Investimento Social Privado em foco II

Investimento Social Privado em foco II

Na segunda entrevista da série sobre Investimento Social Privado, Ideia Socioambiental ouviu o diretor executivo do Grupo de Instituições, Fundações e Empresas (GIFE) Fernando Rossetti, destacando as principais tendências para o setor no Brasil e no mundo.
Rossetti conta como a cultura do ISP ganhou força no Brasil, unindo as questões da responsabilidade social à necessidade da criação de estratégias para aplicação de aportes nessa área, e destaca o papel das fundações como unidades de inteligência social das empresas.
Confira abaixo a íntegra da entrevista:
Ideia Socioambiental: Existe um ambiente favorável para o ISP no Brasil?
Fernando Rossetti: Existem quatro tipos básicos de investimento social: empresarial, familiar, comunitário e independente. Em termos de ambiente legal no Brasil, existe mais incentivo fiscal ao investimento corporativo que declaram pelo lucro real. Além disso, está começando a surgir pelo próprio momento do capitalismo brasileiro, algumas famílias criando as suas fundações, que é um movimento que nunca foi muito forte, já que o ambiente legal para as fundações familiares não é favorável, seja atuando em filantropia ou investimento social. E a área de fundos patrimoniais, que seria o modelo mais sustentável de investimento social, que é o modelo da maioria dos países desenvolvidos, no Brasil também é uma área que sofre com questões legais.
Temos uma legislação que favorece a filantropia e o investimento social corporativo, e desfavorece os outros tipos de ISP. Além disso, dentro de um contexto de globalização da economia do país, o Brasil passou a assumir um papel global muito importante, o que fez crescer a pressão para que empresas sejam sustentáveis, o que costumo chamar de a união entre responsabilidade social e investimento social. As empresas têm hoje uma demanda do capitalismo global para que tenham programas sociais, ambientais, culturais. Então, une-se a demanda global pela sustentabilidade, mais uma legislação favorável com incentivos fiscais na área ambiental, de cultura, de esporte, por exemplo. Dessa forma, para as empresas existe sim um ambiente favorável no Brasil para o ISP.
IS: Quais as áreas que mais recebem aporte na área de ISP?

FR: Educação, formação para trabalho e cultura.


* Dados retirados do Censo GIFE 2005/2006
IS: Índices apresentados pelos países BRIC são comparáveis aos de um país de alto grau de desenvolvimento econômico. Existe uma relação entre desenvolvimento de um país e o crescimento do investimento social privado?
FR: A essência do ISP é a riqueza. Se um país é pobre e tem empresas fracas, ele não tem acúmulo de riqueza que permite a aplicação de ISP. O enriquecimento do país, das empresas, das pessoas, leva ao ISP. O desenvolvimento econômico leva ao ISP.
IS: E qual é a parcela de atuação das empresas no sentido de agregar uma nova mentalidade pelo desenvolvimento sustentável em suas estratégias de ISP?
FR: Sustentabilidade é o conceito mais atual do momento, o que mais se comenta. A questão central da sustentabilidade para as empresas é que não dá mais para serem movidas apenas pela geração de lucro, que sempre foi o motor do capitalismo. Agora, em uma cidade como São Paulo, a cidade mais rica da América do Sul, que riqueza é esta que gera dois rios mortos? Um ar intragável? 4 milhões de pessoas vivendo em situações precárias na Grande São Paulo? É uma riqueza insustentável, de violência em termos ambientais e sociais. Nesse sentido, sustentabilidade significa gerar riqueza, mas também gerar sustentabilidade social e ambiental. É uma mudança muito grande na maneira de se fazer negócios.
O grande problema do retorno é que nas empresas é medido trimestralmente, e o investimento em educação, por exemplo, se mede em gerações.  Então, o que se faz hoje para ajudar hoje em educação, tem efeito em 20 anos. Por isso a importância de movimentos como o Todos pela Educação, liderado pelo empresariado, que estabelecem metas no longo prazo.  E para lidar com as questões ambientais e sociais no Brasil, as empresas vão ter que começar a olhar no longo prazo também, avaliando como suas atividades estão contribuindo para a formação de um mundo melhor ou pior para as próximas gerações.
IS: Quais a principais tendências para o ISP no Brasil?
FR: Tomando como base os últimos 10 anos do setor, uma das tendências que vislumbramos é a a fusão entre responsabilidade social e o ISP nas empresas, dentro do guarda-chuva da sustentabilidade. Antes, a responsabilidade social era pensada dentro da empresa e o investimento social era tocado pelos institutos e fundações. Agora, a empresa precisa ter GRI [relatório de sustentabilidade produzido segundo os princípios da Global Reporting Initiative], precisa pensar em como lidar com as comunidades no entorno da empresa. Outra tendência é as fundações e instituições atuarem como unidades de inteligência social das empresas por reunirem um know-how que as empresas não têm tradicionalmente, que é a questão da responsabilidade social. Então, a companhia chama o núcleo das fundações para ajudar a gerir os negócios.
A terceira tendência é que o investimento social se torna um elemento de diferenciação da marca, que serve para agregar esse valor intangível da ação social na sua marca. Na medida em que mais empresas se tornam sustentáveis, passa a surgir uma segmentação do investimento social privado, que gera uma quarta tendência. Assim, todas as empresas passam a ser sustentáveis, não se diferencia o valor social de uma empresa para outra. Cada empresa passa a atuar com suas próprias linhas de projetos social, culturais ou ambientais, que começa a procurar um nicho específico de atuação para se diferenciar das outras marcas.
Um exemplo disso é o que detectamos em um senso realizado em 2006, em que o Gife identificou que a grande maioria dos investimentos feitos em educação são voltados para o ensino fundamental. Como elemento de diferenciação, o Unibanco focou seu aporte em educação para os jovens do ensino médio, e hoje é um dos principais atores na área de ensino médio a partir de corporações. O que se espera também é um crescimento no número de fundações familiares.
IS: E em relação ao aspecto ambiental?
FR: No sentido ambiental, temos exemplos bastante distintos. O Boticário, por exemplo, tem uma aproximação da sustentabilidade por exemplo, muito diferente da Natura. Os dois trabalham com a questão do meio ambiente, mas em linhas específicas de atuação. Outra tendência importante para destacar é o foco e impacto, norteando o planejamento das ações das empresas, que deixa de ser voluntarista para se preocupar com os resultados dessas ações. E no lugar de realizar inúmeros projetos, a tendência é se concentrar em uma determinada questão. Não se pode apenas divulgar as ações, mas tomar conhecimento dos resultados que elas trazem para a empresa. E por fim, o que talvez seja a principal das tendências nessa área, o surgimento das alianças, parcerias e redes. As questões mais sérias na área social e ambiental são impossíveis de serem resolvidas só com um ator. Para resolver questões complexas é necessária a formação de alianças, tanto dentro de um setor, como o de investimento social, por exemplo, quanto entre outros setores, com as ONGs, empresas, escolas públicas, o Ministério da Educação. Então, falo de alianças, parcerias e redes intra e intersotoriais. A questão da Amazônia, por exemplo, não pode ser resolvida se envolver só o Brasil. Para tratar dessa questão teria é necessário reunir lideranças do Brasil, Colômbia, Venezuela, Equador, Peru e todos os demais países envolvidos para construir uma política de aliança que preserve a Amazônia em toda a sua dimensão.

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