Designers do ensino

Por Marília Arantes


A High Tech High é uma rede de escolas de San Diego (Califórnia) que tem reinventado a educação nos Estados Unidos, nascida da necessidade de uma maior conexão do ensino com a necessidade dos alunos. Hoje, a rede pública, administrada pela iniciativa privada (charter schools), opera 11 escolas (duas de Educação Infantil, quatro de Ensino Fundamental e cinco dedicadas ao Ensino Médio). A metodologia apoia-se no aprendizado baseado em projetos e nos quatro pilares apontados por especialistas como essenciais para formar alunos para o século 21: personalização, conexão com o mundo, interesse comum em aprender e professor como designer do aprendizado. O grupo também é famoso por manter a sua própria instituição de pós-graduação para os professores, preparando-os para esse novo modelo de ensino. Diretora pedagógica da High Tech High, Nicole Hinostro conversou com Ideia Sustentável.

Ideia Sustentável – Como você enxerga o tema da sustentabilidade na educação infantil? Qual a melhor maneira de formar cidadãos mais bem preparados para enfrentar os desafios dos novos tempos?

Nicole Hinostro – O que compreendemos a partir da prática do ensino baseado em projetos é que um dos temas primordiais que temos à mão para desenvolver estudos é o meio ambiente. Há um valor imenso em trabalhar isso. Nossos alunos, por exemplo, projetam anúncios públicos em relação à vida ecologicamente correta e realizam campanhas pela reciclagem e reutilização de materiais, para captar água da chuva, cuidar de jardins e hortas. Os projetos em sustentabilidade são os que aparecem mais constantemente em nossas escolas porque, com eles, temos possibilidades de desenvolver habilidades, já que se trata de uma necessidade imediata pela qual todos os nossos alunos podem interagir com o mundo. Ao levá-los para a “vida real”, eles acabam também se relacionando melhor entre si. Além disso, é fácil misturar as ciências com pesquisas, linguagens, história, matemática, estatísticas, física, design, engenharia. Pela ótica da sustentabilidade, há muitas formas de integrar todas as disciplinas.

IS – Pela sua experiência, quem traz mais esse assunto para a escola: os professores ou os alunos?

NH – Algumas vezes são os professores; outras, os alunos. Mas o que nós educadores estamos reconhecendo é que, de um modo geral, já se enxerga essa necessidade. Isso explica por que colocamos nosso foco no que chamamos de “a meta da vida real”, visando perceber como o ensino afetará a comunidade e procurando enxergar essa necessidade. A sustentabilidade beneficia todo mundo e afetará questões da comunidade sobre o meio ambiente e a ecologia de forma central.

IS – Na Califórnia, atualmente, há um grande engajamento com o tema ambiental. Como esse movimento abarcou a área da educação? A seu ver, essa nova geração – que nasceu no universo digital – tem mesmo vindo mais bem preparada para a inovação? O que ela traz de diferente?

NH – Esse tipo de ensino não acontece somente na Califórnia. Mas também ainda não está disseminado em todo o país. Temos muito trabalho pela frente! O que eu posso dizer sobre essa nova geração é que precisamos trabalhar mais cotidianamente objetivando fortalecer a capacidade de pensar de forma crítica. É preciso praticar: tentar fazer perguntas melhores, e não só corresponder ao esperado. Acredito que carregamos as respostas conosco. Mas a habilidade de solucionar problemas e a análise crítica são os grandes temas da educação de hoje. Nosso maior desafio é a reflexão: “Quem sou eu? Como posso tornar-me parte da comunidade? Qual o sentido do meu trabalho para a comunidade?” Essa criticidade é o que estamos demandando dos alunos, é nossa meta fundamental. Assim, acredito que temos de trabalhar para construir cidadãos ativos, formar um público capaz de engajar a comunidade na resolução de problemas, com coerência, consciência, de forma inovadora e mais ousada. Acredito que isso não deva ser só individualmente, mas vir, principalmente, da dimensão da coletividade.




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