Como as empresas podem se tornar mais estratégicas sobre a mudança climática?

Por Aileen Ionescu-Somers

Particularmente durante os últimos anos, o tema sobre mudanças climáticas tem atraído uma quantidade enorme de atenção do público. Depois de mais de uma década de intenso debate na comunidade científica, há agora um consenso generalizado de que as emissões de gases do efeito estufa provocadas pelo homem estão muito provavelmente causando um rápido aumento na temperatura média global. Cenários atuais indicam que um grande e coordenado esforço é necessário para atenuar as consequências potencialmente graves para os ecossistemas e a sociedade humana.

A partir de um ponto de vista corporativo, a mudança climática atingiu o status de questão estratégica que tem o potencial de impactar significativamente nas operações de diversas maneiras. Em primeiro lugar, muitos negócios serão diretamente afetados pelas alterações climáticas manifestadas através do aumento de temperaturas, do nível do mar e mudanças nos padrões climáticos. Em segundo lugar, as próprias empresas são um dos maiores emissores de gases do efeito estufa e, assim, contribuem para as mudanças climáticas. É por isso que os principais grupos de interesse como as ONGs, órgãos regulatórios, investidores, clientes e a imprensa começaram a ter um olhar crítico sobre produtos e processos das empresas que emitem gases do efeito estufa e exigem cada vez mais medidas de redução.

Vale ressaltar que, enquanto o impacto físico das mudanças climáticas nas empresas será primordialmente observado no longo prazo, os impactos socioeconômicos através dos públicos de interesse são muito mais imanentes. Na verdade, os impactos físicos e socioeconômicos da mudança climática são amplamente dissociados. Mesmo se uma companhia dúvida da base científica das mudanças climáticas ou se considera protegida das suas consequências físicas, o impacto socioeconômico emergente através de seus públicos de interesse pode, em curto prazo, afetar sua linha de fundo financeira. Isso ilustra que, para as empresas, a questão se haverá mudanças climáticas ou não está sob relevante subordinação. Desenvolvimentos relacionados às mudanças climáticas já estão alterando o ambiente de negócios em diversos setores. Empresas terão de avaliar cuidadosamente os riscos e oportunidades que se seguem com essas mudanças e resolvê-los através do desenvolvimento de estratégias empresariais adequadas.

Métodos e esquemas para calcular o montante e o impacto dos gases do efeito estufa – também conhecidos como pegada de carbono – tem sido amplamente debatidos no campo de pesquisa da Análise do Ciclo de Cida (ACV). Considerando isso, é interessante notar que as metodologias atualmente em uso não foram impulsionadas pela pesquisa do ACV, mas emergiram como resultados de iniciativas de ONGs, governos, empresas e organizações privadas.

Com o aumento da atenção pública às mudanças climáticas, o número de iniciativas relacionadas com as pegadas de carbono cresceu ao longo dos últimos anos. Para nomear alguns exemplos, a British Standards Institution desenvolveu uma especificação denominada PAS (Publicly Available Specification) para medir as emissões de gases do efeito estufa presentes nos bens e serviços. A United Nations Environmental Programme lançou um grupo trabalhando na definição dos princípios da pegada de carbono. Além disso, os governos de muitos países e estados – como Austrália e Califórnia – tem desenvolvido diretrizes técnicas para notificação compulsória ou voluntária em mercados emergentes.

A metodologia para quantificar e notificar emissão de gases do efeito estufa mais amplamente utilizada internacionalmente é o GHG (Greenhouse Gas Protocol). O GHG Protocol, desenvolvido pela World Resources Institute e a World Business Council for Sustainable Development em 2001, fornece um procedimento detalhado para estimar, verificar e divulgar as emissões de gases do efeito estufa. O quadro contabilístico que divide as emissões corporativas em três âmbitos tem sido usado como base para a maioria das padronizações e diretrizes em torno da contabilidade de emissões. Em 2006, a Organização Internacional para Padronização lançou o ISO 14064 que foi elaborado com base no GHG Protocol e tinha como objetivo reforçar a credibilidade dos inventários de gases do efeito estufa através da promoção da normalização.

Para um suporte maior às empresas que calculam suas emissões, algumas organizações desenvolveram ferramentas baseadas em planilhas e calculadoras online. O GHG Protocol oferece uma série de sofisticadas ferramentas de cálculos setoriais específicos que podem ser baixadas de graça no site da iniciativa. Ferramentas que ajudam a construir um inventário de gases do efeito estufa em pequenas e médias empresas e companhias do setor de serviços estão disponíveis na Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos. Empresas australianas que comunicam suas emissões para a National Greenhouse e Energy Reporting Act têm acesso a uma calculadora de emissões chamada OSCAR, uma ferramenta de coletas de dados online para gravação de informações de energia, resíduos e gases do efeito estufa.

Apesar dos esforços em curso para aperfeiçoar e padronizar a contagem de emissões, ainda existem deficiências óbvias dentro da metodologia, que terão de ser abordadas no futuro. Atualmente, ainda há uma grande diversidade de definições de pegadas de carbono utilizadas pelas empresas. Além disso, há falta de normas precisas existentes em alguns pontos cruciais, particularmente quanto à definição das fronteiras do sistema. Uma vez que apenas o que pode ser medido pode ser gerenciado, a capacidade de calcular com precisão e comparar as pegadas de carbono das companhias vão ter um papel decisivo para o progresso que pode ser feito no campo da gestão de carbono.

Entretanto, para além da contabilidade, quando se trata de se tornar mais estratégico sobre a mudança climática, os seguintes pontos merecem séria consideração:

– Impactos físicos das mudanças climáticas. Com as consequências das mudanças climáticas ficando cada vez mais palpáveis, há uma grande necessidade por estudos que analisem efeitos físicos distintos das mudanças climáticas para as empresas em uma ampla gama de setores. Estudos futuros não devem considerar apenas empresas com um modelo de negócios diretamente dependente das condições climáticas, mas tentar modelar e quantificar os impactos físicos nos principais negócios.

– Inovação e mudança climática. Mais ênfase deveria ser colocada ao descrever exemplos de companhias que aproveitaram as grandes oportunidades que a mudança climática apresenta. Para mitigar as mudanças climáticas de uma forma que evite consequências desastrosas será preciso grandes mudanças nas práticas industriais. Prover exemplos de estudo de negócios que tenham desenvolvido novos produtos ou serviços em torno das mudanças climáticas e revolucionaram com sucesso seu modelo de negócios pode, portanto, ajudar a estimular práticas inovadoras para lidar com essas mudanças.

– Países em desenvolvimento e as PME. O escopo dos estudos deve ser ampliado para incluir pequenas e médias empresas em países em desenvolvimento. Esses países irão ter um papel fundamental na mitigação das mudanças climáticas. Uma descrição das práticas corporativas e dinâmicas pode ajudar a traçar um quadro global de respostas para as mudanças climáticas.

Há um foco predominante em fatores institucionais para explicar as estratégias corporativas para a mudança climática, em detrimento das seguintes considerações:

(1)    Visão baseada em recursos. Até este ponto, permanecem sub investigadas as capacidades específicas e os recursos que induzem as empresas a seguirem estratégias relacionadas às mudanças climáticas específicas. Há capacidades identificáveis em uma companhia com uma postura proativa sobre as alterações do clima? Quais são as barreiras internas para estratégias progressivas? Um melhor entendimento do comportamento corporativo a partir de uma perspectiva baseada em recursos poderia completar a visão institucional atualmente dominante.

(2)    Caso de negócios para mudanças climáticas. Relacionada à opção de pesquisa anterior, mais luz precisa ser derramada na lógica econômica de ação das empresas com relação às mudanças climáticas. Quais são os elementos do caso de negócios para integração das estratégias de mudança climática? Será que estratégia proativa paga? E até que ponto as estratégias corporativas são realmente baseadas em motivos econômicos? O caso de negócios geral para sustentabilidade tem sido discutido por um longo período sem conduzir a uma resposta convincente se o comportamento sustentável das empresas é lucrativo. Muitas das ambiguidades nos resultados são devido ao alto grau de abstração em que o debate aconteceu. Olhar para o exemplo concreto de mudanças climáticas oferece uma oportunidade de focar a discussão na relação entre desempenho ambiental e econômico.

(3)    Ligação entre teoria institucional e visão baseada em recursos. Devido às diferentes formas em que as alterações climáticas afetam as empresas, o tema presta-se a investigar a ligação entre a teoria institucional e a perspectiva baseada em pesquisa. Ele deve ser investigado como nos processos de decisão da empresa o institucional e fatores baseados em pesquisa complementam ou contradizem a si mesmos.

Há um grande número de quadros que se destinam a auxiliar gestores na construção da estratégia para se adaptar às mudanças climáticas. Entretanto, apenas para a área de contabilidade das emissões existem ferramentas que específicas o suficiente para fornecer uma ajuda concreta às empresas. Quadros sobre como estruturar o processo de construção de estratégias em torno da mudança climática são mantidos muito genéricos e deixam muitas questões sem respostas. Os pontos a seguir precisam ser levados em consideração no futuro:

(1) Medição de impactos indiretos na mudança climática. O impacto nos negócios das mudanças climáticas está fortemente relacionado com a alteração da mentalidade de diferentes grupos de interesse que exercem pressão na companhia. Para decidir se deve ou não agir, a empresa precisa avaliar e medir o impacto das condições climáticas. No entanto, para designar quadros que ajudem as empresas a analisar sistematicamente o impacto indireto e sociopolítico das mudanças climáticas na sua linha de fundo financeiro não estão disponíveis. A habilidade de medir o impacto das mudanças climáticas será crítico para as empresas construírem caso de negócios e priorizar opções estratégicas. Os trabalhos futuros nesta área poderiam se construir em cima dos primeiros quadros de avaliação de risco que foram desenvolvidos dentro da comunidade de investidores, por exemplo.

(2) Planejamento de cenários de mudanças climáticas. A natureza estratégica e de longo termo das mudanças climáticas exige que as empresas façam uso do planejamento de cenários. Ser capaz de sistematicamente identificar tendências e resultar em risco e oportunidades potenciais para construir cenários apropriados é provável que se torne um recurso importante para derivar uma estratégia robusta de mudança climática. As ferramentas que devem ser desenvolvidas são particularmente adequadas para apoiar as empresas com esta tarefa difícil.

(3) Pegadas de carbono. Muito esforço está sendo investido no desenvolvimento de métodos para calcular e relatar a pegada de carbono. Durante os últimos anos, avanços significativos têm sido feitos na padronização de procedimentos. No entanto, mais trabalho é necessário para se tem certeza que pegadas de carbono corporativas são realmente comparáveis e podem ser usadas como base para avaliar o desempenho da empresa no campo das mudanças climáticas.

CSL Learning Platform, do IMD, desenvolveu um conjunto de ferramentas estratégicas para as empresas que desejam se tornar mais estratégicas enfrentando a mudança climática. Ele pode ser baixado gratuitamente em: http://www.imd.org/research-knowledge/global-centers/sustainability-leadership/climate-change-strategy/

Aileen Ionescu-Somers, Ph.D, é diretora da plataforma CSL Learning, IMD Global Center for Sustainability Leadership (CSL).




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