Michael Porter

Por Poliana Abreu

Uma das maiores celebridades da Harvard Business School, Michael Porter já foi considerado o pai da estratégia competitiva – altamente requisitado por grandes empresas e instituições do mundo por suas análises e insights sobre a acirrada competição global. Pode até soar estranho falar de Porter sem fazer referência às Cinco Forças da Competitividade (modelo teórico desenvolvido nos anos 80 para analisar a eficiência competitiva de determinado setor industrial ou comercial no mercado).

Mas o fato é que, hoje, suas aulas e palestras são dedicadas a temas como valor compartilhado, progresso social e sustentabilidade. Talvez esteja aí o argumento que faltava aos mais céticos de que esses conceitos podem – e devem – falar a mesma língua dos negócios. Se até Mr. Porter se rendeu a eles, poderão soar como música aos ouvidos de muitos executivos que, certamente, irão pelo menos parar para ouvir o que o mais famoso e influente professor de business do mundo tem a dizer.

Em visita ao Brasil para participar da Conferência Ethos 2013, em setembro (sim, um evento sobre responsabilidade social empresarial!), Porter lançou oficialmente o chamado Índice de Progresso Social, concebido por ele e pela instituição Social Progress Imperative. Durante sua apresentação e na entrevista concedida à imprensa, Porter explicou o que é este novo índice e como as nações e empresas podem se beneficiar dele para catalisar mudanças e gerir o bem-estar social.

Para além do PIB: como medir o desenvolvimento nacional

Precisamos ir além dos números do PIB e entender que muitos fatores contribuem para uma sociedade saudável. Sucesso econômico não mede tudo o que é necessário. É essencial adicionar dimensões como saúde e educação. O PIB é importante, mas a relação com a renda é imperfeita. Por exemplo, Nigéria e Gana têm patamares de renda parecidos, mas níveis drasticamente diferentes de progresso social. Isso significa que não é porque o país tem renda que isso vai se traduzir em melhorias para a população.

Outro exemplo é a Costa Rica, cujos indicadores econômicos são parecidos com os da África do Sul, mas, em relação ao progresso social, aparece próximo à colocação das nações mais desenvolvidas. A análise do progresso social precisa ser holística para compreendermos as diferentes trajetórias para o desenvolvimento, identificando o que devemos aprender com os países em diferentes estágios do processo. Por isso, é necessário criar novas formas de mensurar o desenvolvimento social, que avancem além da ideia do Produto Interno Bruto.

Algumas iniciativas no mundo já utilizam essa abordagem, como no Butão, que foi a primeira nação a priorizar, ainda na década de 1970, a Felicidade Interna Bruta (FIB), desconsiderando o PIB como parâmetro maior. Há dois anos, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) criou o índice Better Life (Vida Melhor) para os seus 34 países conveniados.

Atualmente, com a colaboração de economistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e importantes organizações internacionais de empreendedorismo social, administração, filantrópicas e acadêmicas, como Cisco, Deloitte, Fundação Skoll, Compartamos Banco e Fundação Avina, estou lançando uma nova forma de mensurar o bem-estar social, que tem algumas diferenças em relação aos esforços anteriores.

Esses esforços, para ir além da mensuração apenas econômica, lançaram bases muito importantes. Mas precisamos de um approach mais holístico, compreensivo e rigoroso. O Índice de Progresso Social é uma tentativa de preencher essas lacunas. Sempre houve a ideia de que o crescimento econômico é o que traz bem-estar. Mas o que o nosso índice mostra é que também funciona o sentido inverso, e que o bem-estar também leva ao progresso econômico. Se um país é mais estável e mais pacífico, claramente torna-se um lugar melhor para se fazer negócios.

O Índice de Progresso Social

Define-se progresso social como a capacidade de uma sociedade de atender às necessidades humanas básicas de seus cidadãos, estabelecer os componentes básicos que permitam a eles melhorar de vida e criar as condições para as pessoas e as comunidades atingirem seu pleno potencial.

Pensando nesse conceito e reconhecendo o fato de que é necessário desenvolvermos uma mensuração holística do bem-estar de uma nação, criamos um índice que chamamos de Índice de Progresso Social (IPS), composto por 52 indicadores em três dimensões relacionadas ao desenvolvimento econômico e social: necessidades humanas básicas, fundamentos do bem-estar e oportunidade.

Para o cálculo do índice de cada local, realizou-se um diagnóstico detalhado e rigoroso com informações disponíveis sobre a região. O objetivo é que o IPS possa servir para catalisar mudanças, estimular melhorias e mobilizar. Acredito que ajudará governos, empresas e sociedade civil a identificar e inovar em áreas essenciais ao progresso humano.

Na esfera pública, pode ser útil para o desenvolvimento de políticas públicas. O IPS já foi oficialmente adotado, por exemplo, pela Costa Rica e Paraguai. No campo privado, pode ajudar as empresas a internalizarem a ideia de valor compartilhado, porque proporcionará dados que as ajudarão a identificar quais ações e investimentos sociais devem ser priorizados em um determinado país.

É também uma grande oportunidade para os empreendedores sociais, porque pode mostrar como eles estão gerando valor e, ao mesmo tempo, dar-lhes voz e legitimidade nos debates sobre políticas para o desenvolvimento social.  O progresso social depende das escolhas políticas, investimentos e capacidades de implementação das várias partes interessadas – governos, sociedade civil e empresas.

Essa ação precisa ser catalisada em nível nacional. Ao informar e motivar os interessados ??a colaborar e desenvolver uma abordagem mais holística para o desenvolvimento, estou confiante de que o progresso social vai se acelerar.”

Posição do Brasil

O progresso social será crucial para a ambiciosa estratégia de desenvolvimento do Brasil. O país mostra conquistas importantes em questões relacionadas ao seu progresso social, mas em um contexto de altas e persistentes desigualdades estruturais. Essa realidade refletiu-se na pesquisa que realizamos com 50 países, que aponta o Brasil como 18º colocado da lista. Em primeiro lugar no ranking ficou a Suécia, seguida pelo Reino Unido e pela Suíça.

Na outra ponta, a Etiópia ficou na última colocação (50ª), depois da Nigéria e de Uganda. O Brasil, apesar de sua colocação na lista, é apontado como a 7ª maior economia do mundo. Verificamos que o país gasta bastante dinheiro em ações para melhorar o progresso social e, apesar disso, está abaixo de países que gastam menos. Talvez isso signifique que os investimentos podem não estar dando os melhores resultados que poderiam.

O Brasil ficou em uma posição baixa (30º lugar) em relação às necessidades básicas que compreendem temas como água e saneamento, alimentação e nutrição, e habitação. Nas áreas relacionadas ao bem-estar, que englobam saúde e acesso ao conhecimento básico, a classificação chegou a 20ª; e, em oportunidades ligadas ao ingresso no ensino superior, sua posição é 16ª. Dentro de cada um desses tópicos, há subitens.

Em oportunidades, um dos quesitos que puxaram o Brasil para cima foi “tolerância e respeito”, no qual o país ocupa a segunda posição – portanto, está entre os melhores. Ainda dentro do mesmo tópico (oportunidades), no subitem “igualdade de oportunidades para minorias étnicas”, o país aparece em primeiro lugar. Na outra ponta, o Brasil foi muito mal em segurança pessoal, que atende ao requisito das “necessidades humanas básicas”.

Nesse item, ficou em 46ª posição; e, no quesito “taxa de homicídios”, ficou na 47ª. Em relação ao tema “mulheres tratadas com respeito”, que também integra o tópico oportunidades, o Brasil também ficou muito mal colocado, ocupando o 43º lugar.

Porém, se analisarmos a curva que mostra a relação entre renda e progresso social, percebemos que o Brasil é o país que mais se comprometeu com a sustentabilidade nos últimos anos em comparação aos outros integrantes dos BRICS, como a China e a Índia, e, portanto, tem um grande potencial para usar isso dentro da sua estratégia de crescimento.

O Brasil, por exemplo, conseguiu progressos na redução da pobreza nos últimos anos, e enxergamos potencial para exercer liderança nessa área. O país é relativamente mais eficiente em transformar crescimento econômico em progresso social: está comprometido com essa agenda há algum tempo, mas ainda existem alguns fatores em que o Brasil tem muito espaço para melhorar, como papel das mulheres na sociedade, acesso à educação, saneamento básico e saúde.

O papel das empresas privadas no desenvolvimento social

Nós entendemos que ter separado os negócios, e a competição no mundo dos negócios, do progresso social e dos problemas sociais foi, na verdade, um grande erro. Algumas das maiores oportunidades estão na resolução de problemas sociais e seus desafios usando o modelo de negócios.

Sem dúvida, a maneira mais poderosa de resolver um problema da sociedade é fazê-lo por meios sustentáveis, gerando lucro, criando um modelo de negócios, não apenas realizando uma doação filantrópica mas respondendo a uma necessidade com um serviço que pode ser sustentado, com um modelo de negócio que gere valor compartilhado.

O setor privado vem passando por uma evolução em termos de como ele vê seu papel na sociedade. As empresas devem enxergar os problemas sociais como oportunidades de crescimento. Se os empreendedores resolverem questões sociais, será ótimo, porque criarão soluções autossustentáveis.

Estamos observando esforços inovadores de todo tipo ao redor do globo para solucionar a desnutrição e os desafios de saúde e educação não por programas governamentais, mas por meio de associações de empresas, governos e ONGs, que realmente enfrentarão esses problemas. Sei que muitos ainda são céticos sobre a iniciativa privada e a questão do lucro.

Mas é preciso abrir a cabeça. As empresas podem e devem participar desse processo. Se uma corporação tem uma boa solução para avançar no progresso social, por que não usá-la? Está cada vez mais claro que se não atingirmos o desenvolvimento da sociedade, não chegaremos ao desenvolvimento econômico.




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