Adriano Pitres – Diversificação é o caminho

Adriano Pitres – Diversificação é o caminho

Como atender a demanda crescente por energia, causando o mínimo impacto possível ao meio ambiente? A diversificação é a resposta para equilibrar essa balança, tanto em relação a recursos energéticos, quanto à sua origem. Essa é a opinião de Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).
“Em toda a história, tivemos, praticamente, uma única fonte de energia. Até a Revolução Industrial inglesa era o carvão, depois passamos a explorar o petróleo. Mas daqui para frente, em virtude da questão ambiental e da segurança energética, as escolhas terão que se basear nas vantagens comparativas das diversas regiões do mundo”, destaca Pires.
Ainda segundo ele, esse quadro resultará na diluição não apenas dos riscos de abastecimento, mas também geopolíticos, associados ao domínio de um insumo essencial como a energia por determinadas regiões, como acontece hoje com os tradicionais países exportadores de petróleo. “As principais reservas de petróleo do mundo estão concentradas, principalmente, em nações que têm problemas de regime político ou religiosos. São países que vivem em permanente instabilidade política e social”, afirma Pires.
Confira entrevista na íntegra, a seguir.

Considerando a questão das mudanças climáticas e o potencial de geração de empregos, o setor de energia conseguirá atrair mais investimentos nos próximos anos? Quais as tendências para esse segmento no médio e longo prazo?
O mundo vai precisar cada vez mais de energia. Agora o grande desafio é como produzir mais energia, produzindo menos CO2.
O mundo inteiro já está mostrando que vai investir muito nas energias renoveis exatamente. Essa é uma direção que todos os países já estavam tomando e teve uma desaceleração em função da crise econômica que a gente começou a viver. A crise econômica levou a uma queda muito grande no preço do barril de petróleo, que chegou a atingir em junho 150 e no final do ano passado estava na casa dos 40 dólares. Essa desaceleração do preço do petróleo, promovido pela recessão econômica, de certa maneira pode adiar maiores investimentos nas chamadas fontes renováveis. Mas esse investimento é inexorável. Nos próprios discursos de Barack Obama consta que se vai trabalhar no sentido de que os Estados Unidos cada vez mais produza e consuma energia limpa. Esse aumento no investimento de energia renovável explicado por dois motivos. O primeiro é ambiental, o mundo não consegue mais queimar combustível fóssil, como fez no século 20. O segundo problema é a questão da segurança energéticas. O mundo, em especial os países desenvolvidos, também não agüentam mais depender dos países exportadores de petróleo. Se olharmos as principais reservas de petróleo no mundo, elas estão concentradas, principalmente, em países que têm problemas de regime políticos ou então religiosos. São países que vivem em uma grande instabilidade política e social.
Esses fatores também vão estimular o desenvolvimento do que eu chamo de energia made nas regiões. O mundo vai passar por um processo de diversificação das matrizes energéticas, que vai ser feita de maneira muito regional. Se pegarmos a história do mundo, sempre tivemos, praticamente, uma única fonte de energia. Até a Revolução Industrial inglesa era o carvão, depois passou a ter o petróleo. Então daqui para frente, em função da questão ambiental e da segurança energética, vamos ter que ter escolhas baseadas nas vantagens comparativas das diversas regiões do mundo. A tendência daqui pra frente é não ter uma única fonte de energia que corresponda a 70% e 80% do consumo mundial. No Brasil, o biocombustível, em especial, o etanol, a tendência é que ele tenha uma grande participação na matriz energética, não só etanol, quanto aos usos derivados da cana.

Em relação à ambição brasileira de conquistar mercados internacionais com a biomassa, é viável?
Sim, mas não com essa dimensão que muita gente coloca. Se o Brasil continuar na mesma direção que tem seguido, se modernizando, atualizando tecnologia o Brasil tem tudo pra ser um grande player no mercado internacional de biocombustível. Temos terra água, várias vantagens comparativas além de tradição como produtor. Precisamos superar algumas coisas, o governo não ser tão intervencionista, o próprio setor precisa se modernizar nas relações trabalhistas no sentido também das tecnologias utilizadas nas usinas. Agora, o biocombustível não vai substituir petróleo, nem a gasolina totalmente. O Brasil ser um grande exportador, mas não essa história que muita gente fala que seremos a Arábia Saudita verde. O grande mercado consumidor de biocombustível é o mercado interno. O mercado externo vai ser importante, mas não nessa dimensão que muita gente coloca porque, na minha opinião, teremos soluções em função do aspecto de segurança energética muito locais. Os Estados Unidos, por exemplo, o carro híbrido é uma solução local.
O Brasil é um país privilegiado nessa questão energética. Talvez, seja um dos mais privilegiados. Por que? Tem grande fontes hídricas, onde pode gerar energia hidroelétrica e o potencial desse tipo de energia não explorado ainda é muito grande. Tem um país ensolarado, onde pode gerar energia solar. Tem um país que ainda pode desenvolver energia nuclear e carvão e o biocombustível na matriz combustível e outros derivados como o bagaço tem um grande potencial como gerador de energia elétrica. Ainda mais agora com a descoberta do pré-sal o Brasil pode ter uma participação muito importante no mercado de petróleo e gás. O que precisa é política pública. Tem que ter muito cuidado para que essa descoberta do pré-sal não se transforme em um retrocesso da matriz energética brasileira porque o que percebemos é que todo país grande produtor de petróleo sempre possui uma matriz energética suja e atrasada porque há uma tendência de subsidiar a matriz de petróleo.
O Brasil hoje um país que tem uma das matrizes mais limpas do mundo e tem todo um horizonte para continuar sendo. O que não se pode é que essa descoberta do pré-sal interrompa esse processo. Fico muito receoso quando vejo a Petrobras anunciar no plano estratégico dela que quer construir quatro ou cinco refinarias no Brasil: uma no Maranhão, outra no Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro, conterje. Se a gente vai construir cinco refinarias quem vai consumir esse petróleo? É o mercado externo? Mas o mercado de derivados está sujeito a sazonalidades. Então fico com muito receio de que esse tipo de investimento sendo feito possa prejudicar o desenvolvimento, por exemplo, do etanol, como combustível. E no caso da matriz elétrica, também fico preocupado, porque se olharmos hoje os últimos leilões que ocorreram de energia elétrica, reparamos uma grande predominância de usinas térmicas à óleo. Isso representa um retrocesso porque nossa matriz elétrica sempre foi limpa.
Se já está ganhando térmica a óleo, não sendo produtor, imagina se a virarmos um grande produtor de óleo? Eu fico receoso de que o governo crie metodologias nos leilões que facilitem a aprovação das térmicas e não uma maior penetração do bagaço de cana na matriz energética.

Esse papel do governo é importante? Que tipo de estratégias deveriam ser pensadas no sentido de fomentar estas energias renováveis e assegurar a transição para uma economia de baixo carbono?
Precisa política pública que defina o que o governo quer como matriz energética no futuro.  E pra definir essa política pública, temos alguns mecanismo como os tributários e fiscais. No Brasil, utilizamos muito pouco esse mecanismo. Infelizmente, no Brasil, não temos políticas no longo prazo para o setor de energia. A política brasileira de energia é muito ciclotímica, quando se aumenta o preço de petróleo começa a arrumar mecanismos, instrumentos para incentivar o consumo, por exemplo, do etanol. Aí o preço do petróleo cai, aí esquece do etanol e volta consumir gasolina. Na hora que tem gás sobrando, faz instrumentos para viabilizar um grande consumo de gás. A política brasileira não dá sinais de longo prazo nem para o investidor, nem para o consumidor. Acho, por exemplo, que deveria se discutir uma política tributária em relação a energia porque gasolina, diesel não deveriam ser foco de um custo ambiental em cima deles. Está faltando o governo definir que matriz quer para o futuro e instrumentalizar isso com mecanismo de médio e longo prazo, não ficar mudando toda hora.

No caso específico do Proinfa, que acabou priorizando as termoelétricas, existe um impacto tarifário também, certo? O custo operacional de energias mais limpas seria menor, então?
Quando se tem como vencedor dos leilões a energia térmica, temos vários problemas. Primeiro, isso significa aumento de preço da energia porque o petróleo tem uma volatilidade muito grande e o pior, isso significa sujar a matriz elétrica brasileira. Os resultados de leilões de energia elétrica, onde as térmicas foram amplamente vencedoras, mostram um Brasil andando pra trás. Enquanto o mundo inteiro está querendo mudar a matriz para fontes mais limpas e renováveis, nós no Brasil estamos privilegiando fontes não renováveis e fósseis.
E este planejamento ainda está dentro do MME, ou ainda tem boa parte representada pela Petrobras?

Quando se tem empresas estatais de energia como a Petrobras e Eletrobrás acaba que essas empresas fazem política. Ainda mais nesse governo, em que as agências reguladoras foram muito desprestigiadas, então o papel de formulador de política das estatais ficou muito forte outra vez. O que me preocupa também é essa entrada da Petrobras no setor de biocombustíveis, como produtora de biodiesel e ela também está falando que pretende ser uma grande produtora de etanol. Isso acho que não é uma coisa boa para o País porque vai politizar demais a questão e também vai criar outra vez estruturas muito monopolizadas. Esse setor de biocombustível, o etanol em particular, sempre teve sucesso na mão do empresário privado. Então, o que o governo tem que fazer é planejamento indicativo, regular os setores de energias, fiscalizar a atuação das empresas que estão nos setores. Acho que o papel do governo como empreendedor não é que não deveria existir, mas deveria existir de uma maneira bastante controlada.
Que fatores devem orientar a decisão de investimento em energia no país?
O problema é que o risco de investir em infraestrutura no Brasil é muito alto porque não se tem uma política definida e no passado houve essa ciclotimia constante. Como se tem uma presença muito forte das estatais no setor de energia, isso também cria um alto risco para o investimento. Falta o governo tomar atitudes e tomar resoluções que minimizem esses riscos. Exemplo de investidor interessando em biocombustiveis e anúncios da Petrobras novas refinarias – estratégia Venezuela. A grande herança maldita que esse governo está deixando são essas indefinições e a falta de uma política de infraestrutura em geral no Brasil e em particular no de energia porque perdemos grandes oportunidades naqueles anos em que a economia mundial cresceu muito, em que poderia ter sido atraído muito mais investimentos em energia no Brasil, dado que a natureza nos premiou muito em relação a energia, já que temos sol, costa pra eólia, água pra elétrica, terra para fazer biocombustível. O grande problema é que esse governo não conseguiu, nem o outro, acoplar essa benesse que a natureza nos deu como uma política que resulte em grandes investimentos.
É extremamente importante porque o desafio é produzir a maior quantidade de energia com menos CO2. E a eficiência energética é fundamental porque se melhorar os processos significa que vou produzir mais energia, sem construir novas plantas.
No campo da eficiência energética, quais os principais avanços e desafios no Brasil?
O nosso governo, assim como outros governos da América Latina, temos muito o vício de fazer populismo com o preço de energia. Esse populismo acaba não retratando o custo da energia e aí as pessoas não consomem de maneira eficiente. Se pegarmos os três primeiros trimestres de 2008, o consumo de energia nos países da OCDE caiu bastante porque o preço do petróleo disparou e no último trimestre de 2008 também caiu em função da crise econômica. Nos países, não o OCDE, principalmente nos BRICs, tanto no período de altos preços do petróleo, tanto no período onde a economia entrou em recessão o consumo cresceu porque principalmente no período em que o preço de petróleo chegou a 150 dólares, esse países não internalizaram para as suas economias o preço de 150 dólares o barril. Então, aqui a gasolina, na China, na índia, chegou a ser as mais baratas do mundo. Como é que com esse tipo de política, vai se incentivar a eficiência. E além de não incentivar a eficiência, isso também acaba prejudicando as fontes alternativas porque se dá uma competição via preços para esses combustíveis fósseis completamente irreais. Apesar de o barril estar a 150 dólares o Brasil subsidiou o consumo de diesel e gasolina internamente. Se tivesse aumentado o preço do diesel e gasolina em função do mercado, com certeza o etanol tinha aumentado a sua participação na matriz brasileira de combustível.
Como o Brasil está tratando cada vez mais o setor de energia com esse viés político, esses avanços como precificação de carbono vão demorar muito para chegar aqui.
Os países desenvolvidos têm defendido o Clean Coal, tecnologias para minimizar os impactos na geração de energia por combustíveis fósseis. O investimento nessas alternativas realmente se faz necessário?
O Brasil vai ter que acabar considerando isso, cada vez mais os acordos na economia globalizada e o Brasil é um país aberto, exigem que o país seja um produtor de energia correto e ambientalmente correto. O próprio etanol se quiser ser um produto exportável para países desenvolvidos vai ter que rever essa questão das relações que existe na usina, como é feita essa produção industrial, vai ter que mostrar que o etanol não está empurrando a soja e o gado para a Amazônia. A tendência é que essas questões ambientais estejam presentes em todos os acordos comerciais no mundo. E cada vez mais a população mundial está disposta a pagar mais caro, desde que esteja ambientalmente correto. Então o Brasil vai ter que se ordenar dessa maneira, senão vai perder competitividade e espaço no mercado mundial.
Qual é o cenário para investimentos em P&D na área de energias renováveis no Brasil?
A direção que todos os países já estavam tomando: desaceleração, crise econômica, queda de preço petróleo. Ele pode adiar maiores investimentos nas chamadas fontes rebocáveis. Ambiental, segurança energética, países desenvolvidos não agüentam depender dos grandes exportadores de petróleo, das reservas concentradas em países que tem problemas políticos, grandes instabilidade política e social – fator que está determinando a energia made nas regiões. O mundo vai passar pelo processo de diversificação das matrizes, feita de maneira muito regional, historicamente única fonte de energia, carvão petróleo, vai ter escolhas baseadas em vantagens comparativas das diversas regiões do mundo.

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