A colaboração para um futuro sustentável

A colaboração entre diversos atores continua a ser vista como um dos caminhos capazes de oferecer soluções para os desafios do desenvolvimento sustentável na escala e na velocidade que precisamos. Seja por meio de iniciativas que envolvam diferentes empresas em torno da mesma causa, seja pela associação entre as esferas corporativa, governamental e o terceiro setor, as ações colaborativas vêm ganhando destaque na agenda da sustentabilidade.

Uma das surpresas positivas desse movimento é o recente fenômeno de companhias trabalhando juntas em áreas nas quais concorrem diretamente, como o caso da parceria entre a Ford e a Toyota no desenvolvimento de um novo sistema híbrido para pequenos caminhões e SUVs. Da mesma forma, as japonesas Sony e Panasonic anunciaram, em 2012, uma parceria na produção de aparelhos com telas OLED (Organic Light-Emitting Diode).

Considerada como o futuro das telas de aparelhos, a tecnologia OLED é mais eficiente no consumo de energia e permite telas muito finas e flexíveis. Há, ainda, o exemplo da moratória da soja, renovada no ano passado, e que revela o compromisso das 24 principais empresas comercializadoras do grão – representando 90% do mercado de soja no país – unidas em prol do combate ao desmatamento da Amazônia. Seria este o início de um movimento pautado mais em objetivos coletivos do que na corrida do salve-se quem puder a que temos assistido nas últimas décadas?

Para entender o papel da colaboração no desafio da sustentabilidade, um estudo recente da SustainAbility em parceria com a rede mundial de empresas de pesquisa GlobeScan, representada no Brasil pelo instituto Market Analysis, reuniu a opinião de cerca de 800 especialistas de 74 países para entender as visões atuais e futuras sobre o tema entre representantes do governo, de empresas, ONGs e academia.

Apesar do pessimismo em relação à disposição e habilidade dos governos em alcançar objetivos reais na agenda da sustentabilidade, os especialistas acreditam que os resultados só serão possíveis por meio da colaboração entre diversos atores, incluindo aí o setor público. No entanto, ainda restam dúvidas sobre como se dará esta aproximação entre a iniciativa privada e o governo. O gráfico 1 sintetiza os atores identificados e as alternativas de atuação consideradas para esse modelo colaborativo na visão dos stakeholders.


A participação do governo em iniciativas relacionadas ao desenvolvimento sustentável é fundamental para os especialistas ouvidos no estudo. Seja por meio da presença explícita ou implícita, da regulação ou de parcerias público-privadas, a vasta maioria dos especialistas acredita na necessidade de envolvimento do setor público para o sucesso da agenda do setor. Surpreendentemente, a alternativa tida na Rio+20 e outros fóruns globais como de maior potencial para equacionar os desafios da sustentabilidade, as parcerias público-privadas, é considerada como melhor estratégia de ação para apenas 10% dos entrevistados. Quais os motivos dessa dissonância em relação a esse tipo de iniciativa que vem dando resultados expressivos nos últimos anos?

Apesar do reconhecimento pela maioria dos especialistas de que a colaboração com a inclusão explícita do governo se torna essencial para a evolução de ações sustentáveis, há uma discrepância considerável no que especialistas creem e no que está sendo feito de fato pelas empresas. Existem dúvidas em relação à disposição e habilidade do governo de avançar nas questões de sustentabilidade. Como consequência, há incertezas sobre que abordagens e estratégias as empresas devem seguir ao optar por colaborar com o setor público.


O gráfico 2 ilustra a brecha percebida entre os formatos ideais de colaboração e os que acabam sendo utilizados pelas organizações. Verifica-se uma diferença de 28 pontos entre o que os especialistas acreditam como sendo a abordagem mais eficaz – a colaboração de diversos atores com a inclusão explícita do setor público – e que ações as empresas estão de fato exercendo com relação às colaborações com foco na sustentabilidade. Esse cenário demonstra que há espaço para desenvolver maior confiança em relação à aptidão do governo nas ações colaborativas de sustentabilidade.

Há também a necessidade de melhorar o desenvolvimento de estratégias que incluam o governo entre os diversos atores. Em outras palavras, o auge da sustentabilidade empresarial pode até hospedar uma crítica ao vazio deixado pelo Estado em certas áreas como a social, cultural ou ambiental, mas convive com a expectativa de que o governo faça sua parte e esteja ativamente presente na formulação e execução de soluções nesses campos.

Outra questão importante levantada na pesquisa se refere às razões que motivam as diferentes esferas da economia a se unirem em torno de um futuro ambiental, social e econômico melhor para todos. O acesso a diversas perspectivas e conhecimentos, além da partilha de risco, aparece como chave para o sucesso das iniciativas colaborativas em prol da sustentabilidade.  Já a redução de custos, apesar da sua centralidade para o universo corporativo, não é vista como uma razão primária para colaborar. O gráfico 3 resume esses achados.


 

Chama a atenção o contraponto entre a baixa preocupação pela redução dos custos do investimento (23%) e uma consideração bastante elevada em torno da divisão dos riscos de se aventurar na agenda verde (46%) na avaliação dos benefícios diretos das ações colaborativas. O que esse dado revela?

Que a percepção dos gestores sobre os investimentos na sustentabilidade está mais relacionada à gestão e neutralização das incertezas para os atores envolvidos (incluídas aí a administração da reputação e imagem das instituições) do que à disponibilidade financeira para tal fim. Ao mesmo tempo, atribui-se à cooperação multissetorial um poder pedagógico e de inovação organizacional único. Ao colocar o acesso a expertise e conhecimentos práticos como fator de mobilização para agir cooperativamente, os profissionais estão reconhecendo a vantagem competitiva que a integração orgânica entre as partes interessadas pode trazer.

Diante desse contexto, quais estratégias empresariais são avaliadas como mais eficazes para emplacar o paradigma da sustentabilidade? Pedimos aos experts sua opinião sobre diferentes iniciativas, algumas dentro da órbita de influência individual das organizações, outras exigindo ações em parceria. Apesar de alguns fatores serem mais bem executados a partir de ações individuais de cada empresa, os especialistas percebem que as iniciativas colaborativas trazem, de forma geral, mais resultados positivos para os envolvidos na agenda. Além disso, especialistas discernem as iniciativas  multistakeholders como uma oportunidade significativa para acelerar a implementação dos modelos de negócios sustentáveis (gráfico 4).


O engajamento de funcionários, o desenvolvimento de produtos e serviços sustentáveis, além de um modelo de negócios mais sustentável, são apontadas como atividades que dependem menos de terceiros e, portanto, podem ser mais rapidamente implementadas, ao passo que também devem se beneficiar de ações colaborativas.

Já a defesa de políticas públicas e o engajamento dos consumidores aparecem como iniciativas cujos benefícios são palpáveis a partir da mobilização de diversos atores. São escolhas como essas que ilustram o potencial das ações colaborativas no esforço pela consolidação de uma matriz de sustentabilidade.

Nitidamente a maneira mais eficaz de implementar a sustentabilidade corporativa começa portas adentro; por exemplo, no modo como os clientes internos são mobilizados ou no alinhamento do processo e resultados obtidos ao longo do sistema produtivo – a obtenção de progressos nesses âmbitos é principalmente responsabilidade da iniciativa individual. Entretanto, a formalização e consolidação de standards e regras de jogo sustentáveis requerem o envolvimento de outros atores, ou seja, exigem legitimação social e compromisso coletivo.

O estudo aponta em direção ao crescimento evidente das ações colaborativas com foco nas questões pró-sustentabilidade. Diversas iniciativas direcionadas ao desenvolvimento sustentável, seja cenários mais tradicionais, como parcerias entre empresas e instituições não governamentais, ou ações mais expansivas, como as parcerias multistakeholders envolvendo o setor público, privado e não governamental, todas essas iniciativas são vistas com uma previsão positiva de crescimento nestes próximos cinco anos.

Essa presciência de crescimento aponta quais perspectivas os especialistas guardam sobre as relações entre empresas e o governo. Estimando um aumento nas iniciativas sustentáveis, entende-se que há expectativas de estreitamento das relações entre governo e empresas, agindo em conjunto para gerar um futuro ambiental, social e econômico melhor para todos.

É preciso compreender que há diferenças na intensidade com que as diversas formas de colaboração deve aumentar. Diferenças também são registradas sobre a eficiência das diferentes formas de colaboração. Todas as colaborações estão previstas para crescer neste futuro próximo. O que difere, no entanto, é a abrangência do foco com que elas irão lidar.

Uma das faces mais visíveis da colaboração envolve empresas e ONGs. No Brasil, essa convergência operativa conta com inúmeros exemplos: da certificação da madeira legal à implementação bem-sucedida de cases de comércio justo; das moratórias da carne e soja à conscientização sobre o impacto ambiental das sacolinhas plásticas. Nem sempre foi assim, é claro. E ainda hoje vê-se influência dos conflitos emblemáticos de décadas passadas na hora de imaginar a relação entre ambos.

O concreto é que diversas pesquisas revelam um grau de credibilidade das grandes empresas e ONGs bem superior ao de outros atores como governo, forças políticas ou organismos multilaterais. Daí que faça sentido focar os consensos e dissensos que rodeiam a cooperação potencial entre ambos os agentes. Isso inspirou a pesquisa a sondar quais características de cada um desses dois agentes são percebidas como chaves para o sucesso de ações colaborativas. O gráfico 5 consolida essa informação.

No âmbito empresarial, especialistas informam que o comprometimento dos executivos com a sustentabilidade se constitui na alavanca primordial para o sucesso da cooperação. Essa iniciativa é vista como critério de maior importância nas avaliações para iniciar ações colaborativas. O compartilhamento da informação, assim como o reconhecimento dos mesmos objetivos, também carrega importância significativa ao se iniciar parcerias colaborativas. A complementaridade na ação e o engajamento financeiro têm seu peso, mas não surgem como condicionantes vitais.

Por outro lado, a avaliação dos fatores decisivos para que as organizações não governamentais se tornem parceiros de sucesso se concentra na reputação destas e sua habilidade para trazer competências distintas. Por exemplo, o conhecimento sobre um assunto específico que uma determinada ONG possa ter é fator diferencial na viabilização de parcerias. Ainda, a transparência com relação ao compartilhamento de informações e conclusão de objetivos e propósito semelhantes são também critérios de peso ao optar por realizar parcerias colaborativas.

O futuro da sustentabilidade requer a colaboração multissetorial e os especialistas enxergam um forte crescimento nesse sentido. Algumas dúvidas prevalecem sobre a maneira como essas parcerias devem ocorrer. Se existe um consenso da importância dada às associações com o setor público, ainda restam dúvidas, no entanto, quanto à capacidade e iniciativa do governo com a agenda sustentável. Como será que empresas, organizações não governamentais e o próprio governo irão se manifestar com relação à colaboração com a agenda sustentável global? O compartilhamento de ideias e informações é tão necessário quanto evidente. Resta sistematizar as configurações bem-sucedidas que já estão ocorrendo para reduzir parte das incertezas e animar a imaginação de um universo de confluências possíveis entre as partes interessadas. Estaríamos diante de um futuro promissor, no qual empresas e governo estabelecerão por completo colaborações sustentáveis para a garantia de um mundo melhor?

A Market Analysis é um instituto de pesquisas especializado em sustentabilidade e responsabilidade social, parceiro de Ideia Sustentável na produção de conteúdos para os Dossiês e análises de tendências, bem como na realização de pesquisas customizadas e gestão de conhecimento para empresas clientes.



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