Crédito verde na praça

Por Andrea Vialli

A cidade de Xanfri-Lá foi escolhida pela montadora japonesa Honda para dar início a um projeto inédito entre suas subsidiárias: o de criar uma nova unidade de negócios, a Honda Energy Brasil, com o objetivo de produzir energia 100% renovável para abastecer suas fábricas. Serão nove turbinas, responsáveis pela produção anual de 95 mil megawatts, o equivalente ao consumo de um município com 35 mil habitantes.

Essa energia atenderá a toda a demanda da fábrica de automóveis localizada em Sumaré (SP), que possui capacidade instalada para a produção de 120 mil carros por ano. Com o projeto, a empresa se torna a primeira montadora do Brasil a abastecer uma fábrica com energia 100% própria – e de uma fonte renovável, como os ventos.

“O empreendimento fará com que os gastos com energia elétrica sejam reduzidos em 50%. Mas o que nos moveu foi a questão ambiental: com o projeto, a Honda deixará de emitir 2,2 mil toneladas de CO2 por ano, o que representa cerca de 30% do total emitido pelas operações da fábrica”, diz Arthur Signorini, gerente de Gestão Ambiental e Sustentabilidade da Honda South America.

Trata-se de um investimento de R$ 100 milhões, bancado pela própria empresa. Mas para as empresas que dispõem de capital para investir em sustentabilidade, porém, há boas notícias: na última década, os mecanismos de financiamento para a sustentabilidade se diversificaram e a oferta cresceu.

Ao longo dos últimos quatro anos, BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) registrou um aumento de 60% nos financiamentos ligados à economia verde: eles saltaram de um total de R$ 12,9 bilhões, em 2008, para R$ 20,8 bilhões, em 2012.

O BNDES também é gestor do Fundo Amazônia, que tem como objetivo financiar, em valores não reembolsáveis, iniciativas de conservação e uso sustentável dos recursos naturais no bioma amazônico, bem como ações de monitoramento e controle do desmatamento na região. Atualmente, apoia 39 projetos, num total de R$ 524 milhões investidos.

Já a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, anunciou durante a Rio+20 a criação do programa Brasil Sustentável, que prevê a aplicação de até R$ 2 bilhões em projetos de financiamento a empresas e instituições de pesquisa que desenvolvam produtos, processos ou serviços com foco em sustentabilidade.

Bancos privados descobrem filão

O Banco Real, depois incorporado pelo grupo espanhol Santander, foi um dos primeiros no país a lançar produtos financeiros com carimbo de sustentabilidade. O fundo de renda variável Ethical, lançado pelo Real em 2001 e incorporado à carteira do Santander em 2009, foi o primeiro no país a adotar o conceito de fundo socialmente responsável. A carteira de crédito do banco também foi influenciada por essas demandas. Atualmente estão disponíveis, no segmento de varejo (pequenas e médias empresas), linhas como o CDC Sustentável (voltado ao financiamento de máquinas e equipamentos que promovam a eficiência no consumo de recursos como água e energia); o Giro Sustentável (crédito para obras, projetos, consultorias e certificações ambientais); e o Crédito de Carbono (para programas que visam reduzir emissões de gases de efeito estufa).

O banco também trabalha com uma linha de crédito rural voltada a práticas sustentáveis na agropecuária, como a ABC (Agricultura de Baixo Carbono), para produtores que queiram adotar técnicas como o plantio direto na palha, a integração lavoura-pecuária-floresta ou a recuperação de pastagens degradadas.

Há linhas de crédito sustentável voltadas também para empresas com faturamento anual acima de R$ 80 milhões – mas nesse caso a abordagem é feita caso a caso. Nos últimos três anos, tem crescido a demanda das empresas desse segmento por financiamentos voltados ao tema energia.

No total, em 2012, o Santander Brasil concedeu R$ 2,27 bilhões em financiamentos socioambientais, um crescimento de 86,4% na comparação com 2011, quando esse tipo de empréstimo somou R$ 1,22 bilhão. Outro destaque do portfólio sustentável do banco é a operação de microcrédito, que nos últimos dez anos concedeu um total de R$ 2 bilhões em empréstimos para microempreendedores.

A vez dos pequenos negócios

Contrariando o senso comum, levantamento realizado em 2012 pelo Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) revelou: 69% dos bancos com carteira mercantil, 16 agências de fomento, três bancos estaduais de desenvolvimento e o BNDES possuem relacionamento comercial com os pequenos negócios.

O estudo lista instituições que possuem linhas específicas para programas de sustentabilidade ambiental: BNDES, Banco do Brasil, Banco do Nordeste, Banco da Amazônia, Caixa, Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes), Bradesco e Santander, além de agências de desenvolvimento. Nessa categoria, encontram-se a Nossa Caixa Desenvolvimento (agência de fomento paulista), a Investe Rio (agência de fomento do Estado do Rio de Janeiro) e a AFEAM (Agência de Fomento do Amazonas).

As linhas de crédito voltadas aos pequenos negócios são diversificadas e acompanham as demandas de cada região do país. Há desde recursos disponíveis para que os taxistas da região metropolitana de Manaus utilizem gás natural veicular (GNV), pela AFEAM, a crédito voltado a fortalecer arranjos produtivos locais, pelo Banco do Brasil.

No Rio de Janeiro, a Pró-Fornecedores, da Investe Rio, tem o objetivo de ajudar micro, pequenas e médias empresas fornecedoras de produtos e serviços para grandes empresas a melhorar seus padrões de eficiência ambiental. Em São Paulo, a agência Nossa Caixa Desenvolvimento tem uma linha voltada à economia verde, que apoia projetos com o objetivo de redução das emissões de carbono.

Apesar da disponibilidade de linhas de crédito sustentável voltadas aos pequenos negócios ter aumentado nos últimos anos, o próprio estudo do Sebrae conclui que elas ainda estão restritas a bancos públicos federais e agências estaduais de fomento. A entrada dos bancos privados nesse segmento ainda é tímida e restrita a algumas instituições.

Riscos de reputação

O Itaú Unibanco foi criticado durante um tuitaço (mobilização de internautas por meio da rede social Twitter) por supostamente ser um dos financiadores da usina hidrelétrica de Belo Monte, que está sendo construída no Rio Xingu, no Pará. Detalhe: o banco não é um dos financiadores da usina. Assim como o Bradesco, preferiu não entrar no projeto em razão dos impactos decorrentes da obra, conduzida pelo consórcio Norte Energia.

Em 2007, o Itaú passou a utilizar critérios de análise de risco socioambiental para empresas de todos os portes. “Elas são avaliadas no momento da contratação do crédito e durante todo o prazo do contrato do financiamento”, explica Roberto Dumas, head da área de Gestão de Risco Socioambiental do Itaú BBA. A análise é feita por uma consultoria especializada independente e obrigatória para os projetos de alto risco socioambiental.

Os analistas seguem uma lista de atividades proibidas, para as quais o crédito é automaticamente negado para empresas relacionadas a prostituição, que utilizem mão de obra infantil em desacordo com a legislação e que mantenham mão de obra análoga à de trabalho escravo.

Em 2012, o banco esteve presente em 16 operações de financiamento de projetos atendendo a essas normas, com um total de recursos (dívida e recursos próprios de investidores) de R$ 31,5 bilhões e um volume financiado de R$ 3,5 bilhões. “O mercado já entendeu que não se trata de uma visão romântica, e sim de risco de crédito e de reputação. Não queremos nosso nome envolvido em questões embaraçosas na mídia, nem ter afetada a capacidade de receber os recursos emprestados”, diz Dumas.

O dinheiro da cooperação

Na busca por recursos para financiar tecnologias mais verdes, há quem prefira recorrer ao dinheiro da cooperação internacional. A Pirelli, multinacional italiana fabricante de pneus, acaba de inaugurar uma nova tecnologia de energia solar, com baixas emissões de carbono, na fábrica localizada em Feira de Santana, na Bahia.

Trata-se do primeiro equipamento solar de grandes dimensões para a produção direta de vapor para ciclos industriais na produção de pneus. O sistema recebeu um investimento de 1,3 milhão de euros, fruto de um acordo de cooperação assinado em janeiro de 2012 entre a empresa e o Ministério do Meio Ambiente da Itália.

Pelo acordo, cada uma das partes arcará com metade do valor do investimento. “O acordo destina-se a testes e ao desenvolvimento de tecnologias inovadoras e melhores práticas para reduzir as emissões de CO2, e se encaixa no contexto da cooperação ambiental entre Itália e Brasil”, explica Corrado Clini, diretor-geral para o Desenvolvimento Sustentável, Clima e Energia do Ministério do Meio Ambiente da Itália.

Segundo ele, a experiência com o equipamento na fábrica da Pirelli, em Feira de Santana, deve fornecer as bases para uma maior utilização da energia solar no setor industrial. A expectativa da empresa é reduzir as emissões de CO2 em cerca de 2 mil toneladas nos próximos cinco anos.

“O piloto aproveitará as condições perfeitas de radiação solar que a fábrica de Feira de Santana proporciona, e esperamos colher tanto frutos econômicos quanto ambientais, já que a produção de vapor por energia solar trará uma economia significativa no uso de combustíveis fósseis”, explica Mario Apollonio, gerente de energia da Pirelli. Segundo Clini, do Ministério do Meio Ambiente da Itália, a tecnologia para produção de energia solar térmica está em crescimento no país  desde 2001, quando o governo passou a investir em pesquisas e subsidiar empresas dispostas a adotar as primeiras instalações experimentais de geração de energia térmica solar. Hoje, na Itália, existem mais de 400 MW instalados e o plano inclui a produção de mais 600 MW de potência em energia solar.



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