Barbara Dubach – Construindo relações sustentáveis

Barbara Dubach – Construindo relações sustentáveis

Economista de formação e atuando na Holcim há 12 anos, Barbara Dubach, vice-presidente de comunicação global do grupo suíço, coordenou a elaboração da estratégia de engajamento da empresa com seus públicos de interesse.
A breve análise dos números da organização indica o tamanho desse desafio. Presente em mais de 70 países, a Holcim emprega cerca de 90.000 pessoas em todo o mundo. E estamos falando de apenas um dos grupos da intrincada rede de públicos de interesse impactados e que possam vir a impactar o negócio da fabricante de cimento, concreto e agregados.
Segundo o relatório Rumo a uma indústria cimenteira sustentável, do World Business Council for Sustainable Development (Wbcsd), o segmento gera mais de 3% dos gases de efeito de estufa produzidos pelo homem. No entanto, os produtos que fornece são essenciais para satisfazer necessidades básicas, tais como habitação, vias de transporte, água e saneamento.
Encontrar um caminho para atingir o desenvolvimento sustentável é o grande desafio desse setor. E os stakeholders não só podem, como já estão ajudando na busca de soluções nesse sentido. Saiba como em entrevista a seguir.
Ideia Socioambiental: Quais são os principais desafios para construir um real engajamento com os stakeholders na indústria cimenteira?
Bárbara Dubach: Acredito que o desafio central é entender que o envolvimento de stakeholders não é algo contínuo. Tivemos essa experiência com públicos críticos e, com o nosso engajamento durante muitos anos, fomos capazes de encontrar um meio de selar compromissos que beneficiem as duas partes. É isso é um desafio porque as pessoas, normalmente, esperam soluções rápidas, o que nem sempre é fácil de ser realizado. É necessário tomar medidas no longo prazo para construir a credibilidade.
I.S: Que métodos foram utilizados para identificar os stakeholders críticos da Holcim e engajá-los?
B.D: No núcleo corporativo, desenvolvemos recomendações, que servem de guia para todas as empresas do grupo para identificar quais são os stakeholders, suas necessidades ou questões problemáticas, assim como a influência que eles têm. A partir daí, desenvolvemos um mapeamento que auxilia a definir quais as principais atividades de envolvimento com esses públicos.
I.S: E como essas experiências de diálogo com os stakeholders ajudam na administração dos negócios?
B.D: Quanto mais próximo o nosso relacionamento com os públicos, mais fácil se torna a aquisição ou extensão de licenças. Essa postura também proporciona boas relações com o governo. Mesmo em países onde não há legislação, é possível formar parcerias com o poder público para criar legislações. A questão-chave é identificar pontos críticos, analisar o que fazemos corporativamente e também junto a outros grupos empresariais. Assim, é possível conhecer as necessidades das partes interessadas e rever a materialidade dessas questões de desenvolvimento sustentável para a Holcim, já que essa agenda é muito ampla.
I.S: Qual a importância do teste de materialidade na produção do relatório de sustentabilidade?
B.D: Inúmeras empresas do grupo fazem esse tipo de avaliação porque alguns problemas são os mesmos em qualquer lugar do mundo, já outros se diferem de acordo com cada cultura. Então, fizemos uma análise material há cerca de dois anos e passamos a divulgar o resultado dela em nosso relatório. Assim, as nossas prioridades incluem, por exemplo, a saúde e segurança de ocupação, clima e energia, conservação de recursos, produtos sustentáveis para construção, comunicação e engajamento de stakeholders. Temos realizados nossos relatórios baseados nesses aspectos.
I.S: Existem ferramentas ou estratégias específicas para discutir sustentabilidade com fornecedores e clientes, por exemplo?
B.D: Sim, o que fazemos é encorajar nosso grupo corporativo a acessar os fornecedores, então desenvolvemos um questionário voltado para esse público. Fizemos isso corporativamente a fim de encontrar novas soluções para, por exemplo, o setor de papel com novos programas de reciclagem. O relacionamento com os clientes também é um fator importante, até para o desenvolvimento de novos produtos. Precisamos discutir com os consumidores quais as vantagens desses produtos em comparação aos tradicionais.
I.S: A produção de relatórios de sustentabilidade impactou de alguma maneira a maneira de fazer negócios?
B.D: O relatório de sustentabilidade tem diversas funções. A primeira delas é divulgar internamente os resultados da empresa, o que permite acompanhar nosso desempenho durante os anos e identificar áreas em potencial ou defasagem, a fim de mensurar resultados e discutir melhores estratégias. A segunda função é garantir a formação do contingente interno da empresa, a fim de demonstrar que o desenvolvimento sustentável é realmente indispensável para o grupo. E para a comunicação externa, é informar os stakeholders sobre o que estamos fazendo e quais são as metas estabelecidas pela companhia.
I.S: Essas medidas de engajamento com os stakeholders contribuem para o planejamento estratégico dos negócios?
B.D: Com certeza. Temos sistemas de planejamento interno bem definidos, mas a partir dos relatórios de sustentabilidade e dos testes de materialidade eles deixaram de olhar apenas o ponto de vista interno e passaram a considerar visões externas, o que tem contribuído para a definição das prioridades da empresa.
I.S: Como a Holcim tem se preparado para enfrentar a realidade de uma economia de baixo carbono?
B.D: A demanda por cimento tem crescido globalmente e não existe nenhum produto equivalente. Dessa forma, as emissões geradas pela produção de cimento vão continuar aumentando. Esperamos reduzir a pegada de carbono geradas pela produção de cimento por meio de processos inovadores. A utilização de cimento mineral, com menos componentes prejudiciais à natureza, por exemplo, é uma das alternativas que exploramos. Essas soluções estão disponíveis, mas não na quantidade que precisamos para suprir a demanda crescente. Se olharmos para países em desenvolvimento como o Brasil e a Índia, existem necessidades voltadas para infraestrutura. Considerando as adaptações necessárias devido às mudanças climáticas, também haverá uma demanda crescente por concreto.
I.S: Que tipos de tendências a senhora vê em relação aos relatórios de sustentabilidade e engajamento com stakeholders no longo prazo?
B.D: Acredito que haverá uma aproximação maior da organização com seus públicos. Teremos mais e mais stakeholders se envolvendo no desenvolvimento dos relatórios, tanto para dar feedback quanto para ajudar na produção, o que aumentará a credibilidade do documento. Por outro lado, acredito que no futuro vamos explorar muito mais novas formas de relatórios de sustentabilidade, seja como um elemento integrante dos relatórios anuais, seja para lançar novos formatos como relatórios on-line.

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