Por Cristina Tavelin
Terceiro dia (24/03): 10 anos é o tempo que temos
Último dia do Fórum reafirma preocupação de todos os setores com a urgência de mudanças para que o planeta não chegue a um ponto irreversível de degradação

Nesses três dias de discussão, a ideia que se concretizou de forma mais plena foi a necessidade de aumentarmos o volume de nossa voz como sociedade. Não há mais tempo a perder. Se, há alguns anos, era possível ser passivo diante de temas socioambientais – esperar para ver –, hoje, sem uma atuação conjunta, ousada e ambiciosa ninguém mais vai ver nada.
10 anos. É tudo que temos.
Coração azul do planeta

Sylvia ganhou também a plateia com sua simplicidade. “Você precisa ter o mesmo amor pelos peixes que tem pelo seu gato. Hoje, eles só são valorizados quando estão mortos.” Pois é, para eles, não é nem um pouco doce morrer no mar. “Estamos destruindo o sistema de suporte à vida.”
Sobre o recente vazamento de petróleo provocado pela empresa Chevron, destacou: “Não é aceitável que acidentes como esses continuem acontecendo. Estamos mudando a natureza da natureza. Estamos muito perto do limite de não termos mais um ponto de retorno.”
E para piorar a situação, não basta explorarmos apenas os recursos não renováveis acessíveis, temos que ir mais fundo: até o pré-sal. “Exploramos fontes de recursos não renováveis de acesso cada vez mais difícil”, enfatizou.
Para colocar o discurso em prática, é necessário precificar o valor da água, além de cuidar dos oceanos, segundo a oceanógrofa. Hoje, apenas 1% deles está protegido de agressões externas. Sylvia instiga: “Se você soubesse que apenas 1% de seu coração estivesse protegido, o que faria?”
Parem Belo Monte!
Se a ativista Bianca Jagger tinha o objetivo de mobilizar ainda mais os participantes do Fórum Mundial a fazerem algo quanto à construção da usina de Belo monte, ela conseguiu. No meio de sua coletiva de imprensa, chamou Philip Martin, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (INPA), e Brent Millikon, diretor da organização International Rivers para falar; indicou dados e pesquisas; e mandou uma mensagem até para a presidente Dilma.
Durante sua palestra, falou sobre a visita às proximidades do Rio Madeira, onde descreveu uma visão de miséria. “Eu não quero perder a esperança”, comentou, um tanto desolada.
Citando como exemplo a Alemanha – país com atuação forte no desenvolvimento de energias renováveis –, disse que o Brasil pode seguir o mesmo exemplo. E, dizer que o custo do investimento nessas fontes limpas é mais alto, para ela, é pura desculpa – levando-se em conta que o anúncio de gastos crescentes na construção de Belo Monte superam cada vez mais as previsões iniciais do projeto. “Mas a notícia ruim não é dada a vocês de uma só vez, o aumento é revelado aos poucos.” E desafiou: “Como vamos justificar a Belo Monte na Rio+20? É um erro que pode ser corrigido. Ainda há tempo para parar, depende de vocês”.
Segundo a ativista, discussões como a de hoje ajudam a ampliar a consciência das pessoas. Mas o impedimento de colocar o discurso em prática está na falta de visão e de cuidado. “Os governos sacrificam pessoas pelo progresso, isso não é desenvolvimento sustentável”, destacou.
A voz da floresta

Há 20 anos, está à frente do povo Paiter Suruí.
No final dos anos 60, a comunidade localizada em Rondônia foi arrasada pelo contato com culturas diferentes e exploradoras.
Vendo os desafios para uma inserção digna no planeta, Suruí começou a buscar parcerias para integrá-la de forma benéfica aos novos tempos: lutando contra o desmatamento, a desvalorização da cultura e a falta de políticas públicas.
Para tanto, traçou junto a outros membros da comunidade e com apoio de parcerias externas, um plano de gestão para os próximos 50 anos digno de exemplo para qualquer empreendimento de sucesso. O povo Paiter fez um mapeamento biológico e cultural e, a partir de 2006, seu líder começou a mobilizar a opinião pública. “Como líderes, temos que buscar soluções para nosso povo por meio de articulações e assumir compromissos para sua implementação”, pontuou.
Negócios sustentáveis, precificação de serviços e políticas ambientais estão entre os pontos desse plano. E, para alcançá-lo, a comunidade criou um fundo voltado a esses objetivos. Entre as ações desenvolvidas, está a proteção e monitoramento de fauna e flora e manejo sustentável de produtos como café e castanha do Pará. “Não podemos separar nosso conhecimento do resto do mundo. Hoje, o planeta é uma coisa só”, finalizou.
Ate breve!
Depois de três dias no frio do ar-condicionado, amanhã terei a chance de conhecer um pouquinho de Manaus e ver de perto a expressão do próprio meio ambiente, da floresta, da comunidade – expressão essa que chega mais longe, vai além das palavras. O sentimento geral é de que levamos ótimas ideias na cabeça, mas que, necessariamente, precisam ser colocadas em prática. Agora. Espero voltar daqui dez anos – ou antes disso! – com boas notícias na bagagem.
* A repórter Cristina Tavelin viajou a Manaus a convite da organização do evento.







