Por Raquel Rosenberg, da Delegação Jovem do Brasil na COP 19

O chefe da delegação brasileira, Embaixador José Marcondes, declarou durante o “Colóquio Internacional Agenda Pós COP 19”, realizado em Brasília no último dia 06, que fomos “do neutro ao negativo”. Ou seja – não conseguimos avançar em nada, os impasses foram gigantescos e não havia concordância entre os compromissos anunciados por diferentes países.
Neste ano, doze jovens brasileiros se prepararam previamente para formar a Delegação Jovem do Brasil, uma iniciativa da Viração Educomunicação (www.viracao.org) e Engajamundo (www.engajamundo.org), que contou com o envolvimento de jovens da Fundação Luterana de Diaconia, Associação Cristã de Moços e conseguiu viabilizar sua participação na conferência de forma independente e autônoma. Mesmo com o fracasso das negociações, podemos considerar a atuação dos jovens brasileiros positiva.
A aproximação com o governo brasileiro começou na reunião pré COP 19, que aconteceu em Brasília na semana que antecedeu a conferência, e foi se aprofundando ao longo das duas semanas em Varsóvia. Foi possível acompanhar de perto as negociações, colocar nossos posicionamentos enquanto juventude, e, paralelamente, os embaixadores se mostraram muito solícitos e abertos a nossas propostas.
O tema das mudanças climáticas é bastante extenso, e pode ser abordado por diferentes frentes, nacional e internacionalmente. No entanto, buscamos levantar os pontos que considerávamos mais importantes para definir nosso posicionamento. Apoiamos que sejam feitas consultas à sociedade civil – uma das propostas do Brasil nesta COP –, e que tais processos sejam transparentes, amplos e inclusivos, contemplando a sociodiversidade brasileira (tal como os povos indígenas, comunidades tradicionais, quilombolas, juventude e crianças).
Outro ponto levantado foi o necessário avanço em mitigação e compromisso com metas obrigatórias, além da incorporação do mecanismo de loss and damage (perdas e danos) em toda a discussão de adaptação, a qual deve, por sua vez, ser fortalecida. Levantamos também os anseios dos povos indígenas, especialmente em relação à proteção de suas terras, e nossa posição contrária ao uso de mecanismos econômicos como solução para o problema da exploração indevida de nossas florestas.
Além disso, investimentos em projetos como o pré-sal, entre outros nos setores de agricultura, indústria e energia, vão totalmente contra a necessária política de combate à mudança do clima e, por isso, ressaltamos a urgência que o governo deve ter para promover a consistência interna entre suas políticas de desenvolvimento e os desafios das mudanças climáticas.
O aumento de 28% da taxa de desmatamento no último ano, destacando que esse crescimento se deu após a aprovação do novo Código Florestal, também foi colocado como um dos argumentos da necessidade de coerência entre o que é preciso fazer para combater as mudanças climáticas em nível internacional e os rumos das políticas e dos investimentos domésticos.
Apesar de a COP 19 ter trazido avanços na construção de um diálogo estruturado entre juventude e governo nas negociações internacionais – que pretendemos ampliar em futuras conferências, não apenas sobre mudanças climáticas – a verdade é que ainda há muito a ser feito. Nosso delegado Iago Hairon, 20, fez bonito ao se referir à frase da Ministra Izabella Texeira durante sua introdução do briefing no dia 18 e novembro, de que “a presença dos jovens lá fazia parte da nova plataforma de juventude do Ministério do Meio Ambiente”.
Iago salientou que fomos à COP 19 de forma totalmente independente, mas que ficamos contentes em saber que esta plataforma existe e que podemos contar com o apoio do Ministério daqui pra frente. O baiano foi aplaudido por todos os presentes ao soltar a frase de efeito “um mosquito sozinho não tira um rinoceronte do lugar, mas vários mosquitos juntos conseguem mudar o caminho de um rinoceronte. Nós somos os mosquitos e estamos aqui para mudar a direção de vocês, rinocerontes!”. Desse momento em diante, a Delegação Jovem do Brasil foi reverenciada algumas vezes, sendo aplaudida novamente a pedidos do Embaixador Marcondes.
Em sua fala durante o Colóquio em Brasília, Izabella Teixeira reforçou a ideia de que “é óbvio que precisamos mudar o processo de diálogo não só com as partes e não só com as ONGs, mas com os jovens, os trabalhadores (…) e diversos atores que não são inseridos nesse contexto.” Essa seria uma nova agenda do Governo para reforçar o posicionamento do Brasil na COP 20.
Além do apoio demonstrado pela própria ministra à juventude para as próximas COPs, a parlamentar Vanessa Grazziotin propôs a aprovação de um projeto para a viabilização da participação de jovens nestes espaços e foi condecorada pelo Embaixador Marcondes, que garantiu sua contribuição efetiva para assegurar a existência de tal projeto.
Sim, isto é motivo para celebração, mas estamos ansiosos para ver estas promessas serem cumpridas de forma integral e, para isso, entregamos à ministra no dia 19 de novembro, durante um side event realizado pelo Ministério, a carta com o posicionamento apresentado previamente, e fomos convidados a uma reunião em seu gabinete ao retornarmos ao Brasil.
O contato estabelecido entre os jovens presentes nesta COP e o Conselho de Juventude e com a recém-nomeada Assessora de Juventude do MMA também aponta para uma maior abertura que, junto com a determinação e perseverança dos jovens em fazer com que suas demandas fossem ouvidas, significou uma boa oportunidade de aproximação com o governo brasileiro.
Esperamos que toda a experiência vivenciada pelos jovens brasileiros na COP 19 sirva de inspiração para a juventude que deseja se engajar nestes processos e ansiamos o anunciado de apoio do governo para nossa participação nas próximas conferências do clima.
A Delegação Jovem do Brasil é composta por Engajamundo e Viração Educomunicação, com a colaboração da Fundação Lutherana e Associação Cristã de Moços.







