundo a publicação inglesa, em 2005, a Duke University publicou dados mostrando que cerca de 70.000 estudantes de engenharia se graduam anualmente nos Estados Unidos, enquanto essa média na China chega a 351.537.
Brasil não foge a regra
A expansão dos empregos no setor verde também é uma tendência verificada no Brasil. Segundo o relatório “Carreiras do futuro”, elaborado pelo Programa de estudos do Futuro da Fundação Instituto de Administração (FIA), a ênfase crescente na inovação, a busca por qualidade de vida e a preocupação com o meio ambiente moldarão o trabalho do futuro.
Entre as carreiras identificadas como mais promissoras nos próximos anos, o levantamento destaca a posição de gerente de eco-relações, indicada por 72% dos entrevistados. Caberá a esse profissional comunicar e trabalhar com consumidores, grupos ambientais e agências governamentais para desenvolver e maximizar programas ecológicos.
“O conceito da sustentabilidade vai ganhar força a partir de uma atuação mais concreta das empresas, que demandará pessoas atuando para conseguir menor impacto ambiental na produção e descarte, assim como a redução de poluentes no processo produtivo”, afirma Renata Spers, professora do Programa de Estudos do Futuro da FIA.
Essas tendências não implicam somente a criação de novas profissões ou derivação das já existentes, mas sim no desenvolvimento de novas competências por todos os profissionais.
“Além das habilidades técnicas, o profissional deverá apresentar competências mais abrangentes. Já não basta conhecer questões ligadas ao meio ambiente, ele deve ter formação em comunicação, conhecer a lei e regulamentação, assim como fazer a interface entre a empresa e os consumidores, grupos ambientais, agências governamentais, sabendo transitar entre todas as partes interessadas”, ressalta Renata.
Desafios educacionais
A formação de profissionais para a sustentabilidade requer a reestruturação das estruturas e metodologias educacionais, até então organizadas de maneira fragmentada. Ainda assim, as instituições de ensino sozinhas não serão capazes de formar a força de trabalho para uma economia de baixo carbono.
“Para formação de um profissional completo na graduação seria necessário  no mínimo 10 anos. Por outro lado empresas precisam dessa mão-de-obra já. Sendo assim, é importante estimular a formação continuada, cursos de pós-graduação, cursos in company, seminários e discussões para disseminar o conhecimento na área de sustentabilidade”, destaca Renata.
Dentro dessa proposta, o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Econômico e Social (IBDES) promoverá o Fórum Mundial de Profissões em maio de 2010, que discutirá o papel dos profissionais na questão da sustentabilidade e o impacto de suas atuações no cotidiano das populações no mundo.
O tema será debatido junto a conselhos profissionais federais e regionais de todo o Brasil, representantes do governo, de instituições de ensino e da sociedade civil.
Heitor Kuser, presidente do IBDES, também reforça a importância de identificar e discutir as tendências referentes ao perfil profissional que será demandado pela sociedade, uma vez que as instituições de ensino levam tempo para se adaptar a elas. “O País vem pensando e trabalhando a questão da sustentabilidade há muito tempo e diversos são os cursos que podem atender a essas demandas. O detalhe é que a formação acadêmica precisa de mais tempo para conquistar adeptos, lançar cursos, convencer estudantes a ingressarem no vestibular, preparar professores, como também há o tempo do curso naturalmente”, afirma.
Fuga de cérebros
A carência de profissionais com competências na área de sustentabilidade se agrava ainda mais no Brasil devido a imigração de mão-de-obra especializada para exterior.
Segundo estudo “Desemprego estrutural no Brasil e anomalia da fuga de cérebros”, do economista Marcio Pochmann, entre 140 mil e 160 mil brasileiros com curso superior, completo ou incompleto, emigraram a cada ano nesta primeira metade da última década para trabalhar ou estudar.
Segundo o Banco Mundial (Bird), os países mais pobres são os que perdem mais mão-de-obra. De 25% a 50% dos cidadãos com diploma de nível superior de nações como Gana, Moçambique e Quênia vivem em algum país da OCDE, instituição que congrega os países desenvolvidos europeus, os EUA, o Japão e alguns emergentes. No caso de Haiti e Jamaica, a proporção de universitários que emigraram passa de 80%.
Ao lado de Índia, China e Indonésia, o Brasil ainda apresenta um número relativamente baixo — de 5%. Mas não existem indicações sobre o perfil desses brasileiros, de quantos são doutores atuando no exterior.

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